Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados Fonte: Agência Senado | Brasília Em uma cerimônia marcada por reverência, o Congresso Nacional realizou nesta quinta-feira (12) uma sessão solene em homenagem ao centenário de nascimento de Maria Stella de Azevedo Santos, a Mãe Stella de Oxóssi (1925–2018), uma das mais influentes lideranças religiosas do Brasil. A cerimônia, presidida pelo senador Jaques Wagner (PT-BA), reuniu parlamentares, representantes de religiões de matriz africana e autoridades federais para lembrar o legado de resistência, dignidade e espiritualidade deixado pela ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. A sessão, requerida por Wagner e pelos deputados Bacelar (PV-BA) e Lídice da Mata (PSB-BA), destacou a importância histórica de Mãe Stella na luta contra o racismo e a intolerância religiosa, bem como sua contribuição intelectual, espiritual e política para a cultura afro-brasileira. Durante o evento, foi lançado um carimbo comemorativo em homenagem ao centenário da ialorixá, símbolo da relevância de sua trajetória para a sociedade brasileira. “”Essa é a primeira sessão do Congresso Nacional a homenagear uma mãe de santo, ou seja, uma sacerdotisa das religiões de matriz africana. Então, acho muito simbólico isso, tenho muito orgulho de ser um dos proponentes dessa sessão. Isso me enche de orgulho porque a motivação é, não só de homenageá-la, mas de valorizar e de nos comprometer com tudo que ela defendia, que é o combate ao preconceito, a discriminação.”, afirmou o senador Jaques Wagner. Além de sua atuação como ialorixá, Mãe Stella foi escritora, intelectual, educadora e enfermeira. Fundadora da Escola Eugênia Anna dos Santos, dentro do terreiro Opô Afonjá, foi precursora na valorização da cultura afro-brasileira no ensino formal, antecipando os princípios da Lei 10.639/2003. Em 2013, tornou-se a primeira ialorixá a ocupar uma cadeira na Academia de Letras da Bahia, consolidando-se como referência nacional na promoção da identidade e dos direitos do povo de santo. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, também participou da cerimônia e destacou que “A vida e a obra de Mãe Stella de Oxóssi são um legado vivo que nos desafia a manter acesa a chama da tradição, da memória e do respeito às raízes negras e africanas que formam nossa identidade. Que esse centenário não apenas celebre suas conquistas e ensinamentos, mas que também se torne um símbolo de resistência, sabedoria e amor à nossa cultura”. Representando o Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Ana de Xangô, atual presidenta do Conselho Religioso do terreiro e sucessora de Mãe Stella, lembrou o papel formador e inspirador da homenageada. “Mãe Stella é a estrela, no orum e no aye, é o nosso ensinamento, é o nosso caminhar”, disse, visivelmente emocionada. A sessão contou ainda com a presença da defensoria pública federal, representantes do Ministério dos Direitos Humanos, do Ministério da Igualdade Racial, da Funarte e de instituições tradicionais negras da Bahia.
Nosso Tempo é Agora – O Manifesto do Matriarcado Baiano do Candomblé
A líder religiosa Mãe Stella de Oxóssi (Foto: Amanda Oliveira/ Governo da Bahia) Por Vilma Reis* Este texto foi originalmente escrito em 19 de outubro de 2020. Ao dar título a este artigo, estou a pensar numa frase que deu título a um dos livros-formadores do Brasil “Meu Tempo é Agora” e estou me reportando a um outro pensamento-potência, de uma grande senhora de poder de minha terra, Mãe Stella de Oxossi, Odé Kayodé, peço licença a toda ancestralidade para falar de um dos capítulos liderados por ela, que faz parte de toda uma tradição na cidade de Salvador, a capital da Bahia, a cidade das mulheres, falo do Manifesto “Yansã não é Santa Barbára” e algumas de suas muitas repercussões na Bahia e no Brasil, documento lançado no II Encontro Mundial da Tradição dos Orixás, evento histórico ocorrido em Salvador entre 17 a 23 de julho de 1983, quando foi elaborado este Documento, imortalizado na edição do Jornal da Bahia no dia 29 de julho do mesmo ano, como podemos ver nesta imagem: A presença de Mãe Stella de Oxossi na memória política de Salvador deu segmento a uma longa tradição de mulheres negras, líderes religiosas das tradições afro-brasileiras, que desde Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá em 1910 tem percorrido a cronologia histórica do Candombé no Brasil. Nas jornadas promovidas pelos Movimentos Negros em Salvador nos anos 1980, com destaque para o ano de 1988, quando as elites políticas do país tentaram celebrar o centenário da abolição, lideranças como Makota