Por Waleska Barbosa*
“Ed Motta nega agressão e diz à polícia que é negro, gordo e sem preconceito”.
Abro a página da Folha de S.Paulo na internet e me deparo com o título acima. Tenho acompanhado, também pelo noticiário, o caso, agora policial, que gerou a autoindulgência do artista.
Ele teria se exaltado em um restaurante de São Paulo ao questionar o “valor da rolha”, taxa cobrada de clientes que levam bebida de casa em vez de consumir as oferecidas pelo estabelecimento. Disse ainda ter se sentido desprestigiado pelo mesmo motivo.
Tudo isso o fez gritar, jogar uma cadeira para o alto, chamar funcionários nordestinos de “paraíba” e enviar mensagens de áudio a responsáveis pelo caso, alardeando o “ódio” que dizia sentir. Não é a primeira vez, aliás, que comportamentos destemperados do músico vêm à tona.
Autodeclarar-se negro e gordo, a essas alturas, pareceu-me uma tentativa amadora de provar que essas duas características o isentariam de cometer, supostamente, os crimes a ele atribuídos, como xenofobia, racismo e homofobia.
É comum, nesses casos, recorrer a esse tipo de lógica: ainda que não seja, sempre haveria um amigo preto, um amigo gordo, ou ambas as coisas na mesma pessoa, como prova de ausência de preconceito.
Nunca vi ou soube que Ed Motta tenha assumido um papel político, para muitos, indissociável do fazer artístico, a partir de sua condição de homem negro e gordo: seja para se irmanar à maioria negra do país, seja para defender políticas públicas, reparação ou ação afirmativa.
Nunca vi ou soube, igualmente, que tenha se colocado como parte de uma maioria vulnerabilizada e minorizada, ou como uma voz em solidariedade a quem perde tanto — até a própria vida — em função de uma democracia racial forjada e nunca consolidada no Brasil.
Em outro caso policial que tem dominado as manchetes nos últimos dias, a empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos é acusada de agredir uma jovem negra que trabalhava em sua casa como empregada doméstica, após incriminá-la pelo furto de uma joia.
Em entrevista, Carolina afirmou que nada do que dizem é verdade. Disse que está grávida, que tem tido surtos de explosão, “até com o meu marido mesmo”, episódios de confusão mental e de dizer o que não quer.
E, assim, a loucura, adjetivo historicamente usado como justificativa para exterminar mulheres e reduzi-las a um lugar de invisibilidade e de patologização, vira um álibi utilizado por advogados e réus na tentativa de se safarem da Justiça.
Na prática: tentativa de homicídio triplamente qualificado, tortura, cárcere privado, calúnia e difamação, acusações que motivaram sua prisão preventiva no Maranhão.
A covardia é sempre a sombra de quem acredita na impunidade. Um, por ser gordo, negro, sem preconceito. Outra, por ser empresária branca, influencer, “mãe e cristã”, como se apresentava em suas redes sociais.
Eu queria ver esses corajosos, os que se arvoram a jogar cadeiras em restaurantes ou a espancar uma mulher até a mão inchar, sustentarem suas atitudes na frente da polícia ou atrás das grades.
Sem recorrer a súbitas declarações de bondade ou a uma inocência presumida, acionadas quando a responsabilização se aproxima. Quando acreditam que serão salvos ao se autodeclarar negro, gordo e sem preconceito. Ou ao publicizar, em entrevista, gravidez, confusão mental e gritos dirigidos ao marido como sentença de inocência.
Como se não bastassem os vazios “desculpe a quem se sentiu ofendido” e “não tive a intenção”, que servem de desculpa a tantas outras pessoas sem preconceito que, todos os dias, repetem essas frases como se redentoras de atitudes (ou crimes) que vão morrer jurando não ter cometido.
Coitadas.
São pessoas desprestigiadas.
Ou com confusão mental.
Apenas.

