“Diferentes Nações Negras” de Jean-Baptiste Debret. Fonte: Wiki Commons
Por Vitória Elizabeth / Rafael Guimarães para a Agência Brasil
Um acervo de 14 mil documentos com mais de 150 anos que pode revelar parte da história de pessoas escravizadas no Brasil.

Um inquérito aberto pelo Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro contra a Caixa Econômica Federal (CEF), a partir de uma representação do Quilombo Raça e Classe, já permitiu a identificação de 158 cadernetas de poupança abertas por escravizados no acervo histórico do banco. No entanto, o MPF considera que o levantamento é limitado e não traz informações essenciais, o que compromete o resultado, afirma o procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto no Rio de Janeiro, Júlio Araujo:
“Nós constatamos que existe um arquivo enorme, um acervo enorme, que não está devidamente organizado do ponto de vista arquivístico. Merece tratamento. A grande questão sobre as economias, sobre o uso do pecúlio, naquela época é que não basta analisar as cadernetas de poupança. É necessário analisar também os livros de conta corrente, que eles vão dar um sinal importante sobre isso. E isso não é o MPF que está falando, pesquisadores importantes, como a pesquisadora Keila Grinberg, colocam a necessidade de ir além das cadernetas de poupança. O trabalho é importante, mas precisa ser bem feito, com metodologia adequada, e isso não foi informado. A Caixa informou um número, mas não disse como chegou a esse número, como que isso foi identificado.”
MPF cobra informações detalhadas
Diante das inconsistências, o MPF determinou que a Caixa apresente informações detalhadas sobre a equipe envolvida na pesquisa e a metodologia adotada. A instituição também deve indicar a quantidade de livros de contas correntes existentes no acervo.
Para a dirigente nacional do Quilombo Raça e Classe, Maristela Farias, o que importa não é a quantidade de contas abertas por pessoas escravizadas, mas a reparação histórica pelas vidas negras:
“A lógica é a reparação, pela sociologia, pela mudança do fim do racismo no país e no mundo. Os judeus foram reparados, os japoneses foram reparados. E como, recentemente, a própria ONU declarou que esses crimes de guerra são ainda menores que o crime da escravidão, pelo tempo que durou a escravidão, foram mais de 300 anos de exploração, de opressão, de violência. E a gente também avalia que são crimes continuados, porque a gente percebe que esse processo acaba se dando até os dias de hoje.”
Ela reforça a importância da memória e lembra da dívida do Estado brasileiro com os descendentes desses escravizados:
“É justo e necessário para os negros e negras no Brasil, que seguiram sendo marginalizados, discriminados, oprimidos e explorados pela sociedade do capital, que surgiu logo após a dita abolição, como também jogar luz sobre contas correntes de escravizados de todas as formas de controle social pela violência física, psíquica, moral, cultural, econômica e social. Então, para a memória histórica de fato, o Estado brasileiro tem uma dívida com os afro-brasileiros, e nos enquadramos na verdade e na memória histórica dos 388 anos de escravidão, onde deixou marcas na história do Brasil e na vida da população negra brasileira.”
Caixa Econômica
Em nota, a Caixa informou que a conservação, a guarda e a pesquisa no acervo histórico da instituição são um processo contínuo e permanente, efetuado por equipes multidisciplinares. Disse ainda que “as pesquisas em outras tipologias documentais, como livros de contas correntes, estão em andamento e serão reportadas oportunamente na forma da legislação pertinente”.
Fonte: https://exame.com/brasil/caixa-localiza-158-contas-abertas-por-escravizados-e-avalia-indenizacoes
