O aclamado monólogo “Traga-me a Cabeça de Lima Barreto”, estrelado por Hilton Cobra, será apresentado em Rio Branco (AC) no dia 11 de abril de 2025, na Usina de Arte João Donato. A obra, com texto de Luiz Marfuz e direção de Onisajé (Fernanda Julia), traz à cena a trajetória intensa e crítica do escritor Lima Barreto, refletindo sobre racismo, marginalização e genialidade. Serão duas apresentações únicas: uma sessão especial para estudantes às 14h e a sessão principal às 19h30. Os ingressos variam entre R$ 10,00 (promocional) e R$ 30,00 (inteira). O espetáculo faz parte do Circuito Funarte de Teatro Myriam Muniz 2023 e é uma realização da Cia dos Comuns, com apoio da Fundação de Cultura Elias Mansour e diversas instituições culturais. 📍 Endereço: Rua das Acácias, 1155 – Distrito Industrial, Rio Branco – AC📞 Informações: (68) 3229-6892
Do “pão do espírito” ao “pão que o diabo amassou”
Lunde Braghini Junior É interessante ler com “óculos de Walter Benjamin” uma crônica escrita por Machado de Assis aos vinte anos de idade, em 1859. Trata-se de “A Reforma pelo Jornal”, publicada numa revista chamada “O Espelho”, bancada e dirigida por um amigo, Francisco Eleutério de Sousa, e editada na tipografia de Francisco de Paula Brito, o célebre editor negro brasileiro. “O Espelho – Revista semanal de literatura, modas, indústria e artes” mereceu uma edição fac-similar da Biblioteca Nacional, em 2008. Artigo primeiro do número 8, de 23 de outubro de 1859, “A Reforma pelo Jornal” pode ser acessado facilmente nos sites de busca. Não é um momento qualquer na vida de Machado de Assis. No ano anterior, o “escritor em construção” já havia publicado um vigoroso ensaio que, já no título, mostrava a amplitude de sua visão e perspectiva: “O passado, o presente e o futuro da literatura” – no qual a nossa literatura aparecia como um lugar essencial para a realização de um “7 de Setembro” cultural. A ideia de Machado era de quem 1822 se fizera um 7 de Setembro apenas político. A independência política, por isso, precisava ser complementada também por uma independência cultural. Quinze anos mais tarde, em 1873, no contexto do cinquentenário da independência, Machado aprofundaria a reflexão sobre o tema no marcante ensaio “Instinto de Nacionalidade”. “O Espelho” foi um foguete – e um foguete negro – construído na medida para Machado de Assis. Ele assina a maioria dos “artigos de fundo” – nome que se dava à matéria principal – nos 19 números que teve a revista, o que dá conta da aposta que se fazia sobre seu talento. Além disso, cabe a ele, em todos os números, com uma ou outra exceção, escrever quase tudo o que se refere a teatro, em exercício vívido de jornalismo cultural. Jean-Michel Massa, pesquisador que se dedicou a biografar a juventude de Machado e depois a estudar a literatura cabo-verdiana, atribui ao escritor a autoria de 33 textos na revista, ampliando uma conta de José Galante de Sousa. Destes só uns poucos foram incluídos, como “crônicas”, na primeira coleção de suas obras completas (Edições Jackson, 1938), um deles, “A Reforma pelo Jornal”. O texto mereceu republicação por volta de 1965, em livro de Luiz Amaral, jornalista natural de Ilhéus que se distinguiu na imprensa nacional e foi um pioneiro nos estudos sobre jornalismo. “Reprodução amiudada” “A Reforma pelo Jornal” esboça ideias ricas com as quais o leitor brasileiro se familiarizaria muito mais tarde, quando um autor alemão, Walter Benjamin, começou a ser traduzido entre nós. Contém uma espécie de teoria da comunicação, que ficou, inexplicavelmente, fora da coletânea “O Livro e o Jornal”, na qual a Penguin e a Companhia das Letras coligiram escritos de Machado, inclusive de “O Espelho”, em 2011. O poder criador da palavra, oral e escrita, é evocado por Machado antes de abordar a reprodução técnica da escrita – materializada primeiro na edição tipográfica de livros e a seguir de jornais –, mostrando as grandes implicações políticas da propaganda no jornal para a construção da opinião coletiva – com foco no operário explorado – e para a promoção da “reforma”. De que reforma e de que jornal fala Machado? A reforma é a social, a democrática, a proletária. Machado não usa, no momento, a palavra revolução, mas a aproveita em outros textos. O jornal – cuja distribuição a todos é facultada por sua “reprodução amiudada” – é caracterizado por metáforas como “pão do espírito” e “hóstia da comunhão social”. Machado concebe esse jornal