Leia entrevista do Senador Abdias do Nascimento à Revista Proposta, da FASE, em 1998.

Baixe aqui Proposta Nº 76 Março/Maio de 1998

‘Sigo em frente fazendo aquilo que sei que é o meu dever’, disse Abdias, e questionou: ‘Por que não podemos ter amor ao nosso povo?

Fundador do Teatro Experimental do Negro. Economista. Autor, entre outros livros, de: “O Genocídio do Negro Brasileiro”, “O Quilombismo”. Artista plástico. Senador pelo Rio de Janeiro

Proposta – É possível falar de cultura sem falar de raça no Brasil?

Abdias – Possível é, na maneira falsa como tem sido no Brasil. Aqui fala-se de cultura porque eles importaram uma cultura e a impõem sobre o povo. Sobretudo sobre os segmentos de origem africana que trouxeram da África os seus próprios valores culturais e que aqui foram submetidos a essa degradação, a esse recalcamento, pois ficam sempre submetidos a uma teia de exercícios que distorcem, falsificam, criam uma imagem não verdadeira. Até há pouco tempo, as coisas que os africanos trouxeram para cá eram sempre tidas como folclóricas, como, por exemplo, no caso das religiões tidas como cultos animistas. As línguas não eram línguas, eram dialetos. Nunca se levou em consideração um pensamento filosófico africano válido como uma experiência de educação para o sistema educacional no Brasil. As coisas importantes que os africanos trouxeram foram simplesmente menosprezadas e até mesmo desdenhadas, tidas como completamente fora do nosso contexto, pois até os seres humanos que trouxeram esses valores também eram considerados quase como que estrangeiros, figuras exóticas, pitorescas, etc. Para se falar de uma cultura verdadeira no Brasil temos que falar exatamente nas matrizes indígenas e africanas dessa cultura. Caso contrário, haverá sempre uma falsificação disso que se chama cultura no Brasil. A componente raça não pode ser dissociada da cultura brasileira.

Vamos mais uma vez advertir os racistas intermitentes que, quando falamos em raça, é sempre no sentido histórico-sócio-cultural, e não no sentido biológico. Vamos advertir mais uma vez, porque eles insistem em embaralhar as coisas. Neste sentido, a raça negra tem todo o direito de dizer que a cultura brasileira é uma cultura africana. Não somente no sentido quantitativo da maioria do nosso povo, que é de origem africana, mas também pela importância que ele exerce como fator de construção da nossa idéia, do nosso pensamento, disso que se chama de cultura.

Agora, uma coisa mais escandalosa e mais incompreensível é que essa classe que tomou conta deste país desde a Descoberta pensa que isso não existe e quer subestimar a sua importância até hoje. Por isso, os nossos sistemas oficiais ou convencionais de cultura, de educação, etc. não dão a menor atenção, não dão “a menor pelota” a isso que nós trouxemos para aqui como grande contribuição para a formação deste país.

Onde é que já se viu, por exemplo, um ensino de 1o grau como esse do Brasil, meu Deus do céu?! Se nós tivéssemos realmente aquilo que o Fernando Henrique Cardoso disse, com muita impropriedade sobre os políticos do Norte e Nordeste, “que eles não tinham vergonha na cara”, se o Brasil, de uma maneira geral, tivesse vergonha na cara, veríamos que estamos fora do tempo e o que estamos fazendo é um anacronismo no mundo de hoje. Nem a África do Sul ousou tanto. Querer dizer que a maioria do nosso povo, que é de ascendência africana, é igual, tem os mesmos direitos; que não há cultura verdadeiramente africano-brasileira é querer desmerecer, é querer perpetuar essa imagem ainda do tempo da escravidão de que o africano nem é cidadão, é um ser de segunda classe. Os fatos desmontam completamente essa versão da imagem do africano no país. E infelizmente, por força dessa pressão, por força desse tipo de dominação racial, muitos africanos brasileiros corroboram essa forma de atuação das classes dirigentes e até ajudaram, como, por exemplo, Nina Rodrigues e outros das chamadas ciências psiquiátricas. Porque o negro, até bem pouco tempo, era uma matéria da psiquiatria, não dos direitos humanos e nem da ciência humana. Era puramente um elemento, um objeto de Ciência Psiquiátrica. E muitos desses psiquiatras que praticaram esse desvio científico, que é mais um crime contra os africanos, eram também de origem africana.

