Baixe aqui Proposta Nº 76 Março/Maio de 1998 ‘Sigo em frente fazendo aquilo que sei que é o meu dever’, disse Abdias, e questionou: ‘Por que não podemos ter amor ao nosso povo? Fundador do Teatro Experimental do Negro. Economista. Autor, entre outros livros, de: “O Genocídio do Negro Brasileiro”, “O Quilombismo”. Artista plástico. Senador pelo Rio de Janeiro Proposta – É possível falar de cultura sem falar de raça no Brasil? Abdias – Possível é, na maneira falsa como tem sido no Brasil. Aqui fala-se de cultura porque eles importaram uma cultura e a impõem sobre o povo. Sobretudo sobre os segmentos de origem africana que trouxeram da África os seus próprios valores culturais e que aqui foram submetidos a essa degradação, a esse recalcamento, pois ficam sempre submetidos a uma teia de exercícios que distorcem, falsificam, criam uma imagem não verdadeira. Até há pouco tempo, as coisas que os africanos trouxeram para cá eram sempre tidas como folclóricas, como, por exemplo, no caso das religiões tidas como cultos animistas. As línguas não eram línguas, eram dialetos. Nunca se levou em consideração um pensamento filosófico africano válido como uma experiência de educação para o sistema educacional no Brasil. As coisas importantes que os africanos trouxeram foram simplesmente menosprezadas e até mesmo desdenhadas, tidas como completamente fora do nosso contexto, pois até os seres humanos que trouxeram esses valores também eram considerados quase como que estrangeiros, figuras exóticas, pitorescas, etc. Para se falar de uma cultura verdadeira no Brasil temos que falar exatamente nas matrizes indígenas e africanas dessa cultura. Caso contrário, haverá sempre uma falsificação disso que se chama cultura no Brasil. A componente raça não pode ser dissociada da cultura brasileira. Vamos mais uma vez advertir os racistas intermitentes que, quando falamos em raça, é sempre no sentido histórico-sócio-cultural, e não no sentido biológico. Vamos advertir mais uma vez, porque eles insistem em embaralhar as coisas. Neste sentido, a raça negra tem todo o direito de dizer que a cultura brasileira é uma cultura africana. Não somente no sentido quantitativo da maioria do nosso povo, que é de origem africana, mas também pela importância que ele exerce como fator de construção da nossa idéia, do nosso pensamento, disso que se chama de cultura. Agora, uma coisa mais escandalosa e mais incompreensível é que essa classe que tomou conta deste país desde a Descoberta pensa que isso não existe e quer subestimar a sua importância até hoje. Por isso, os nossos sistemas oficiais ou convencionais de cultura, de educação, etc. não dão a menor atenção, não dão “a menor pelota” a isso que nós trouxemos para aqui como grande contribuição para a formação deste país. Onde é que já se viu, por exemplo, um ensino de 1o grau como esse do Brasil, meu Deus do céu?! Se nós tivéssemos realmente aquilo que o Fernando Henrique Cardoso disse, com muita impropriedade sobre os políticos do Norte e Nordeste, “que eles não tinham vergonha na cara”, se o Brasil, de uma maneira geral, tivesse vergonha na cara, veríamos que estamos fora do tempo e o que estamos fazendo é um anacronismo no mundo de hoje. Nem a África do Sul ousou tanto. Querer dizer que a maioria do nosso povo, que é de ascendência africana, é igual, tem os mesmos direitos; que não há cultura verdadeiramente africano-brasileira é querer desmerecer, é querer perpetuar essa imagem ainda do tempo da escravidão de que o africano nem é cidadão, é um ser de segunda classe. Os fatos desmontam completamente essa versão da imagem do africano no país. E infelizmente, por força dessa pressão, por força desse tipo de dominação racial, muitos africanos brasileiros corroboram essa forma de atuação das classes dirigentes e até ajudaram, como, por exemplo, Nina Rodrigues e outros das chamadas ciências psiquiátricas. Porque o negro, até bem pouco tempo, era uma matéria da psiquiatria, não dos direitos humanos e nem da ciência humana. Era puramente um elemento, um objeto de Ciência Psiquiátrica. E muitos desses psiquiatras que praticaram esse desvio científico, que é mais um crime contra os africanos, eram também de origem africana. No processo da formação econômica do Brasil, o negro foi decisivo – se não fosse o trabalho do africano escravizado não havia economia no Brasil. Tudo se deve ao esforço, ao suor, ao sangue e ao martírio da vida dos africanos. Mas também nos outros níveis da construção do país, sobretudo, na construção de uma espiritualidade brasileira, que é exatamente o vetor mais forte da identidade de um povo, isso aí é super africano. É verdade que esses elementos, até agora, não têm transcendido os limites da própria comunidade de origem africana, porque esta, até hoje, é uma comunidade encurralada, recalcada dentro do status que lhe é permitido pela dominação. Mas isso, eu estou falando de uma forma muito relativa porque o movimento negro tem expandido essa presença em todos os níveis, no nível do emprego, da participação política e no nível também da sua força e das suas crenças. Esse espaço está realmente se alargando e hoje está fugindo do controle dessas instituições que sempre nos asfixiaram e manipularam. Eu tenho toda a certeza (já não é mais uma crença nem uma profissão de fé que pode se desvanecer), eu tenho a consciência muito clara de que nós estamos às vésperas de o africano brasileiro, a comunidade de origem africana ter realmente o domínio de todas as esferas da vida do país. Não por uma questão de imposição nem de ambição, mas por uma questão natural de matemática, pois nós somos a maioria. Falamos sempre em democracia e ela é justamente a predominância das maiorias, então, é um movimento natural. O que o tem impedido é esse controle que tem tido uma grande eficácia, pois é introjetado na comunidade negra, de que ela não possui potencial, força, direito, capacidade. Mas, o movimento negro está destruindo estes mitos e o monopólio de posição, de comando da sociedade, também está sendo derrubado. Proposta – Senador, esse
