Nosso Tempo é Agora – O Manifesto do Matriarcado Baiano do Candomblé

A líder religiosa Mãe Stella de Oxóssi (Foto: Amanda Oliveira/ Governo da Bahia)

Por Vilma Reis*

Este texto foi originalmente escrito em 19 de outubro de 2020.

Ao dar título a este artigo, estou a pensar numa frase que deu título a um dos  livros-formadores do Brasil “Meu Tempo é Agora” e estou me reportando a um outro pensamento-potência, de uma grande senhora de poder de minha terra, Mãe Stella de Oxossi, Odé Kayodé, peço licença a toda ancestralidade para falar de um dos capítulos liderados por ela, que faz parte de toda uma tradição na cidade de Salvador, a capital da Bahia, a cidade das mulheres, falo do Manifesto “Yansã não é Santa Barbára” e algumas de suas muitas repercussões na Bahia e no Brasil, documento lançado no II Encontro Mundial da Tradição dos Orixás, evento histórico ocorrido em Salvador entre 17 a 23 de julho de 1983, quando foi elaborado este Documento, imortalizado na edição do Jornal da Bahia no dia 29 de julho do mesmo ano, como podemos ver nesta imagem:

A presença de Mãe Stella de Oxossi na memória política de Salvador deu segmento a uma longa tradição de mulheres negras, líderes religiosas das tradições afro-brasileiras, que desde Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá em 1910 tem percorrido a cronologia histórica do Candombé no Brasil. Nas jornadas promovidas pelos Movimentos Negros em Salvador nos anos 1980, com destaque para o ano de 1988, quando as elites políticas do país tentaram celebrar o centenário da abolição, lideranças como Makota Valdina Pinto, outra grande de nossas lutas por afirmação de direitos para o Povo de Santo, ou o povo do Candomblé, militante da afirmação da Cultura Bantu, foi sempre uma voz contundente e formadora, desde a primeira vez que a vi falando na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, a Biblioteca dos Barris, até a sua partida em março/2019, ela estava sempre em estado de alerta e foi assim que datou o momento em nos anos de 1970 as Igrejas Neopetencostais chegaram em territórios negros como o Engenho Velho da Federação, lugar de secular resistência das nações do Candomblé.  Portanto aquele levante, com o Manifesto em 1983 era já reflexo de embates longevos, antes muito marcado com o campo cristão católico, mas a partir dos anos de 1970 e 1980, também com os segmentos evangélicos, neopetencostais, que teve os desdobramentos bastante complexos para o campo das religiões de matrizes africanas, como tem sido largamente noticiado e foi em 2011 tema central da Plataforma DESCHA, no eixo do racismo religioso e seus impactos no Brasil. por isso o texto do Manifesto reflete os embates, que a partir da publicização do documento, por meio de suas principais lideranças, pelo peso da senhoridade/autoridade, atuação política e reconhecimento publico, tomou a proporção que precisa, afirmando novas dimensões do ecumênico, horizontalizada, que não abre mão da pluralidade, e, ao mesmo confrontação, pelo fato de ser o Candomblé um campo religioso matrilinear na sua tradição de poder.

Desde quando conheci meu amigo Fábio Lima, antropólogo, estudioso de nossas forças mais profundas que se manifestam através das religiosidades afro-brasileiras, que desde os anos de 1990 que nós seguíamos do Centro da cidade de Salvador para o São Gonçalo do Retiro, no Território do Cabula, região histórica de quilombos urbanos na capital baiana desde o século XVIII, como bem destaquei em minha Dissertação de Mestrado, ao escrever sobre o bairro do Beiru e região (Reis, 2005). Sempre todas as quartas-feiras nós íamos para o Afonjá, como muitos jovens de nossa cidade, que naquele tempo estava se ligando nos variados assuntos da luta negra na cidade.

Foi neste tempo que comecei ouvir as histórias de luta e afirmação lideradas por Mãe Stella de Oxossi e tantas outras mulheres negras, Yalorixás, Makotas, Egbomys. Tudo me encantava, me fazia lembrar da terra que cresci, Nazaré das Farinhas, no Recôncavo da Bahia, nossa forma de vida, nossos costumes alimentares, nossa vivência com o sagrado da religiosidade afro-brasileira, nas idas nos finais de semana para o Terreiro de Dona Marihinha com minha Avó, Dona Mariwô, no Alto do São José, no Bairro do Apaga Fogo. Anos depois em 1999 quando já tinha terminado a Licenciatura em Sociologia e me enveredava pelos caminhos da Antropologia Urbana, fui fazer a disciplina Antropologia do Negro no Brasil, uma das poucas possibilidades de percorrermos as produções das Ciências Sociais e da História produzidas na Bahia, olhando para sua grandeza. Foi neste Curso que li os Antropólogos e Historiadores que haviam se dedicado a entender o mundo da resistência pela “Sagrada Resistência”, como bem nos fala Lindinalva Barbosa (2005). O mesmo destaque dado pelo escritor Marcos Dias, em seu livro “Mãe Stela de Oxossi – Estrela nossa, a mais singela!”.