No processo da formação econômica do Brasil, o negro foi decisivo – se não fosse o trabalho do africano escravizado não havia economia no Brasil. Tudo se deve ao esforço, ao suor, ao sangue e ao martírio da vida dos africanos. Mas também nos outros níveis da construção do país, sobretudo, na construção de uma espiritualidade brasileira, que é exatamente o vetor mais forte da identidade de um povo, isso aí é super africano. É verdade que esses elementos, até agora, não têm transcendido os limites da própria comunidade de origem africana, porque esta, até hoje, é uma comunidade encurralada, recalcada dentro do status que lhe é permitido pela dominação. Mas isso, eu estou falando de uma forma muito relativa porque o movimento negro tem expandido essa presença em todos os níveis, no nível do emprego, da participação política e no nível também da sua força e das suas crenças. Esse espaço está realmente se alargando e hoje está fugindo do controle dessas instituições que sempre nos asfixiaram e manipularam. Eu tenho toda a certeza (já não é mais uma crença nem uma profissão de fé que pode se desvanecer), eu tenho a consciência muito clara de que nós estamos às vésperas de o africano brasileiro, a comunidade de origem africana ter realmente o domínio de todas as esferas da vida do país. Não por uma questão de imposição nem de ambição, mas por uma questão natural de matemática, pois nós somos a maioria. Falamos sempre em democracia e ela é justamente a predominância das maiorias, então, é um movimento natural. O que o tem impedido é esse controle que tem tido uma grande eficácia, pois é introjetado na comunidade negra, de que ela não possui potencial, força, direito, capacidade. Mas, o movimento negro está destruindo estes mitos e o monopólio de posição, de comando da sociedade, também está sendo derrubado.

 Proposta – Senador, esse movimento de sair de uma posição encurralada, sair em busca de expressão faz parte da sua história de vida. Então não podemos deixar de fazer uma pergunta sobre o Teatro Experimental do Negro, TEN. Porque, considerando o fato de o Rio de Janeiro naquele momento ser a capital do país, considerando o fato do que a capital produziu como discurso ideológico para uma política de embranquecimento, ter uma estratégia de fazer teatro e de se relacionar com a produção cultural da forma como o TEN se propôs é muito específico. Nós hoje não temos nada semelhante, ou na mesma proporção que se teve naquele momento, dialogando com outras formas de produção cultural. Nós não conseguimos reeditar definitivamente alguma coisa como o TEN. Nós fomos fazer outras coisas, mas como o TEN eu, particularmente, não consigo ver. Isto é, fazer uma produção cultural e construção ideológica numa cidade que produz para o restante do país. Queria perguntar, valeu fazer o TEN?

