Contato
       Nº. 25
Jônatas Conceicão da Silva
O quilombola das Saubaras invisíveis
Lindinalva Barbosa, Militante do Movimento Negro, Educadora, Mestranda em Estudo de Linguagens – UNEB e Técnica-Administrativa do CEAOUFBa
Em 1986, participei, pela primeira vez, de um encontro do movimento negro, em Salvador. Não recordo o nome do encontro, mas lembro bem que aconteceu no auditório do Colégio Antônio Vieira e estava cheio de pessoas em sua maioria jovens que falavam de coisas que eu nunca tinha ouvido (ou tinha me dando conta) antes: racismo, consciência negra, apartheid, embranquecimento, mito da democracia racial, poder para os negros e por aí vai..... Saí dali impactada tanto pelos discursos, quanto pelas presenças. Nunca mais consegui me afastar daquele meio, nem daquelas idéias.

Uma das falas que mais me impressionaram naquele dia foi sem dúvida a de Jônatas Conceição. A aparência franzina e a fala mansa contrastavam com a força e credibilidade que as suas palavras produziam. Na hora, tive o sentimento de que a gente podia confiar plenamente naquilo que aquele cara estava dizendo. E esta impressão foi sendo confirmada ao longo dos mais de vinte anos em que compartilhamos militância negra e amizade.

Escrever estas poucas linhas sobre Jônatas, embora não seja tarefa simples, me permite rememorar e dividir um pouco das lembranças sobre um homem que ajudou a mudar a feição da cidade mais negra do mundo fora da África: Salvador. Jônatas nasceu nesta cidade, mas bem poderia ter nascido em outro canto do Recôncavo, em Saubara, cidade que amou e cantou a vida inteira e a que dedicou um de seus mais belos poemas: Às Saubaras invísiveis. Ele também amou muito o bairro onde escolheu viver, o Engenho Velho de Brotas, lugar de resistência negra cotidiana e de inspiração para a sua poesia: de lá, enxergou “miragens e outras miragens de engenho”, através dos batuques dos sambas de São João (e dos outros dias do ano), das rezas de Santo Antônio, dos cheiros das cozinhas pretas e do convívio fiel com o povo do lugar.

Foi pelos caminhos da militância no Movimento Negro Unificado - MNU da Bahia, organização que ajudou a fundar em 1978; e da atuação no bloco afro Ilê Aiyê, do qual era diretor, que tive o privilégio de conhecer Jônatas mais de perto. Como professor incansável, viveu a “ensinar”, com o próprio exemplo, a pertinência e determinação em lutar pelas coisas em que acreditava, primando sempre por uma inegociável sinceridade - essa virtude tão escassa em nossos dias. Como poeta dos melhores, perseguiu e manejou as letras com cuidado e, juntamente com outros e outras do seu tempo, imprimiu o adjetivo negra à Literatura.

Sempre preocupado com a divulgação de informações sobre a negritude, Jônatas costumava emprestar livros (para os/as amigos/as ou pessoas que elegia como tais, sob a condição expressa de serem devolvidos intactos) e disseminar notícias que fossem do interesse da gente. Velho hábito do militante da imprensa negra, editor do Jornal Nêgo, primeiro impresso do MNU que circulou até 1988. A partir daí, a organização passa a editar o Jornal do MNU, sob a coordenação de Edson Cardoso e colaboração efetiva de Jônatas Conceição. Segundo o amigo Edson, Jônatas sempre foi “...desde os tempos de estudante um apaixonado pelos jornais. Estava, nos anos setenta, sempre com um jornal não mão...”.

