Patxohã: língua, memória e resistência – resenha da tese de Anari Braz Bomfim

Por América César

A tese intitulada Materializações da língua do Povo Pataxó no tempo presente: um estudo sobre o Patxohã no extremo-sul da Bahia, de autoria de Anari Braz Bomfim, desenvolvida no curso de Doutorado do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro foi defendida no mês de setembro do ano de 2025. A tese retoma e reflete o trabalho de uma “pesquisadora de dentro” da comunidade pataxó do extremo-sul da Bahia, nascida e criada na Aldeia Pataxó de Barra Velha, que há mais de 26 anos, junto à Coordenação Atxohã, formada por um grupo de jovens pesquisadores e pesquisadoras pataxó das diversas aldeias no extremo-sul do Estado da Bahia, vem desenvolvendo um trabalho hercúleo de pesquisa, documentação e ensino linguístico com vistas à reconstrução de uma língua que a línguistica oficial dá como extinta, mas que pelo esforço desse grupo de pesquisa e dos seus falantes como um todo, se reconstrói e vai se estabelecendo em várias situações de uso linguístico no território pataxó e fora dele.

A relevância deste trabalho está, de saída, em si mesmo, no esforço de retomada e afirmação de uma realidade sociolinguística que se julgava improvável: a reconstrução e uso de uma língua que só remanescia na memória de alguns dos anciãos e anciãs e em alguns poucos documentos, esparsos e incompletos. Por isso, boa parte do texto consiste em contar essa história. A história do povo Pataxó no seu esforço de sobrevivência e afirmação política e cultural (capítulo 1), que se confunde com a história de silenciamento das suas formas ancestrais de falar, cultuar e pensar. Ao mesmo tempo, descreve esse afã de resistência em afirmá-las e reconstruí-las (capítulo 2 e 3). Assim a luta pela retomada da língua pataxó se confunde com a luta pela retomada dos seus territórios ancestrais, da luta por educação diferenciada e por direito à sua diversidade cultural. E se torna mais louvável dado o seu impacto nas políticas linguísticas e de identidade de outros povos indígenas no nordeste brasileiro, que se irmanam nesse mesmo fazer, conforme é analisado no quarto e último capítulo.

Do mesmo modo, a história de retomada dessa língua, denominada no presente de Patxohã (língua do povo guerreiro), se associa também a luta dos seus pesquisadores e falantes por uma educação de qualidade, diferenciada e bilingue. A própria autora é também em si mesma um exemplo dessa luta. Foi aluna do primeiro curso de formação para o magistério indígena, curso esse que, tendo sido previsto para durar três anos, se estendeu por quase oito anos, pelas dificuldades impostas pelo Estado brasileiro para a realização da educação escolar indígena como garante a Constituição de 1988. Ingressa em 2005 na Universidade Federal da Bahia como uma das primeiras estudantes cotistas no curso de Letras, cursa o mestrado no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Estudos Etnicos e Africanos, um programa também que resulta dos esforços de implantação de Lei 10. 639/2003. 

No trabalho da tese, a autora se debruça em descrever e compreender essas trajetórias de afirmação políticas culturais e linguísticas, com seus desafios e caminhos encontrados para a sua superação, o que chama caminhos indígenas de metodologia e pesquisa.

É claro que podemos fazer perguntas quando se trata da língua em si, cuja descrição tem limites impostos pelas próprias circunstâncias e objetivos das políticas de revitalização, retomada de línguas nesses contextos de resistência. Podemos também indagar sobre uma maior atividade crítica sobre as teorias linguísticas  tradicionais, eurocentradas, colonializantes, que não só não dão conta de responder aos desafios impostos pela tarefa de reconstrução da língua, como impõem métodos e preceitos que não estão em sintonia com o ethos do povo pataxó nem com os conceitos que têm de língua e usos linguísticos próprios. Mas no contexto de militância em que sua autora se insere, mais parece ter sentido a construção dos novos paradigmas que dão sustentação ao seu trabalho de pesquisa do que o esforço de desconstrução da ciência estabilizada.

Por ser um documento de agradável leitura e qualidade, testemunho do esforço de resistência e afirmação política, cultural e espiritual de um povo historicamente perseguido, e que até hoje convive com a violência da luta pelo seu território e direitos fundamentais, a tese de Anari Braz Bomfim é um trabalho que merece ser publicado, lido e discutido com muita seriedade.

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