Lojas de creme de cabelo: onde nós, mulheres negras, diariamente sob pressão da TV, das revistas e da escola, aprendemos desde cedo a nos negar, a nos mutilar, a não gostar de nós mesmas. Aqui morremos pela negação estética.
A forma de morar: as moradias das famílias negras estão quase sempre nos becos, vielas, escadarias, ladeiras de barro, onde às vezes não há espaço para passar uma geladeira. Estas casas sem direito a reboco e menos ainda à pintura, formam um triste espetáculo e denunciam a situação de Apartheid vigente.
Os Mercadinhos: Casas Comercias varejistas: A arquitetura do terror conta, ainda, com uma forma mais perversa, que se materializa no ato de tomada das ruas de frente dos bairros pelos brancos pobres que, como sabiamente mostrou Spike Lee, em seu filme Faça a Coisa Certa, em menos de 5 anos se transformam em uma classe de destaque no bairro. São esses mesmos comerciantes que controlam os Conselhos Comunitários de Segurança, contratam os grupos de extermínio, geralmente formados por policiais, e assim impõem o silêncio nos bairros negros de Salvador. Esses comerciantes ocuparam o lugar que historicamente eram das quitandas de mulheres e homens negros, que se proliferavam em todos os bairros da cidade.
O protagonismo negro como resposta
Como resposta à brutalidade racial que marca a matança de jovens negros em Salvador e na sua região metropolitana, que em 11 de abril de 2005 já havia superado todos os números de mortes de todo o ano de 2004, a partir da capital baiana nasceu uma proposta, não tutelada pelos ativistas da paz, de enfrentamento desta forma radical de violação dos direitos humanos da população negra. Trata-se da Campanha REAJA OU SERÁ MORTA, REAJA OU SERÁ MORTO, que assumiu um conjunto de medidas que estão sendo tomadas pela defesa dos direitos humanos da população negra de Salvador e interior da Bahia. Não aceitando que a maioria das mortes sejam atribuídas ao envolvimento com drogas, como têm sido corrente, ou que a polícia tenha o direito de executar sumariamente qualquer pessoa com passagem pela prisão, alegando reação da vítima. A reação negra é o centro desta campanha de atitude em defesa do direito básico à vida.

A Campanha, que está sendo realizada por organizações do Movimento Negro, foi publicamente às ruas em 12 de maio, com uma vigília na porta da Secretaria de Segurança Pública, contando com a participação de várias comunidades mobilizadas para denunciar e reagir. Em seguida, organizou uma audiência na Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, solicitada pela Comissão de Direitos Humanos do Congresso Nacional, quando muitas mães de vítimas da polícia deram depoimentos e exigiram uma postura dos deputados baianos. Os participantes da Campanha prepararam um dossiê sobre a ação dos grupos de extermínio, entregue ao presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA - Organização dos Estados Americanos, Senhor Clare Roberts, também representante da recém-criada Comissão de Direitos dos Afro-descendentes na OEA. Durante o encontro com o Sr. Roberts, na sede da OAB - Sessão Bahia, lhe foi solicitado que recomende ao governo da Bahia a instalação de uma CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar as responsabilidades pela ação do extermínio no estado e que também busque ajuda do Governo Brasileiro para organizar uma força-tarefa, capaz de investigar e punir com imparcialidade os grupos de extermínio que estão atuando na Bahia.
Desnaturalizar o silêncio permissivo diante dessa matança é uma tarefa difícil e perigosa e, por isso mesmo, até agora só está sendo assumida pelo movimento negro, que tem atuado nos bairros populares, como Pau da Lima, Itinga e Bairro da Paz, lugares onde constantemente ocorrem invasões violentas da polícia, blitz nos ônibus, baculejos em festas, tortura de jovens, prisões ilegais e outros constrangimentos. Que o próximo mês de maio venha sem tantas dores e que os Orixás continuem a nos dar caminhos para enfrentarmos a brutalidade racial. Batermos de frente com o racismo continua sendo necessário para a nossa sobrevivência.
(1)Ter antecedentes criminais se tornou uma senha para matar. Pois à população negra não tem sido facultado o direito de defesa. Dados da CJP - Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Salvador, publicados em “O Outro Lado da Moeda”, 2000.
(2)Vilma Reis. Operação Beiru: Falam as Mães dos que Tombaram. Monografia de Final de Curso de Bacharelado em Ciências Sociais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia (FFCH/UFBA), 2001. Durante aquela pesquisa foram entrevistadas mulheres que declararam que todos os seus filhos, jovens homens negros, já haviam sido assassinados. Muitas famílias haviam mudado de bairro para serem esquecidas pelos policiais e pelos grupos de extermínio tolerados pela polícia.