como um espaço de conversa, de diálogo, no qual a pessoa que o ler, hoje, pode tomar a palavra amanhã para se posicionar acerca do que leu. Talvez com olhos postos nessa caracterização, um grupo de jovens cearenses criou, nos anos 1890, um jornal chamado “O Pão”, produzido pela “Padaria Espiritual”, e evocado nos versos de uma canção de sucesso do compositor cearense Ednardo (“Olha o padeiro entregando O Pão / de casa em casa, entregando o Pão”). O fato é que a transformação do jornal em mercadoria o fez ser comparado, desde há muito, a salsichas – a coisas que se a gente soubesse como são feitas jamais as consumiria. A reprodutibilidade técnica da escrita não é o foco, mas um pressuposto de Walter Benjamin quando analisa, no célebre ensaio sobre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, as implicações – tanto para a revolução quanto para a contrarrevolução – da reprodução técnica do som (no disco e no rádio) e da imagem (na fotografia e no cinema). De algum modo, o passo adiante de Walter Benjamin em relação a Machado é de mostrar a necessidade de uma reforma não “pelo” mas “para” o jornal. Isto é, seriam precisas transformações revolucionárias para que o jornal pudesse vir a servir como esse imaginado espaço de diálogo social, no qual pessoas que foram reduzidas a consumidoras de informação, interpretação e opinião também tomem da pena e se tornem produtoras de textos jornalísticos. Em “O autor como produtor”, Benjamin reporta a existência de um jornal desse tipo, em operação na União Soviética dos anos 1920. Um dos aspectos ideológicos de nosso tempo presente é de que a comunicação digital e a “revolução digital” dispensariam a revolução social e até a substituiriam. A internet e as redes sociais materializariam uma sociedade pós-comunicação de massa, na qual cada indivíduo tomaria a palavra, e as transformações se acelerariam num sentido participativo e democrático. Essa ilusão contemporânea diminuiu um pouco nos últimos 10 anos, à medida que a atuação política dos algoritmos de inteligência artificial das chamadas Big Techs começou a ser exposta como fator de “seleção reversa” (de “promoção do pior”) e de criação de novos fascismos e nazismos, distribuindo, sem novidade, o pão que o diabo amassou em nome do pão do espírito. Brasil Walter Benjamin morreu em 1940, fugindo do nazismo e do fascismo. Vinte anos depois, três volumes de suas obras escolhidas foram publicados, em 1965,
A permanência de Jônatas Conceição (1952 – 2009)
Fotografia proveniente do acervo da Plataforma Jônatas Conceição. Disponível em: https://plataformajonatas.wixsite.com/jonatasconceicao Por América Lúcia Silva Cesar Jônatas Conceição da Silva, escritor, poeta e liderança pioneira do Movimento Negro Unificado, foi “um dos mais sérios militantes do movimento negro do país”, segundo Oliveira Silveira (Silva, 1989:11). Foi também educador popular, professor universitário, pesquisador, jornalista e diretor cultural do Bloco Afro Ylê Ayiê. Tal diversidade de papéis que desempenhou nos seus breves 56 anos de vida, no entanto, tinha um denominador comum: a militância visceral na luta contra o racismo, nas suas mais diversas implicações. Nascido no dia 8 de dezembro de 1952, em Salvador, Bahia, filho de Tertulino Sales da Silva e de Maria Isabel da Silva, caçula numa família de muitos irmãos e irmãs, Jônatas Conceição da Silva foi criado e viveu toda a sua vida no Engenho Velho de Brotas; com exceção do curto período que passou na Universidade de Campinas e das suas intensas idas e vindas a Saubara, terra do seu pai, onde também fez sua morada. O Engenho Velho de Brotas, hoje um bairro da região central de Salvador, está nos títulos dos seus dois primeiros livros publicados, Miragem de Engenho (1984) e Outras Miragens (1989), e em muito da sua poesia. O lugar, remanescente de parte da antiga Freguesia de Brotas, datada do início do século XVIII, abrigava várias fazendas e engenhos de cana de açúcar. Com o passar dos séculos, não existem mais engenhos, mas o lugar continua a abrigar população majoritariamente negra, patrimônio da memória cultural e histórica da diáspora africana na Bahia, ainda invisibilizada nas narrativas oficiais. No último conto que escreveu, Nossas Mães, publicado postumamente no volume 32 dos Cadernos Negros (2009), Jônatas Conceição volta mais uma vez seu olhar para a memória do Engenho Velho da sua infância, um berço de muitas mães negras. “Nossas mães começaram