Abdias – É preciso dizer o seguinte, eu já tinha tido antecedentes de uma luta em organização de negros afro-brasileiros. Eu participei da Frente Negra e ali eu tive essa experiência de ver que a nossa luta não ia muito além porque ela queria a integração. Era uma luta contra a discriminação, mas era uma luta pela integração do negro à sociedade. E claro que era uma maneira de dizer “nós não estamos procurando criar caso, nós estamos querendo nos integrar a vocês”. Essa coisa me incomodava muito porque eu não queria ceder, eu não queria ser igual ao dominador. O tempo foi passando e tive todas as experiências de atuação política e falei “não, então eu não posso mais ser caudatário, eu não posso mais estar numa organização onde eu não tenho voto de decisão”, pois na Frente Negra eu era um anônimo. E com a circunstância histórica do Brasil estar numa ditadura, que me prendeu na penitenciária do Rio de Janeiro por me rebelar contra o regime, e depois de uma viagem que fiz de aventuras poéticas, ou que nome tenha, pela América, onde assisti a “O Imperador Jones”, em Lima, sendo interpretado por um branco pintado de preto, essas coisas todas me esclareceram. Desde a minha infância tive experiência de exclusão, mas não tinha feito a reflexão de todo aquele contexto, onde eu nunca pude ver um teatro e nem representar naquelas festas de fim de ano na escola. Hoje, o meu filho está aí sempre representando, eu nunca tive isso. A única coisa que eu tinha conhecido era o circo, que tinha sempre uma segunda parte com um drama ou teatro de bonecos. Então, lá em Lima, quando eu assisti àquilo, foi uma revelação. Eu falei: “está aí o caminho, pois se não podemos falar coisas de raça porque a ditadura não permite, como é que eles vão impedir? É teatro e teatro é uma coisa inofensiva”. Para o Estado, o teatro era inofensivo, pois teatro no Brasil, em geral, era mulher rebolando, era o Grande Otelo fazendo flor com a boca, era palhaçada que sempre se pensa que o Teatro Negro vai fazer. Isso aí já era uma espécie de passaporte para a gente começar a fazer as atividades. Logo no começo, nos engajamos na luta, independentemente do trabalho de formar atores para o elenco da peça. Logo no primeiro ano, nós já estávamos engajados na luta pela libertação dos presos políticos. Mas também tivemos a experiência dolorosa de que para lutar com branco é preciso ver com que brancos. Porque nós estávamos lutando lá na UNE, fazíamos o Comitê Democrático Afro-brasileiro junto com eles. Mas, o pessoal da UNE só estava conosco enquanto estávamos fazendo a luta a favor dos presos políticos, que eram quase todos brancos. Vencida esta etapa, quando foram todos libertados e reivindicamos que era preciso expor essas questões e lutar em favor da comunidade negra contra a repressão policial, contra a pobreza, contra o desemprego, disseram: “Isso aí não. Isso aí é fazer divisão da classe operária, isso aí é fazer divisão do povo brasileiro”.

Aliás, um deles, depois de muitos anos, veio me dizer que nem fora uma decisão dele, e sim uma ordem recebida do exterior. Quer dizer, era um diretório manipulado pelo Partido Comunista e eles não queriam esse tipo de problema. Então, eu criei a Convenção Nacional do Negro. A Convenção se reuniu pela primeira vez em São Paulo e lá eu propus e foi aprovado essa questão do racismo ser crime de lesa-pátria. Essa proposta foi levada à Assembléia Nacional Constituinte em 1946 pelo Senador Anderson Nogueira da UDN. Ela foi discutida e foi recusada pela falta de um exemplo de racismo no Brasil. Não havia racismo no Brasil, portanto, o projeto não tinha no que se apoiar. Agora, o mais importante aí foi que o único deputado negro da Assembléia Nacional Constituinte, Claudino José da Silva, do Partido Comunista, votou contra. No ano seguinte, ele compareceu a uma sessão da Convenção para fazer uma declaração de que ele era a favor, mas estava obedecendo ordens do partido. E veja bem, eu havia me dirigido a todos os partidos, enquanto presidente da Convenção, enviando nosso documento e todos eles apoiaram o projeto. Inclusive eu tinha uma carta do Prestes, hoje eu não sei mais onde ela está. Ele naquele tempo era o secretário geral e apoiou, mas na hora de votar, votaram contra. Então, você está vendo como a luta é difícil.

Proposta – Vamos falar um pouco sobre como o chamado pensamento crítico brasileiro se recusa a aceitar a dimensão racial da desigualdade. Por que então nós é que dividimos, quando nós estamos fazendo a crítica à estratégia de divisão?

Abdias – É curioso. Nós somos as vítimas e os culpados desse crime da discriminação. Você é culpado da existência da discriminação porque você está criando um problema para a sociedade brasileira. Porque está falando que tem direitos e que está sendo oprimido. Então, você se transforma em réu. Eu sou o autor desse crime, dessa divisão da sociedade brasileira porque eu sou um símbolo da disputa. Lá no Senado, alguém telefona e pergunta: “Com esses seus discursos, com esses projetos, vocês não estariam dividindo? Não seriam projetos demais?” Eu digo: “Escuta meu caro, a divisão já existe desde que existe o Brasil. A divisão não é de agora. Não sou eu não. Isso existe desde o começo, os donos do país, os dirigentes do país dividiram. E falta muita lei. Pelo contrário, nós não temos uma legislação eficaz e eficiente que impeça toda essa desigualdade, essa injustiça social.”