Brasil Paralelo usou documento falso para atacar Maria da Penha
Fonte: Agência Pública. Acesse a matéria completa aqui. Investigação da Procuradoria-Geral do Ceará apontou inconsistências nos registros apresentados pelo documentário Por Amanda Audi Investigação sigilosa da Procuradoria-Geral de Justiça do Ceará, a que a Agência Pública teve acesso, mostra que a produtora Brasil Paralelo usou um laudo falso em um documentário sobre a Lei Maria da Penha, um marco na proteção das mulheres contra a violência doméstica. A investigação apura a existência de uma estratégia organizada para invalidar a lei e desacreditar a ativista. Segundo a investigação, o documentário aponta, falsamente, que teria ocorrido uma troca de laudos periciais nos autos do processo para favorecer a condenação do ex-marido de Maria da Penha, Marco Antonio Heredia Viveros. O filme mostra um suposto “laudo” que estaria em posse do ex-marido e não teria sido juntado ao processo. Viveros tentou assassinar Maria da Penha duas vezes em 1983. Primeiro, ele deu um tiro em suas costas enquanto ela dormia – que a deixou paraplégica. Viveros disse à polícia que havia sido uma tentativa de assalto, em que ele também teria ficado machucado. Mas a versão foi posteriormente desmentida pela perícia. Quatro meses depois, quando Maria da Penha voltou para casa, ele ainda a manteve em cárcere privado e tentou eletrocutá-la durante o banho. O laudo falso mostrado pela Brasil Paralelo aponta que Viveros teria ferimentos que corroboram a sua versão de que foi rendido por assaltantes. No entanto, a análise pericial da Polícia Forense do Ceará mostra que o laudo é uma “montagem”. A perícia encontrou várias inconsistências: baixa qualidade de imagem, diferenças de espaçamento entre linhas, de assinaturas e imagem de carimbos e até erro de datilografia. “Dúvidas não há acerca da montagem do referido documento, utilizado, igualmente, no referido documentário da plataforma BRASIL PARALELO.”, disse o Ministério Público. Os investigadores também tiveram acesso às mensagens de um grupo de WhatsApp chamado “Investigação Paralela – Maria da Penha”, que foi obtido no celular de Alexandre de Paiva, um influenciador que recebeu medida protetiva, foi afastado das filhas e, desde então, move uma campanha para descredibilizar a lei. Ele é um dos entrevistados do documentário. No grupo, um produtor da Brasil Paralelo pergunta se Viveros tem “esse documento original”, “antes de ser adulterado”. O advogado de Viveros responde que havia digitalizado e enviado a Paiva, que ficou de mandar para a produtora. Após citar essa troca de mensagens, o relatório transcreve um áudio enviado por Henrique Zingano, diretor do documentário. “Então tem tudo aí para ser um… uma puta resposta, assim pros caras, e… acabar com essa história de Maria da Penha de uma vez por todas”. Nos trechos tornados públicos da investigação, não há menção de que os produtores do documentário perguntaram ou tentaram checar sobre a veracidade do laudo. A Pública pediu esclarecimentos ao Brasil Paralelo, que ainda não respondeu. O espaço permanece aberto. O documentário com o laudo falso foi usado por Viveros como argumento para reabrir a produção de provas do caso. Em março deste ano, a Advocacia-Geral da União (AGU) ajuizou uma ação civil pública contra a Brasil Paralelo, pedindo indenização de R$ 500 mil por danos morais coletivos por desinformação sobre o caso Maria da Penha. A investigação aponta ainda que o documentário não seria “um movimento espontâneo” de liberdade de expressão, mas sim “algo estruturado para atacar a imagem da Sra. Maria da Penha, o julgamento realizado pelo sistema de justiça do Ceará, na tentativa de minar a base de criação da Lei Maria da Penha e ainda, lucrar” (negrito do original). O documento cita um áudio de Ricardo Ventura, outro entrevistado no documentário: “Vamos fazer… soltar o podcast e depois monetizar dentro da gente. Porque ganhar dinheiro não é pecado! Então é fazer a coisa certa e também monetizar da maneira correta para que todo mundo ganhe. Porque todo mundo botou energia, todo mundo botou tudo também. Entendeu?”, ele disse em um áudio enviado ao grupo de WhatsApp MARIA X MARCO”, também obtido do celular de Paiva. Extratos bancários do influenciador mostram que ele recebeu R$ 7,6 mil em depósitos do Google e R$ 1,6 mil do Meta. A Pública já mostrou que a Brasil Paralelo gastou pelo menos R$ 305 mil para impulsionar 575 anúncios promovendo o documentário. A segunda fase da operação Echo Chamber, deflagrada na semana passada, cumpriu mandados de busca e apreensão contra Viveros. A 9ª Vara Criminal de Fortaleza também determinou a suspensão de todos os episódios do documentário da Brasil Paralelo pelo prazo de 90 dias. A investigação segue. O documentário passou a ser investigado por mostrar informações distorcidas para gerar descrédito sobre a lei e promover discurso de ódio. A investigação criminal visa elucidar possíveis crimes de perseguição e campanha de ódio praticados contra Maria da Penha. A possibilidade de o laudo mostrado no filme ser falso foi levantado pela influenciadora sobre direitos femininos Caroline Sardá, que teve acesso ao original e enviou as suspeitas ao Ministério Público. Depois da onda de ataques, Maria da Penha, símbolo da luta contra a violência contra a mulher no Brasil, teve que ser incluída no Programa de Proteção a Defensores dos Direitos Humanos. Edição: Mariama Correia