a aninhar suas crias ali por volta de 1930. Um Verger apressado chamaria de presépio o lugar. Ele estava encravado sobre um grande barranco, fazendo fronteira com as margens do Dique do Tororó e a parte mais alta do bairro, um engenho antigo. E ali onde nossas mães vieram morar era mesmo bonito de se ver: a grande lagoa com seus pequenos saveiros, suas lavadeiras e suas margens com belas plantações de hortaliças” (Silva, 2009:73) Ana Célia, sua irmã mais velha, nos conta que, desde criança, Natinho, como era chamado pela família, foi um menino estudioso e implicado com os problemas sociais da sua comunidade. Ainda na adolescência, como membro de grupo de jovens da Igreja do Alto da Capelinha, começou a realizar ações de educação entre os moradores e vizinhos, inclusive a edição de um jornalzinho de bairro, onde já colocava seus versos. Em 1972, fez vestibular e ingressou no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, no Curso de Licenciatura em Letras Vernáculas com Francês. Seu ingresso na universidade lhe proporcionou a organização de diversas ações culturais e políticas juntamente com outros escritores e escritoras promissores, e também a convivência com professoras e professores que marcam a sua trajetória como escritor no período mais cruel da ditadura implantada pelo golpe civil-militar de 1964. Nas Oficinas de Criação Literária conduzidas pela Profa. Judith Grossmann, por exemplo, escreveu o seu primeiro conto, “Campo Fechado”, distribuído em cópias mimeografadas a álcool para colegas. Em 1976, publicou o conto intitulado Minha missão, aprovado em terceiro lugar em concurso literário em Fortaleza. Concluído o curso de Letras, vai para São Paulo e se encontra com lideranças negras que organizam as primeiras manifestações que refundam o Movimento Negro no Brasil. Em setembro de 1985 participa do I Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros Brasileiros juntamente com Cuti, Êle Semog, Esmeralda Ribeiro, Oliveira Silveira, dentre outros intelectuais negros. Desse encontro resulta a publicação Criação crioula, nu elefante branco (1987), onde publica um artigo intitulado “A traição da tradição oral’. De volta a Salvador, dedica-se à organização do Movimento Negro Unificado (MNU) na Bahia, com destaque para a produção e edição do jornal Nêgo, com várias edições na década de 80, e passa a integrar a equipe do Instituto de Radiodifusão do Estado da Bahia (Irdeb). Na Rádio Educadora da Bahia foi responsável pela produção de programas de educação popular. É também na Rádio que produz a série de programas intitulada Afro Bahia, sob a sua coordenação e apresentação, cujo primeiro programa foi ao ar no dia 20 de junho de 1987. Durante sua atividade como radialista, concilia a militância no MNU, a produção de material didático para escolas comunitárias (Reflexões sobre o ensino de português para a escola comunitária), e uma ativa produção intelectual e literária. Publicou vários contos e poesias nos Cadernos Negros, iniciativa que ajudou a organizar, juntamente com Carlos Limeira, Lourdes Teodoro, Miriam Alves. Oliveira Silveira, Ainda nesta década, publicou algumas poesias na coletânea internacional Schwarze Poesie/Poesia Negra (1988) em edição bilingue. Em 1989, lança o seu segundo livro, Outras Miragens. No início da década de 90, integrou como diretor cultural a Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ylê Aiyê e idealizou e executou, com grupo de educadores ligados ao Ylê, um projeto de formação de professores na perspectiva da educação etnicorracial. Essa experiência no Ylê Aiyê resulta nos Cadernos de Educação do Ylê Aiyê, que também idealizou e coordenou, cujo primeiro volume, intitulado Organizações de Resistência Negra, é lançado em 1995. Já no início do século XXI, retorna para o curso de mestrado no Instituto de Letras da UFBa, sob a orientação da Profa. Dra. Florentina Souza, já que a sua dissertação “A crase não foi feita para humilhar ninguém”, resultado do curso de Mestrado realizado na Unicamp no início de 80, não pode ser defendida em tempo hábil. A sua nova dissertação de mestrado embasa a publicação pela Edufba do livro Vozes Quilombolas: uma poética brasileira (2004), cuja discussão aborda as composições de poetas e músicos negros, muitos dos quais foram inspirados pela sua própria produção literária e militância política. Ainda nessa primeira década faz concurso para professor de Literatura na Universidade Estadual