Proposta – Abdias, andam criticando você porque tem trabalhado demais, apresentado muitos projetos?

Abdias – Sim. Mas eu tenho toda a certeza de que esse que faz esse tipo de acusação não conhece nenhum dos meus projetos. Eles falam simplesmente pelo gostinho de atacar, de tentar calar, de tentar perturbar uma ação que a gente está desenvolvendo no Senado. Não se trata realmente de uma crítica fundamentada. Tem lá uns quatro ou cinco projetos. O que é isso para uma população de mais de 70 milhões de brasileiros que necessitam de tudo? Agora, por exemplo, apareceu um projeto, apresentado por outros senadores, mas que eu subscrevi imediatamente, das mulheres serem membros do Supremo Tribunal Federal. O que vou fazer imediatamente agora quando chegar? “Negro também tem que ter lugar lá”. Homem ou mulher negra tem que estar lá no Supremo Tribunal Federal. Por que só os brancos julgam os negros? Onde já se viu isso? Você já viu justiça mais racista do que a nossa? Ê  uma justiça branca. Aliás tem o Silva Melo, que é um médico, um estudioso já falecido, que escreveu O negro no Brasil, que é um livro muito interessante. Ele diz que a justiça aqui não é só racista, mas ela é criminosa pela forma como julga os negros.

Proposta – Pensadores de matrizes ideológicas tão distintas como Gilberto Freire e Darcy Ribeiro, de uma forma ou de outra, consideram a mestiçagem racial e cultural como uma grande contribuição e valor próprio de uma cultura brasileira. Como o senhor vê essa questão?

Abdias – Depois da Revolução de 30, é claro que esta foi a arma que substituiu o arrocho da escravidão. Tinham que criar um outro instrumento ideológico, que é exatamente essa questão de erigir a mestiçagem como uma política de Estado. Isso é uma política de racista verdadeiro que é a coisa que o Hitler fez. Porque essa política sendo apregoada, sendo evangelizada como o vetor principal da questão desse encontro racial no país, isto demonstra exatamente essa dominação absoluta. Porque, você veja bem, eles têm todos os instrumentos de dominação. Quando apregoam isso, fazem com que todos os negros queiram ser brancos. Porque já destruíram a família, destruíram as matrizes psicológicas do homem negro; colocam a população negra num estado de permanente disponibilidade à ação arbitrária da polícia; põem a população nos porões, nos morros, nos alagados. Eles colocaram a população negra numa posição indefesa psicológica, emocional e materialmente. Então, é muito forte esse negócio. Você pode ver que tudo isso estimula essa passagem: é o censo, são as instituições, os meios de comunicação, o sistema educativo, onde os livros só apregoam as excelências da História Universal, que é a européia, das famílias brancas, que têm tudo e o negro só é um ser abjeto. Essas coisas todas mostram que o vetor que interessa à classe dominante é o vetor europeu, nórdico; se possível, todos louros.

O brasileiro gosta muito de encher a boca: “Ah! Mas aqui, até o Presidente da República, grandes personalidades, foram mulatos”. Ora, mulatos embranquecidos não vale. Isso aí já não conta. O que conta não é só a cor da pele, é a consciência, é a integração, é o compromisso com os problemas da nossa gente. Isto é, da luta racial.

Proposta – E o senhor acha que é esse compromisso que foi desestimulado entre a comunidade negra?

Abdias – É lógico. Isso tudo foi desestimulado. Às vezes até com ameaça da força policial ou da legislação anti-racista. O negro lutar pela sua dignidade, aqui, é tido como uma manifestação de racismo ao revés.

Proposta – Acusado de ser racista por defender a política de ação afirmativa, o que você responde?