Enquanto militante do MNU, Jônatas também integrou o Grupo de Educação e publicou, nos Cadernos de Educação do CECUP, um trabalho importante que merece ser visitado/revistado pela educação: Reflexões sobre o ensino do Português para a escola comunitária (Caderno de Educação Popular, nº 20, Salvador: CECUP, 1991); e organizou o livro Movimento Negro Unificado - 1978-1988, 10 anos de luta contra o racismo (São Paulo: Confraria do Livro, 1988), edição histórica e comemorativa do decênio da organização. No Ilê Aiyê, continuou o destino de escriba negro, sendo responsável pela organização de muitas das publicações da entidade, como os periódicos Cadernos de Educação do Ilê Aiyê (Salvador: PEP do Ilê Aiyê), do PEP - Projeto de Extensão Pedagógica, projeto que também coordenou, além de co-dirigir os festivais anuais de música do bloco. Empreendimentos que fazia bem feito como ofício e obrigação de militante das causas antiracistas, sem nenhuma vaidade ou arroubos de grande liderança.

Como escritor e poeta, Jônatas Conceição participou de movimentos significativos da Literatura Negra brasileira, como o GENS - Grupo de Escritores Negros de Salvador, de finais da década de 1970; publicou regularmente nos Cadernos Negros (São Paulo: Quilombhoje); também participou de diversas outras antologias nacionais e internacionais, como Callallo - Revista de Artes e Letras Afro- Americanas e Africanas (Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1995). Publicou individualmente os livros de poemas Miragens de Engenho (Salvador: IRDEB, 1984), que foi republicado, acrescido de novos poemas, em Outras Miragens (São Paulo: Confraria do Livro, 1989); organizou a antologia Quilombo de Palavras (Salvador: Ilê Aiyê/ EDUFBA, 2000), a qual tive o privilégio de ser parceira na co-organização.

Como fruto de sua experiência acadêmica no curso de Mestrado em Letras da UFBA, Jônatas publicou Vozes Quilombolas - Uma poética afro-brasileira (Salvador; Ilê Aiyê/ EDUFBA: 2004). Neste livro, Jônatas tece uma abordagem em torno do quilombo e das canções do “mais belo dos belos” sobre essa temática, nos mostrando a eficácia do “aquilombamento” como estratégia de sobrevivência do povo negro na diáspora e de salvaguarda dos modos de vida africano e afrobrasileiro como princípios civilizatórios que servem para todas as pessoas. O livro é um testemunho da laboriosa capacidade que o povo negro tem, através de séculos de escravidão e opressão racial, de exercer a “felicidade guerreira”, aquilombando-se nos campos e nas cidades, em labutas diárias por uma vida melhor, livre do racismo e das desigualdades.

Ainda em Vozes Quilombolas, estão dedicadas algumas páginas ao poeta gaúcho Oliveira Silveira, referência da Literatura Negra produzida a partir dos finais dos anos de 1960, e à sua obra Poema sobre Palmares (Porto Alegre: edição do autor, 1987), versos que têm animado a luta dos quilombolas de hoje. Jônatas - assim como Oliveira - foi cantar seus versos em outras plagas, deixando, no entanto, para nós uma vida inteira de herança. Herança em forma de feitos, lições, poesia e crença na “felicidade guerreira”. Pouco antes de partir, nos adverte, em texto deste Jornal Irohin para o poeta e amigo Oliveira, de que “Os escritores não morrem. Os poetas são para serem lidos, relidos e divulgados à mão cheia” (ano XIII, nº 24, p. 35). Então, sigamos a recomendação do poeta quilombola.

Jônatas Conceição da Silva sempre foi um homem de poucas palavras, porém de muita sabedoria, submersa no olhar atento do homem apaixonado pelas coisas da cultura negra que fervilhavam na Roma Negra ou em qualquer outro canto aonde tivesse quilombagem.

Pela dignidade das escolhas que fez, Jônatas será sempre um bem lembrado entre nós! Da minha parte, só resta agradecer a sua presença e dileta amizade, a sua fala naquele dia de 1986 e a sua ação quilombola permanente. Que seus versos continuem sendo cantados eternamente pelas vozes quilombolas do povo negro do Brasil e do mundo.