Valdina Pinto, outra grande de nossas lutas por afirmação de direitos para o Povo de Santo, ou o povo do Candomblé, militante da afirmação da Cultura Bantu, foi sempre uma voz contundente e formadora, desde a primeira vez que a vi falando na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, a Biblioteca dos Barris, até a sua partida em março/2019, ela estava sempre em estado de alerta e foi assim que datou o momento em nos anos de 1970 as Igrejas Neopetencostais chegaram em territórios negros como o Engenho Velho da Federação, lugar de secular resistência das nações do Candomblé. Portanto aquele levante, com o Manifesto em 1983 era já reflexo de embates longevos, antes muito marcado com o campo cristão católico, mas a partir dos anos de 1970 e 1980, também com os segmentos evangélicos, neopetencostais, que teve os desdobramentos bastante complexos para o campo das religiões de matrizes africanas, como tem sido largamente noticiado e foi em 2011 tema central da Plataforma DESCHA, no eixo do racismo religioso e seus impactos no Brasil. por isso o texto do Manifesto reflete os embates, que a partir da publicização do documento, por meio de suas principais lideranças, pelo peso da senhoridade/autoridade, atuação política e reconhecimento publico, tomou a proporção que precisa, afirmando novas dimensões do ecumênico, horizontalizada, que não abre mão da pluralidade, e, ao mesmo confrontação, pelo fato de ser o Candomblé um campo religioso matrilinear na sua tradição de poder. Desde quando conheci meu amigo Fábio Lima, antropólogo, estudioso de nossas forças mais profundas que se manifestam através das religiosidades afro-brasileiras, que desde os anos de 1990 que nós seguíamos do Centro da cidade de Salvador para o São Gonçalo do Retiro, no Território do Cabula, região histórica de quilombos urbanos na capital baiana desde o século XVIII, como bem destaquei em minha Dissertação de Mestrado, ao escrever sobre o bairro do Beiru e região (Reis, 2005). Sempre todas as quartas-feiras nós íamos para o Afonjá, como muitos jovens de nossa cidade, que naquele tempo estava se ligando nos variados assuntos da luta negra na cidade. Foi neste tempo que comecei ouvir as histórias de luta e afirmação lideradas por Mãe Stella de Oxossi e tantas outras mulheres negras, Yalorixás, Makotas, Egbomys. Tudo me encantava, me fazia lembrar da terra que cresci, Nazaré das Farinhas, no Recôncavo da Bahia, nossa forma de vida, nossos costumes alimentares, nossa vivência com o sagrado da religiosidade afro-brasileira, nas idas nos finais de semana para o Terreiro de Dona Marihinha com minha Avó, Dona Mariwô, no Alto do São José, no Bairro do Apaga Fogo. Anos depois em 1999 quando já tinha terminado a Licenciatura em Sociologia e me enveredava pelos caminhos da Antropologia Urbana, fui fazer a disciplina Antropologia do Negro no Brasil, uma das poucas possibilidades de percorrermos as produções das Ciências Sociais e da História produzidas na Bahia, olhando para sua grandeza. Foi neste Curso que li os Antropólogos e Historiadores que haviam se dedicado a entender o mundo da resistência pela “Sagrada Resistência”, como bem nos fala Lindinalva Barbosa (2005). O mesmo destaque dado pelo escritor Marcos Dias, em seu livro “Mãe Stela de Oxossi – Estrela nossa, a mais singela!”. Por meio daquelas cinco destacadas yalorixás da cidade de Salvador que lideraram o movimento e assinaram aquele Manifesto, todas elas escreveram suas histórias, antes e depois daquele documento, a saber Mãe Stella de Oxossi, Mãe Olga do Alaketu, Mãe Menininha do Gantois, Mãe Nicinha do Bogum e Mae Tete de Yansã, demonstrando a força de um matriarcado já identificado pelo antropólogo Edson Carneiro, que liderou o primeiro Encontro das Religiões Afro-Brasileiras de 1937 e por Ruth Landes, que um ano depois daquele evento monumental chegou a Bahia, vinda de Columbia, Estados Unidos, mulher judia, acostumado aos enfrentamentos em Nova Iorque e no Sul do seu país, que ao pisar em terras baianas, onde outros pesquisadores norte-americanos já haviam atuado, diferente deles, ela viu além, percebeu a força das mulheres negras, suas posições de liderança dentro das suas comunidades e em todos os assuntos da cidade, e o resultado da sua pesquisa pelas ruas, vidas e Candomblés da Bahia produziu o livro de muita força em 1947, “A Cidade das Mulheres”, um feito que lhe custou as dores e reações de todos aqueles senhores da Antropologia, pois aquela jovem aluna de Ruth Benedict, tendo como co-orientador em campo um antropólogo da cidade, um pesquisador implicado, Edson Carneiro, ela teve acesso a um mundo de