Abdias – Olha, eu estou tão consciente daquilo que faço, tão firme nisso a minha vida inteira, que isso aí não me toca porque sei que é o que encontrarei sempre pela frente. Eu já disse que me alio até com “o coisa ruim com as quatro patinhas” para fazer as minhas coisas. Porque tenho consciência de que nada, nem personalidade, nem político, nada abala essa minha estrutura. Eu acuso sempre o racista, seja lá onde for. Não estou preocupado com o meu destino, com a minha sorte, se vou para cadeia, se vou passar fome, se vou perder o emprego. Sigo em frente fazendo aquilo que sei que é o meu dever. Quero de qualquer maneira deixar um rastro aí para o meu povo falar: “bom, pelo menos a gente tem um parâmetro, tem um exemplo moderno, não só aquele do Zumbi”. E é por isso que vou em frente. Lá encontro barreira de todo jeito, mas vou em frente. E, surpreendentemente, às vezes encontro coisas bonitas. Por exemplo, nessa questão da ação afirmativa, que chamo de ação compensatória para não ficarem pensando que estou macaqueando os americanos, eu tinha um projeto que nunca foi votado, mas que agora já tem um parecer magistral do Senador Roberto Requião a favor. Agora, eles nunca votam porque o relator faz o relatório e depois vai lá para a comissão votar e a comissão custa, às vezes, anos para encaminhar para votação. Os meus projetos na Câmara foram assim. Acabou a legislatura, eu não era mais deputado e eles foram engavetados. Eu espero que agora no Senado pelo menos um saia. Esse da ação compensatória é muito importante porque garante as cotas.

Proposta – A ação afirmativa é um debate internacional, sempre foi.

Abdias – Desde a Câmara que eu fiz o projeto. Não é porque agora virou moda, não. Mas eu sei que é um debate internacional.

Proposta – Ou seja, nós não podemos lutar pelos nossos direitos?

Abdias – Nós não podemos ter amor ao nosso povo. Isso é o mais grave. Toda a nossa luta é pelo nosso povo. Por que nós não podemos ter amor ao nosso povo? Eu não tenho nada contra eles, eu tenho com meu povo que está aí na miséria, na desgraça, está sem direitos, sem respeito, está sem emprego, sem comida, está sem casa, sem esgoto. E isso. E amor ao meu povo, à nossa História. E isso fere os interesses deles.

Proposta – Nesse contexto tão adverso de resistência da elite em fazer com que a gente possa exercer o amor ao nosso povo, o senhor acha possível o Brasil passar a instituir política de ação afirmativa? O senhor acha que nós temos chance, que isso é um debate que vale a pena?

Abdias – É um debate que vale a pena. Eu acabei de dizer que a consciência e a organização do nosso povo estão crescendo e mesmo nesse arremedo de democracia o jogo de forças vale. Estamos nos tornando também uma força que vai ter peso nesta balança. Então, essas políticas têm chance sim de serem implementadas. Nossa comunidade está de uma forma positiva, usando as brechas possíveis para se organizar, se fortalecer e vai exigindo cada vez mais. É uma infiltração. Eles sempre falam que o negro vai se infiltrando. Ele está se infiltrando, sim. Hoje são três senadores negros, amanhã serão seis. Na década de 80 só havia eu no Congresso, hoje já são oito ou dez. Quer dizer, estão se infiltrando e isso vai crescer cada vez mais.

Proposta – Como é que foi essa história? O senhor se infiltrou no PDT? Como é que foi isso?

Abdias – O PDT foi uma história mais longa. Primeiro, eu já era do antigo PTB. Acompanhava o Brizola. Nós formávamos uma coisa nacionalista, não sei se era Legião Nacionalista, tinha um título assim, que defendia as reformas de base, defendia a defesa do patrimônio. Quer dizer, essas coisas já vêm de longe, mas nunca fui amigo dele.

No exílio, houve uma oportunidade, porque ele estava em Nova Iorque e eu estava na Universidade do Estado de Nova Iorque. Marcamos vários encontros, discutimos muito esta questão negra porque ele estava tratando de reorganizar o PTB, naquele tempo era o PTB. Quando houve uma reunião em Lisboa para formalizar essa organização, eu falei com o Brizola. Ele já havia assumido posições favoráveis à luta dos negros e fiz um documento que foi incluído no programa do partido como um de seus princípios prioritários.

