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Em torno de Guerreiro Ramos

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Há muitas maneiras de não ler um autor, sobretudo quando passa a ser mais comentado, e Guerreiro Ramos não é uma exceção. Não se passou ano nenhum, após sua morte, em 1982, sem que viesse a lume algum estudo sobre ele – e em seu centenário, em 2015, um prêmio nacional foi instituído com seu nome.

É claro que a leitura de trabalhos sobre Guerreira Ramos é positiva.[i] Ajuda-nos, certamente, a nos situar em relação a um autor cujo nome se articula a organizações como o Teatro Experimental do Negro, a Escola Brasileira de Administração Pública – cuja aula inaugural ministrou – e o Instituto Superior de Estudos Brasileiros.

O lado negativo consiste em domesticar, enquadrar e concorrer para baixar o volume da audição direta da voz de um autor de argumentação pujante, revelada mesmo num livro pensado e escrito em inglês e vertido ao português em tradução, como é o caso de A Nova Ciência das Organizações: Uma Reconceituação da Riqueza das Nações.

A tese do livro é simples: a riqueza das nações – expressão que remete ao célebre título do livro de Adam Smith que fundou a economia política moderna em 1776 – está nas pessoas. Vale dizer: nas pessoas empregadas e nas pessoas não empregadas, também e sobretudo.

“O alegre detentor de emprego”, escreve Guerreiro, é uma “vítima patológica da sociedade de mercado” (p.98), um aspecto da realidade que nem a economia política, nem a crítica da economia política (a vertente de Marx) e nem a sociologia ajudam muito a esclarecer.

Na verdade, argumenta Guerreiro nos seis capítulos iniciais da obra, essas disciplinas foram assimiladas ou cooptadas por uma espécie de “política cognitiva” com a qual é necessário romper para divisar outras perspectivas sociais, pessoais, ambientais e mundiais.

Definida como “psicologia da sociedade centrada no mercado”, a política cognitiva é objeto do único capítulo que julguei mais fácil entender, num esforço inicial de leitura da obra, há mais de vinte anos.

Guerreiro Ramos
 

Um fichamento de leitura da Nova Ciência das Organizações vale por uma universidade que ainda não existe no Brasil. E revela Guerreiro como um dos precursores da recepção – da alta recepção – da Escola de Frankfurt no Brasil, assim como de autores que mal começam a ser assimilados e traduzidos, de Robert Dahl a Eric Voegelin, passando por Karl Polanyi.

Em verdade, machuca o leitor a falta de cerimônia e a ousadia comas quais procede Guerreiro Ramos para desprezar certo senso comum sociológico e criticar o que considera conceituações supersocializadas, que exageram a significação da história e da sociedade na constituição e determinação da da razão humana.

Exemplo: “Há um sobretom sociomórfico no projeto de Habermas, de ‘uma teoria destinada ao esclarecimento’ [ alusão a Conhecimento e Interesse], que promete o esclarecimento existencial como uma qualidade coletiva do comportamento de massa, quando o esclarecimento tem sido sempre possível apenas ao nível da psique individual” (p.20).

Nos quatro últimos capítulos, Guerreiro Ramos dá as pistas para a consideração, a compreensão, a valorização e mesmo o desenho de espaços paraeconômicos da sociedade, submetidos a uma lógica de realização da vida pessoal e social que não pode e não deve ser pensada sob a lógica da economia de mercado.

Segundo o autor, são os espaços de atuação de organizações chamadas “isonômicas” e “fenonômicas” – neologismo derivado de palavra grega ligada à expressão –, mas também dos agentes ditos “isolados”. Há vinte anos, achei um despropósito, mas hoje acho um alento e um alimento generoso na taxonomia de Guerreiro, a nutrir e suprir muita reflexão sobre sociedade e movimento social.

Veterano da geração que fez o Quilombo, jornal cujo subtítulo era Vida, Problema e Aspirações do Negro, Guerreiro confirmou na reconceituação da riqueza das nações uma intuição primeira da centralidade da vida na sua experiência isonômica no TEN?

[i] Para uma visão geral da pessoa e da obra de Alberto Guerreiro Ramos, ver: JULIANO, Rosane Aurore Romão. Um século de Alberto Guerreiro Ramos, teórico das organizações. Junho, 2015. Disponível em:  http://guerreiroramos.org.br/wp-content/uploads/2015/11/Um-s%C3%A9culo-de-Alberto-Guerreiro-Ramos-CFA-Identificado-_28.10.2015.pdf

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