Por meio daquelas cinco destacadas yalorixás da cidade de Salvador que lideraram o movimento e assinaram aquele Manifesto, todas elas escreveram suas histórias, antes e depois daquele documento, a saber Mãe Stella de Oxossi, Mãe Olga do Alaketu, Mãe Menininha do Gantois, Mãe Nicinha do Bogum e Mae Tete de Yansã, demonstrando a força de um matriarcado já identificado pelo antropólogo Edson Carneiro, que liderou o primeiro Encontro das Religiões Afro-Brasileiras de 1937 e por Ruth Landes, que um ano depois daquele evento monumental chegou a Bahia, vinda de Columbia, Estados Unidos, mulher judia, acostumado aos enfrentamentos em Nova Iorque e no Sul do seu país, que ao pisar em terras baianas, onde outros pesquisadores norte-americanos já haviam atuado, diferente deles, ela viu além, percebeu a força das mulheres negras, suas posições de liderança dentro das suas comunidades e em todos os assuntos da cidade, e o resultado da sua pesquisa pelas ruas, vidas e Candomblés da Bahia produziu o livro de muita força em 1947, “A Cidade das Mulheres”, um feito que lhe custou as dores e reações de todos aqueles senhores da Antropologia, pois aquela jovem aluna de Ruth Benedict, tendo como co-orientador em campo um antropólogo da cidade, um pesquisador implicado, Edson Carneiro, ela teve acesso a um mundo de resistência, poder e disputas civilizatórias, cenário da nossa secular resistência que produziu a síntese de 1983.

O levante das Yalorixás presente no conjunto do texto do Manifesto, contra o sincretismo religioso, afirmando uma identidade construída em séculos de resistência negra no Brasil se confrontava com as narrativas das autoridades religiosas, como também se confrontava com praticas ainda recorrentes e muito fortes naquele período de comparações entre as liturgias do Candomblé com as liturgias católicas, assim como significou uma importante reação a todo um campo, que ainda estava se estruturando no país que depois ficou identificado como o campo neopentecostal, que já naquele momento já fazia ataques às religiões de matrizes africanas, tanto a umbanda quanto o Candomblé em suas variadas formas de celebração a depender da região do Brasil.

Bom, mas numa terra em que hoje a Festa de Santa Barbara é uma das manifestações negras mais poderosas abrindo o que chamamos de ciclo das Festas Populares da Bahia, por que as Yalorixás se levantaram num evento internacional contra o sincretismo? Esta pergunta precisa ser feita e sua resposta posicionada nos enfrentamentos políticos, culturais e religiosos, como conflitos datados, pois lendo os relatos da época nas entrevistas, a exemplo da fala de Mae Stella de Oxossi no Jornal da Bahia, o que levou a aquele levante foi uma agenda publica por autonomia, respeito, afirmação da liturgia própria, o que fez com que a líder religiosa destacasse em sua fala que não tinha nada contra Santa Barbara, mas dali em diante todos os desafios que nos obrigaram a esconder nossas símbolos seriam enfrentados, conforme destaque no texto da reportagem:

“Os Santos e imagens católicos têm seus valores. Nós não estamos a fim de deixar de acreditar, por exemplo, em Santa Bárbara. Um espírito elevado, sem dúvida. Mas sabemos que Iansã é uma outra energia, não é Sta. Bárbara. Religião não se impõe, depende da consciência de cada um. Mas queremos respeito com o Candomblé. Não tem nada a ver, por exemplo, arriar-se comida de Iansã nos pés da imagem de Sta. Bárbara. Não tem sentido. A comida é de Iansã, é outra energia, completamente diferente do que é Sta. Bárbara, entende?” (Jornal da Bahia, 29 de Julho de 1983. In: Bomgbose Obitico, 29 de novembro de 2007).