 A questão negra no PDT não é uma questão puramente eleitoreira. Ela não aparece na hora da eleição, ela é parte da estrutura do partido. Por isso, logo que o partido foi fundado, eu criei lá dentro uma Secretaria do Negro. E não era para arrebanhar negro não, era para nos dar reflexão, estudo das questões negras e a sua própria autodefinição. A Secretaria está em relação com os outros órgãos do partido, mas ela tem autonomia nessa questão de definição das políticas da comunidade negra. Foi assim que esta questão foi colocada lá.

O Brizola foi o primeiro líder nacional de política brasileira que entendeu esse negócio e tentou executar. O maior exemplo de que não se trata de uma questão eleitoreira são os CIEPs. E uma pedra, é um emblema. Por que um líder foi sacrificado dessa maneira? Porque ele estava dando escola, queria dar comida, quatro refeições por dia, dar dentista, dar prédio ventilado e bonito, dar piscina. Isso enfureceu as elites dominantes. Diziam que ele estava fazendo da escola pública um hotel de cinco estrelas simplesmente porque deu as condições humanas para que uma criança pudesse realmente ser gente e estudar.

Proposta – Sentir vontade de crescer e ter mais conhecimento.

Abdias – Vontade de ir à escola. A criança negra não consegue, a maior parte não chega ao segundo ano do primeiro grau porque não tem estímulo, não tem vontade de ir àquele troço e também porque não tem uma infra-estrutura doméstica, não tem comida direito, não tem uma roupa direita, não tem quem ajude nos trabalhos em casa. Quer dizer, não tem nada. E desamparada, a criança só pode ficar vivendo na rua, “zanzando”. Não são abandonadas, tiveram suas famílias destruídas. Não têm a infra-estrutura para que possam ter esse apoio necessário que qualquer criança tem.

Na primeira eleição fui eleito suplente, mas o Brizola queria que eu estivesse lá, então ele chamou dois deputados para serem secretários. E eu pude apresentar vários projetos. Uma coisa também que ninguém menciona é que os primeiros projetos tentando enquadrar o racismo como crime já vêm desde 1945.

Proposta – Vamos falar um pouco da vida fora do país, falar do Mandela, da África do Sul.

Abdias – Nos encontramos quando fui convidá-lo para vir aqui. Foi no dia de um congresso do ANC, em Durban. Ele não estava atendendo ninguém e acabei falando com a secretária dele. (Hoje, ela é embaixadora da África do Sul em Paris). Disse quem eu era e expliquei por que estava lá. Daqui há um pouquinho ela veio me buscar e, para meu espanto, o Mandela me recebeu com um sorriso, um abraço e gritando Mister Nascimento. Isso aí foi formidável. Como ele respeita as pessoas. Não falou um mister qualquer não.

A luta dele e daquele povo é um símbolo e também um estímulo muito grande para todos os negros. Mostra como nós também estamos chegando lá. Mal comparando, aqui é um pouco pior do que lá. Porque lá, pelo menos, os lutadores da causa antiapartheid, quando são sacrificados, são tidos como heróis. Aqui no Brasil, não. Aqui são vagabundos, botam lá no xadrez, morrem e ninguém sabe. Como fizeram comigo por duas vezes. Uma vez, fui preso na penitenciária de São Paulo porque não aceitei o racismo, apanhei na polícia, fui tirar pena, eu poderia morrer naquela penitenciária e ninguém ficaria sabendo. Outra vez foi na Nigéria, no colóquio do II Festival Mundial de Artes e Cultura Negra (FESTAC) – Lagos, 1977 –, quando eles fizeram toda uma trama para me excluir, para me desmoralizar, para acabar comigo. Tanto que acabaram com o presidente do colóquio, Pio Ahmadu, que havia me convidado. Ele morreu do coração antes de começar.

