Centro de Documentação, Comunicação e Memória Afro-brasileira

Escreve aí, Maria!

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Uma imagem que tenho de infância era de D. Raimunda, negra alta e corpulenta, amiga da minha avó Maria da Conceição, nos visitando todos os domingos. Elas frequentavam a mesma igreja, N. Senhora do Loreto, no bairro da Freguesia, em Jacarepaguá, e nas suas folgas, da casa onde trabalhava, ela usava parte do tempo indo à missa e o restante  frequentando nossa casa  nos finais de semana, que se tornou um espaço de passeio-refúgio, mas também de possibilidades de se comunicar com o seus familiares, moradores de Cataguazes, em Minas Gerais.

E o ritual do pós-almoço sempre se repetia, gargalhadas, música  na vitrola, alguma reclamação dos excessos dos patrões, mas imediatamente se arrependia e explicava “são pessoas muito boas”, e o que se seguia era convencer minha avó a vencer o sono de depois da comida e escrever uma carta para seus parentes “ Escreve aí Maria, prometo que hoje não será grande”. E ela ditava tudo, com riqueza de detalhes, atualizando as notícias de saúde,  do Rio, perguntava por todos de lá,  sempre prometia que desse ano não ia passar a visita, se tinha algum dinheiro escondia no meio das folhas, e no final, já cansada de ter escrito sua carta falada, dizia para minha avó “ agora leia, quero ver se você escreveu tudo que eu pedi”. Minha avó resmungava, mas obedecia e lia aquela narrativa mediada.

O tempo passou, minha avó e sua amiga já faleceram, mas esta cena tem me acompanhado, atualmente uma inquietação me persegue, tanto na condição de professora, assim como de leitora,  onde estão guardadas estas histórias das famílias negras, onde estão estas escritas de si, estas histórias de vida, estas autobiografias negras, estas narrativas mediadas?

Um desafio interessante para começar.  Fiquei pensando um pouco sobre as múltiplas formas de autobiografias, se faz necessário alargar a ideia  inicial deste conceito, tentando ler através de outras fontes, as especificidades  de um “eu-narrado negro”, já que a ausência de grafia, não se revelou como um empecilho instransponível, muito pelo contrário, alternativas foram (re)criadas,  desde que se observe através de uma lente sensível como negros e negras se retrataram.

A literatura negro-brasileira, neste aspecto, fornece bons exemplos, temos uma carta de Luiz Gama a Lúcio de Mendonça, em 1880,  traz sua história de vida, ainda no século XIX; a década de sessenta do século XX traz um diário arrebatador de Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo, em 1960, além de Casa de Alvenaria;  o escritor paulista Oswaldo de Camargo, em 2015, traz suas memórias autobiográficas em Raiz de um negro brasileiro, e, mais recentemente, em 2017,  temos a obra Na minha pele, do ator, diretor e escritor Lázaro Ramos, que está vigorando nas listas de obras não ficcionais  mais vendidas, nos suplementos literários, e portais de livrarias   desde o seu lançamento.  Segundo dados da editora, o mês de outubro já havia fechado perto de 50.000,00(cinquenta mil) unidades entre o livro brochura e e-book, revelando que as histórias de vida de pessoas negras interessam, sim.

Atualmente, atraída por histórias de mulheres negras como D. Raimunda, que o não domínio da escrita nunca privou de escrever suas cartas ditadas, fui conduzida ao Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e, através de testamentos e inventários, estou desvelando uma infinidades de narrativas, subterrâneas, encravadas em documentos oficias do século XIX, que hoje são tomadas por mim e meu grupo de pesquisa para conhecermos o universo de  Almerindas, Faustas, Franciscas, Jacintas, Marias, as quais, assim como D. Raimunda, souberam escolher seus mediadores de escrita, seja pelo poder econômico destas mulheres do século XIX, ou pelo afeto de D. Raimunda. E hoje repito o exercício silencioso herdado de minha avó, releio tudo, para ver se não faltou nada!

Fernanda Felisberto

Professora do Departamento de Letras da UFRRJ –IM Nova Iguaçu.

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