Eliane Barbosa da Conceição para a Folha de S. Paulo. Professora de administração pública da Unilab-CE, é doutora em administração (FGV-Eaesp) e diretora da Plataforma Justa Foi um compromisso assumido na campanha eleitoral: “incluir os pobres no Orçamento e os ricos no Imposto de Renda”. Até os dois primeiros meses deste ano, porém, muitos duvidavam de que o atual governo ousaria bancar a promessa mais espinhosa. Com o novo arcabouço fiscal impondo limites à expansão dos serviços públicos e as desigualdades sociais se agravando, cresceu a pressão de movimentos sociais, acadêmicos e organismos internacionais. Ficou evidente que a ausência de uma revisão no Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) aprofundaria a penalização da população mais pobre e perpetuaria a face regressiva do sistema tributário. Nesse contexto, em 18 de março o Executivo enviou ao Congresso o projeto de lei 1.087/2025. A proposta original previa, de um lado, isentar do IRPF rendimentos mensais de até R$ 5.000 e reduzir a carga para faixas intermediárias a partir de R$ 7.000. De outro, instituía um imposto mínimo para os super-ricos, com alíquotas graduais de até 10% sobre rendimentos mensais acima de R$ 50 mil, incluindo lucros e dividendos, isentos desde 1996. Críticos apontaram que uma alíquota máxima de 10% para rendimentos muito elevados parecia tímida diante do fato de trabalhadores assalariados seguirem pagando entre 7,5% e 27,5%. Mas o simbolismo era relevante: pela primeira vez em meio século, uma iniciativa do Executivo colocava os super-ricos no radar do IRPF, rompendo com a tradição de privilégios que concentra a carga no trabalho e poupa o capital. No dia 1º de outubro último, a Câmara dos Deputados aprovou uma subemenda substitutiva ao PL 1.087/2025. O texto suavizou parte dos impactos sobre o topo da pirâmide e comprometeu a arrecadação de 2026 a 2028 ao estender a isenção para lucros distribuídos em 2025, mesmo que pagos nos anos seguintes. Retardou, assim, parte dos efeitos, mas não desfigurou por completo a proposta. O que se manteve já é significativo: a partir de 2026, as rendas mais altas pagarão mais IRPF do que em qualquer momento dos últimos 50 anos. Uma mudança que, se preservada, recoloca o imposto em sintonia com sua função constitucional de promover justiça fiscal. O pano de fundo histórico ajuda a dimensionar o avanço. Até 1964, quando houve o golpe militar, 60% da arrecadação do IRPF retido na fonte provinham de rendimentos de capital —lucros, dividendos, aplicações financeiras, aluguéis— e apenas 18% do trabalho. Seis anos depois, em 1970, a balança já havia se invertido: metade da arrecadação vinha dos rendimentos do trabalho, e apenas 17% do capital. Esse padrão não mudou desde então. Até julho de 2025, 66% do total arrecadado pela Receita Federal a título de IRPF recaía sobre rendimentos do trabalho —três quartos deles dos assalariados. Apenas 29% tinham origem em rendimentos de capital. Ou seja, há seis décadas o Imposto de Renda brasileiro cumpre um papel distorcido: protege sistematicamente os ganhos do capital e concentra o peso em quem vive de salário. Essa distorção não é apenas técnica, mas política: contribui para perpetuar desigualdades e limita a capacidade do Estado de financiar serviços públicos com base em critérios de equidade. Leia a matéria completa em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/10/tributar-os-super-ricos-nao-pode-ser-oportunidade-perdida.shtml
A reunião com Pelé que impulsionou a Marcha Zumbi dos Palmares
Reunião entre integrantes da Executiva Nacional da Marcha Zumbi dos Palmares e Edson Arantes do Nascimento (Pelé). Foto: Antônio Cunha/Jornal de Brasília/Acervo ÌROHÌN Em 14 de novembro de 1995, vésperas da Marcha Zumbi dos Palmares, um encontro no gabinete do então Ministro Extraordinário do Esporte, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, marcou um dos momentos decisivos da mobilização negra em Brasília. A reunião, registrada pelo fotógrafo Antônio Cunha, do Jornal de Brasília, reuniu membros da Executiva da Marcha e contou com a articulação de Filó e Medeiros, assessores de Pelé e ativistas históricos do movimento negro, que facilitaram o acesso ao ministro. Até aquele momento, a Marcha Zumbi dos Palmares era praticamente ignorada pela grande imprensa, apesar da ampla mobilização nacional que vinha sendo construída por entidades do movimento negro em todo o país. O encontro com Pelé, no entanto, mudaria esse cenário. Segundo Edson Lopes Cardoso: “A reunião com o ministro dos Esportes, Edson Arantes do Nascimento, o grande e inesquecível Pelé, foi agendada com Filó e Medeiros, ambos assessores de Pelé e ativistas históricos do movimento negro, que facilitaram o acesso de membros da Executiva da Marcha Zumbi dos Palmares ao Ministério dos Esportes. Em razão do impacto das declarações de Pelé nesta reunião (‘Se o negro quer que se tenha uma melhora na sua posição social e uma melhora do Brasil de uma maneira geral, temos de botar a gente no Congresso para defender a nossa raça’), cuja repercussão foi nacional e internacional, a Marcha finalmente ganhou a atenção da mídia. A reunião com Pelé fortaleceu a mobilização nos momentos decisivos.” As declarações de Pelé repercutiram amplamente na imprensa e colocaram a pauta racial no centro do debate público às vésperas da Marcha, que levaria cerca de 30 mil pessoas à Esplanada dos Ministérios no dia seguinte, em 20 de novembro. A fala do ex-jogador, até então discreto em relação a temas raciais, teve um efeito catalisador na mobilização, ao chamar a atenção nacional e internacional para as reivindicações do movimento negro brasileiro, que exigia políticas públicas de combate ao racismo e valorização da cultura afro-brasileira.