As pressões, não só do Brasil mas dos outros países que estavam praticando a mesma política de exclusão daqueles que iam lá fazer denúncias, foram enormes. Eu fui excluído, mas fiquei lá. Tive o apoio de toda a imprensa, de todos os intelectuais e do próprio presidente substituto, Coronel Ahmadu Ali, Ministro da Educação. O delegado do Brasil queria me calar. Dizia: “se der a palavra para Mister Nascimento, haverá problemas diplomáticos entre o Brasil e a Nigéria”. O presidente então disse: “Com a Nigéria não tem problema. Você tem a palavra Nascimento”. E aí eu descasquei o pau. A delegação do Brasil ficou igual barata tonta comigo na Nigéria. Mas depois a coisa lá ficou muito bonita porque ficou uma desmoralização. Para começar, era tudo branco. Um congresso de cultura e artes negras, na delegação brasileira só tinha um tal “doutor” que era negro. Ele foi lá e apresentou uma dessas teses sobre questões do candomblé. Ele fez uma pesquisa e a conclusão era que os pais-de-santo realmente não eram doidos. Você está vendo? Na Nigéria, um cientista negro para dizer isso.

Proposta – Mas, no caso da África do Sul, que é uma sociedade com um perfil multirracial. O que o senhor imagina que isso traz como inovação para as nações africanas, para o mundo?

Abdias – Eu acho que ela está dando um exemplo para a própria África e para o mundo. Tenho uma grande preocupação porque o Mandela está se despedindo do poder. Até que ponto o líder que vai substituí-lo, Thabo Mbeki, tem o mesmo carisma, a mesma autoridade, a mesma destreza mental e política para poder enfrentar aquele cipoal de problemas que a África do Sul tem? Porque toda aquela minoria branca ainda está lá com poder econômico e está cutucando, doida para aquele negócio degringolar para eles voltarem. Eu não acredito que voltem, mas a gente vê que as coisas não estão fáceis. O controle econômico ainda está muito na mão daquela antiga aristocracia. Isso também é um fator muito inquietante. Mas, quem venceu as batalhas que eles já venceram vai vencer essa outra, porque o mais difícil eles já fizeram. É difícil, mas é uma dificuldade relativa. Antes era um negócio absoluto: esse de lá tem tudo e esse de cá não tem nada. Através de estratégias políticas, eles conseguiram fazer aquela eleição e tomar posse. Porque também era outra coisa que ninguém acreditava, “não vão dar posse”. Sobretudo aquele exército ainda cheio de brancos matadores. E eles venceram tudo isso.

A habilidade e a competência do Mandela são coisas que estão acima de qualquer estadista vivo e morto. Realmente ele é uma pessoa que está fora de qualquer parâmetro, de qualquer comparação.

Acredito que o processo da África do Sul é uma grande lição para nós, porque temos, de certa forma, características análogas. Somos uma maioria dominada. Temos um sistema econômico todo na mão dos brancos, onde o negro participa de uma maneira tão ínfima que nem pode ser mensurada. E nós tivemos também esse sacrifício das prisões, das matanças. A história do Brasil é toda feita do assassínio do africano no Brasil. Todo mundo pensa que isso não tem nada a ver conosco. Ao contrário, tem tudo a ver, todas aquelas matanças têm tudo a ver. E uma coisa que nós temos que meditar e denunciar. Isso é importante. Nós vemos o exemplo dos judeus que ficam falando nesses seis milhões toda hora. E nós aqui esquecemos dos milhões e milhões de africanos mortos e deportados não somente na África, mas também aqui no Brasil.

Proposta – No discurso de posse do FHC, ele se comprometeu a modificar o quadro de exclusão da população negra.

O senhor acha que o Fernando Henrique tem perfil e potencial para fazer uma coisa mais efetiva pela população negra?

