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CLIPPING
07/02/2010 - Fonte: Zero Hora
“O papel da Minustah deve ser repensado”

Ricardo Seitenfus Professor gaúcho, representante da OEA no Haiti

Uma cidade dominada pelo silêncio, pessoas perplexas, corpos expostos pelas ruas – foi uma nova e chocante realidade a que encontrou o gaúcho Ricardo Seitenfus, 61 anos, quando retornou a Porto Príncipe, capital haitiana, logo depois do dia 12 de janeiro. Mesmo para ele, profundo conhecedor das mazelas do país mais pobre das Américas.

– É inimaginável. Meu passar de olhos pelos prédios que eu conhecia, que frequentei, onde eu trabalhei, e de onde, entre os escombros, apareciam cadáveres. Isso me impressionou muito – relatou.

Agora, explica o representante do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Haiti, a hora é de organizar a ajuda humanitária e começar a desenhar uma reconstrução da nação devastada pelo terremoto – o que classifica de “a maior tragédia que as Américas já conheceram”. Para isso, argumenta, será imperativo o comprometimento da comunidade internacional e uma mudança total no papel da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), liderada pelo Brasil.

Por telefone, do escritório da OEA em Porto Príncipe, Seitenfus conversou na tarde de quarta-feira com Zero Hora sobre os desafios haitianos. Confira os principais trechos da entrevista:

Zero Hora – Como tem sido a sua rotina no Haiti desde o tremor?

Ricardo Seitenfus –
Tenho trabalhado na coordenação política. Está sendo montada uma nova coordenação da ajuda internacional, que é um dos grandes problemas no momento. E, por outro lado, uma coordenação com o governo haitiano, que sofreu muitas perdas: não somente seus edifícios ruíram, mas também muitos familiares dos ministros faleceram. O governo está numa situação muito delicada e é necessário ter esse diálogo permanente e reforçar a sua capacidade de administração, quase totalmente perdida.

ZH – O terremoto acabou com todo o avanço no Haiti nos últimos cinco anos, que contou com importante participação do Brasil?

Seitenfus –
Dos últimos 20 anos. Todo o trabalho que fizemos politicamente foi por água abaixo, como a realização de eleições de forma constitucional, a mudança dos parlamentares, tudo isso foi comprometido. Há um diálogo nacional e um consenso entre os políticos, isso é importante. Mas será um trabalho de reconstrução de uma nação, não somente de edifícios ou de casas. Espero que essa união se mantenha e que a gente possa ajudá-los. Mas isso dependerá deles: os problemas são dos haitianos, antes de mais nada. Não viemos aqui para dar lições.

ZH – O que será preciso fazer para reerguer o país?

Seitenfus –
Houve a fase da emergência, em que era necessário tentar salvar quem era para ser salvo. Essa fase de agora eu chamaria de “lamber as feridas”, de fazer com que as pessoas tenham o mínimo necessário para sobreviver. Depois, a fase da reconstrução de Porto Príncipe, que deve ser totalmente repensada. A tecnologia usada deverá ser adaptada à falha geológica que existe na região. É muito provável que daqui a 10 anos, ou cem anos, ela poderá se manifestar de novo. E, depois, há a fase da reconstrução do país como tal, criar nichos em que o país possa se desenvolver, tenha um mínimo de autossuficiência. A agricultura de subsistência é fundamental, como também a indústria para exportação, com a ajuda proposta pelo ministro Celso Amorim (chanceler brasileiro), de que os produtos provenientes do Haiti não tenham nenhum tipo de imposto por um período de 15 a 20 anos. O turismo também poderá ser uma via.

ZH – E nesse primeiro momento, de onde sairão os recursos para a reconstrução?

Seitenfus –
Sem a ajuda do Exterior não será possível. Mas há uma vontade nesse sentido, já se mencionou um montante de US$ 10 bilhões, US$ 2 bilhões por ano em um prazo de cinco anos. É o mínimo necessário para a reconstrução do país. Sem financiamentos, sem doações internacionais, isso não será feito. Há um elemento fundamental no qual eu queria insistir: há, nesse momento, muitos oportunistas, muitas organizações não confiáveis, muitas organizações desonestas que estão recolhendo recursos para supostamente trazer ao Haiti, mas que não vêm para cá. Doações devem ser feitas, de preferência, para as organizações públicas, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Cruz Vermelha Internacional ou o próprio governo brasileiro, ou, se possível, para o governo haitiano. Há 10 mil ONGs atuando no Haiti, um país com 9 milhões de habitantes. Algumas estão enriquecendo com as doações. É preciso evitar ONGs desconhecidas.

ZH – E como o senhor avalia as respostas até agora à tragédia, dentro e fora do Haiti?

Seitenfus –
Para a emergência, a resposta da comunidade internacional foi extraordinária. E a resposta dos haitianos foi mais extraordinária ainda, porque é um povo extremamente digno, um povo ordeiro, um povo que foi solidário nesse sofrimento. Havia um grande silêncio aqui em Porto Príncipe nos primeiros dias, só agora a cidade começa a se movimentar. Havia também uma grande dignidade e um olhar profundo e perdido que perguntava: “Por que nós?” Por que nós, os mais pobres, os mais débeis das Américas, estamos sofrendo mais esse castigo?”.

ZH – Qual será o papel do Brasil nessa reconstrução, isso significa mais décadas à frente da Minustah?

Seitenfus –
Eu não sei. O papel do Brasil é o Brasil que tem de decidir. Mas acho que o papel da Minustah deverá ser repensado. Em torno de 90% de todos os investimentos da comunidade internacional são gastos em segurança, mas agora não se trata mais disso. Esse terremoto colocou a bola no meio de campo para um outro jogo que a gente não sabe qual é. Nem a comunidade internacional nem o Haiti sabem como será essa reconstrução, como ela deve ser feita, então a gente vai aprender caminhando. Nesse sentido, a presença militar é importante, mas deverá ser absolutamente marginal. O trabalho aqui é de reconstrução civil. Inclusive, o nome da Minustah deve ser trocado.

ZH – Seria mais interessante que fossem ao Haiti profissionais qualificados em engenharia, por exemplo, em vez de militares?

Seitenfus –
Sem dúvida. Um não exclui o outro, mas agora precisamos inverter o que fazíamos antes: temos de gastar 10% em segurança e 90% em investimentos para recriar as condições de vida da população.

ZH – Qual é o papel dos Estados Unidos nesse futuro?

Seitenfus –
É evidente que a presença dos EUA para a reconstrução é imprescindível. O Haiti é um aliado dos EUA, tem com os EUA uma relação muito estreita, há uma colônia importante de haitianos vivendo nos EUA. Considero que o Haiti deva ser um divisor de águas para a administração de Barack Obama com relação à América Latina. Espero que assim seja.

priscila.martini@zerohora.com.br

PRISCILA DE MARTINI