Ao ver esta fala, sentimos toda a tensão que estava impactando a vida das Comunidades negras afrobaianas e brasileiras e nos Terreiros em 1983, as lideranças lutavam contra a criminalização, a diminuição cultural e os usos da indústria do turismo. Como bem fica evidenciado num outro trecho da entrevista de Mãe Stella de Oxossi na entrevista ao Jornal da Bahia:

“Daqui para frente, os filhos de gente de Santo não vão mais aprender sua tradição dos Orixás em sincretismo com a religião católica. As iyas e babalorixás da Bahia não querem, também, permitir mais que sua religião seja tratada como folclore, seita, animismo ou religião primitiva, “como sempre vem ocorrendo neste pais, nesta cidade”. Querem também dar um basta à utilização de seus trajes, e rituais, em concursos oficiais ou de propaganda turística.”

Ora, além de toda tensão com os usos abusivos da publicidade da época, a reação política destas lideranças contra o que hoje destacamos como apropriação cultural.

 Ao mesmo tempo, quando pensamos na potência e dimensão que a Festa de Santa Barbara tomou nos últimos anos, compreendemos que também a celebração passou a ser liderada pela comunidade negra de Salvador e que há muito força com as celebrações nas ruas do Centro Antigo da Cidade, e a multidão que toma as ruas vai com suas devoções devidamente delimitadas entre os territórios das tradições afro-brasileiras e as tradições católicas negras, a exemplo da força das Irmandades Negras Seculares de Salvador, como a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos e outras como a SPD – Sociedade Protetora dos Desvalidos, outras irmandades nem tanto conhecidas, que guardam histórias seculares de resistência, materializadas inclusive nos desenhos arquitetônicos, para marcar que existiam lugares para brancos e negros nos templos católicos, por exemplo e que do não direito nasceram as resistências e se redesenhou-se estes lugares. É emocionante ver aquele mar vermelho e branco dia 04 de dezembro, evidenciando que as tradições negras seculares, há muito, já transformaram a celebração branca-católica-europeia, nesta cidade onde as elites políticas secularmente insistem na desafricanização (Godi, Ritmos em Trânsito, 1999).

Em entrevista a Fernanda Pompeu em 2017, publicada no Portal Geledés, Mãe Stella de Oxossi retomou vários momentos de lutas e enfrentamentos necessários ao longo de muitas décadas e a jornalista a destacou com as palavras abaixo para falar da importância da sua liderança no Brasil na afirmação da autonomia do Candomblé:

“Mãe Stella de Oxóssi é mantenedora do candomblé de pura cepa. Sem mistura. Sem concessões. Ela compreende que o sincretismo foi necessário para enfrentar a perseguição do catolicismo aos cultos africanos. Foi uma maneira de camuflar os orixás sob os mantos dos santos. Mas isso é passado.

A autora do livro Meu Tempo é Agora (1993), e doutora honoris causa da Universidade Federal da Bahia, entre outros títulos, gosta de dizer em alto e bom som: Iansã não é Santa Bárbara, Oxum não é Nossa Senhora da Conceição. Para ela, manter vivas a tradição e a especificidade de cada religião é o autêntico ecumenismo. O resto, incluindo a famosa fitinha do Senhor do Bonfim, é vitrine para turista ver.” Fernanda Pompeu, Portal Geledés, 27/04/2017.

Ao retomar estas lutas de décadas por direitos a liberdade e autonomia religiosa do povo de Santo, Mãe Stella de Oxossi, assim como toda uma linhagem de mulheres negras líderes religiosas em todo país, estabelecem as fronteiras de convivência com outras matrizes religiosas, do campo cristão, destacando que a luta pela afirmação do Candomblé ao anunciar o seu legado emancipador, também estabelece o direito a futuro, desenhando um mundo de possibilidades a partir de princípios ancestralidade que nos lembra Sankofa, pisar no presente com os olhos voltados para o passado e com este gesto projetar o futuro.

Asè!!!

Salvador, 19 de outubro de 2020, seguimos nas lutas Mãe Stella aos pés de Xangô!

* Socióloga, Feminista, Ativista do Movimento de Mulheres Negras do Brasil, Mestra em Ciências Sociais, doutoranda em Estudos Africanos no PosAfro-UFBA, Defensora de Direitos Humanos e Co-fundadora da Mahin Organização de Mulheres Negras. É pesquisadora associada ao ICEAFRO – Instituto Ceafro. Foi Ouvidora Geral Externa da Defensoria Pública da Bahia (2015 a 2019) e presidenta do Conselho Nacional de Ouvidorias Externas das Defensorias Públicas no Brasil (2018 a 2019).

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