 Abdias – Aí não se trata de potencial. Trata-se de que ele tem compromissos com as forças que atuam contra nós. Essas coisas do capitalismo a que ele está subordinado, e que estão tomando conta do patrimônio econômico do país, são as forças da exploração do nosso trabalho, da nossa humanidade. Portanto, ele está fazendo exatamente o oposto. Essas suas promessas foram completamente retóricas, não têm nada a ver com a realidade. Ele está fazendo coisas completamente diferentes. Você pode ver que ele não deu a mínima condição para aquele grupo interministerial que ele mesmo criou, funcionar. Aquele grupo é simplesmente uma perfumaria. Um perfume de mal odor que ele colocou ali. Porque aqueles três coitados não podem fazer nada! Não têm nenhum poder de decisão, não têm nenhuma infra-estrutura para poder trabalhar, nenhum fax, nenhuma máquina de datilografia. Quer dizer, é uma coisa só para embromar a comunidade. E olha, não é só lá não. Por exemplo, na Fundação Palmares, a divisão que fizeram lá no orçamento é para não fazer nada também. Daquilo que um senador e um deputado têm direito, eu sozinho dei metade do que deu o governo para a Fundação Palmares. Eu aloquei lá um milhão e trezentos mil e o governo deu dois milhões e meio. Isso dá para fazer alguma coisa séria num país desse tamanho com tantos problemas, uma comunidade destruída, destituída de tudo? E a Fundação Palmares, tem como missão exatamente apoiar todo o movimento da comunidade. Você acha que isso é pra valer?

Proposta – Então como nós devemos disputar recursos?

Abdias – O negro tem dois caminhos: ou ele entra na luta dos quilombos de Palmares, que é a luta armada, ou ele tem que entrar no jogo das decisões, que é o que nós estamos fazendo. Ele tem que disputar poder, ele tem que se candidatar. É por aí que a gente força. Tenho feito várias palestras pelo interior e sempre digo para as mulheres negras se candidatarem. E votarmos nelas. Porque é assim. Nós ainda somos poucos indo ao centro do poder, mas mesmo assim a gente pressiona alguma coisa. Alguma coisa vem.

Proposta – Hoje, existe muito menos condescendência com práticas eliminatórias, com práticas racistas. O que você imagina que venha como futuro dessa sociedade? Não dos organizados, não daqueles que querem se propor a se tornar representantes. Mas qual é o seu sonho em termos de população negra? Essa que ganha visibilidade junto aos mais jovens? Existe uma coisa diferente no ar? Nós não estamos vivendo as mesmas coisas que vivíamos nos anos 70. A mudança nos últimos dez anos é muito significativa?

Abdias – Essa consciência vai se formando, você tem toda razão, em muitas outras formas diretas da nossa luta. Por exemplo, essa vertente da música. Isso aí é uma coisa importantíssima. O samba reggae é uma forma de conscientização e de luta também. Eu acho que isso tudo vai se somar um dia… Depois de muitos anos fui com Elisa à minha terra. Na hora de voltar, no aeroporto, vimos lá um rapaz do Cidade Negra. Você precisava ver a emoção dele de encontrar comigo. É gente que eu, por exemplo, não sabia… É um grupo muito bom e deve ter muitos outros.

Proposta – O que faz diferença hoje são os grupos jovens. Eu acredito que realmente exista um movimento de cultura. Eles são mais afirmativos, têm outra postura corporal, não estão muito interessados em levar desaforo pra casa, embora sejam muito visados pela violência policial, que realmente lhes retira o direito de ir e vir. Não é por acaso que eles são os que sofrem maior nível de repressão. Têm uma irreverência, mas uma irreverência que é crítica, bem mais crítica do que nós tínhamos há dez anos.

Abdias – É crítica. Simplesmente ela não tem essa crítica da forma como nós fazemos. Mas é crítica dessa sociedade e da injustiça, da exclusão e da afirmação da cidadania.

Proposta – Cidadania negra. Eu fico incomodada com a história de que nós temos uma cidadania de segunda classe. Eu acho que nós não temos cidadania nenhuma. O que vale pra gente é ter uma cidadania mesmo. Nós temos um compromisso bastante antigo com o socialismo, porque nós temos que nos inspirar na prática com os quilombos. Na sua opinião qual é a representação que o quilombo tem?

Abdias – É a nossa referência máxima, básica. Todos os quilombos, não só Palmares. É sempre um ponto de coesão, de fraternidade racial, é uma forma de cultuar valores. Nos quilombos, essas coisas são revalorizadas, relançadas.

Proposta – É a matriz da nossa cultura política?

Abdias – Sem dúvida. É a matriz e a diretriz. Se os negros, que tratam de política, tratassem de estudar mais essa questão dos quilombos, iam ter uma outra força muito maior.

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