Da votação histórica em Salvador ao retorno à política baiana: Vilma Reis fala sobre representação, feminicídio e democracia

Por Redação ÌROHÌN

Há mais de três décadas, Vilma Reis constrói sua trajetória política a partir das lutas do movimento negro e do movimento de mulheres, aliada à defesa intransigente dos direitos humanos. Socióloga, ativista, mestra em Ciências Sociais e uma das vozes mais contundentes contra o racismo e o patriarcado na política brasileira, ela foi, em 2022, a candidata do PT mais votada em Salvador, alcançando 35.011 votos e presença eleitoral em 92% dos municípios da Bahia. Três anos depois, após contribuir com a reconstrução de políticas públicas no governo federal e atuar na formulação de políticas de diversidade nos Correios, Vilma Reis retorna ao debate público como pré-candidata a deputada estadual. Nesta entrevista exclusiva ao Portal ÌROHÌN, ela reflete sobre o significado político daquela votação, fala sobre representação real para mulheres negras, quilombolas e periferias, e aponta os desafios urgentes para a Bahia, do enfrentamento ao feminicídio à democratização dos recursos culturais e econômicos no estado.

Você foi a candidata do PT mais votada em Salvador nas eleições de 2022. O que aquela votação revelou para você sobre a Bahia que talvez a política tradicional ainda não tenha entendido?

As eleições de 2022 foram fruto de toda a construção que nós fizemos de luta nos últimos 30 anos na Bahia. Foi uma resposta de desobediência ao machismo e ao racismo. É inadmissível montar uma representação na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa sem a nossa presença, sem a nossa fotografia. Ter votação em 92% dos municípios da Bahia foi uma resposta muito bonita. Essa votação para mim, do ponto de vista político, é uma votação de altíssima qualidade. Ser a candidata do PT mais votada em Salvador, com 35.011 votos, são votos de rebelião, votos conscientes e votos posicionados. É voto de gente que sabe em quem vota e cobra depois. Quando uma mulher quilombola sai da sua comunidade para votar na gente, quando pescadoras dizem “agora a gente tem em quem votar”, isso é representação real. A política tradicional não reconhece esses sujeitos de direito: as mulheres, juventudes, povo quilombola, povo do candomblé, periferias como Nordeste de Amaralina, Cajazeiras, Subúrbio Ferroviário. Nós reconhecemos! E nesses três anos nós não soltamos a mão do nosso povo.

Muitas pessoas se perguntaram onde você estava após as eleições de 2022. Que resposta você dá hoje para quem faz essa pergunta?

Obrigada pela pergunta, que eu acho importante. Eu estava no trabalho. Desde novembro de 2022 eu cheguei em Brasília para fazer a transição do governo do presidente Lula na reconstrução do Ministério das Mulheres. Em seguida fui para os Correios, como a primeira mulher negra assessora da presidência de uma estatal desse porte, coordenando a política de diversidade. Saí deixando aprovada a primeira política corporativa de diversidade da empresa, com comitês nas 28 superintendências do país. Criamos políticas para garantir 40% de mulheres e 30% de negros na gestão, programa de enfrentamento aos assédios e políticas que inspiraram mais de 30 estatais brasileiras. Criamos o programa Correios Comunidade, levando serviços para favelas, territórios quilombolas e indígenas. Participamos da atualização das políticas de cotas no serviço público. Foi uma tarefa intensa e cumprida com coragem. Essa experiência também dialoga com a minha atuação como coordenadora executiva da Coletiva Mahin, onde nós organizamos as  mulheres negras para atuar politicamente a partir dos territórios. Eu estava em Brasília fazendo política e fazendo a política que transforma a vida das pessoas, que planta esperança e bem viver. Eu não estava esperando o próximo cargo, mas sim cumprindo a tarefa para a qual o movimento negro e o movimento de mulheres me preparou. Eu fui formada para ocupar esses lugares e essa é a diferença: quando nós chegamos, a gente provoca reviravolta. Onde a gente pisar, a gente vai fazer a diferença, pois foi desta forma que atuei ao longo destes três anos.

A Bahia está pronta para eleger uma mulher negra?

Eu acredito que sim. A Bahia com a qual nós dialogamos, dos territórios, dos quilombos, das feiras, das universidades do interior, da região metropolitana e da capital, está pronta. Nosso povo não quer mais política de oligarquia, nem familismo. Quer saber em quem votou e quer poder cobrar. Nosso povo não nos nega, nos afirma. Nós precisamos de representação com dignidade. O meu voto eu sei a quem dei e sei com quem vou dialogar. Isso mudou o perfil da política na Bahia.

Na sua avaliação, quais são hoje as maiores urgências da Bahia?

Enfrentamento ao feminicídio é prioridade. Não tem explicação termos o número de DEAMs – Delegacias Especializadas no Atendimento  à Mulher estagnado. Precisamos de concurso público, fortalecer a rede de atendimento, expandir a Casa da Mulher Brasileira para cidades-polo. Sem centralidade dessa agenda na Assembleia Legislativa, a política não se desdobra. Também precisamos democratizar a política cultural. O mesmo dinheiro que vai para a Concha e para o TCA precisa chegar nas periferias e nas cidades do interior. A juventude negra precisa acessar recursos para cinema, teatro, audiovisual. O dinheiro na Bahia ainda está nas mesmas mãos há 200 anos. Ele precisa passar pelas mãos da juventude negra e das mulheres negras. Precisamos também ampliar os recursos da agricultura familiar e da titularização das terras devolutas estaduais.

O que te move a voltar para a disputa eleitoral, agora como pré-candidata a Deputada Estadual?

A necessidade de incidir diretamente na política estadual. Entendo também que as políticas federais, como o enfrentamento ao feminicídio, precisam de liderança forte nos estados para acontecerem na ponta. Precisamos provocar uma nova institucionalidade na Bahia. Essa é uma de nossas tarefas.

E por que deputada estadual e não federal?

Foi uma decisão madura. Tivemos quase 61 mil votos, mas entendemos que neste momento é estratégico consolidar força na Bahia, incidir na Assembleia Legislativa e construir nosso caminho. Não tenha dúvidas de que um mandato estadual nosso terá repercussão nacional.

Se você pudesse falar diretamente com o povo baiano que acreditou em você e também com quem ainda não te conhece que mensagem deixaria hoje?

Vivemos um Congresso Nacional e uma Assembleia Legislativa majoritariamente ocupados por empresários e fazendeiros. Se não elegermos nossas próprias lideranças, outros decidirão por nós. Precisamos votar nas mulheres negras, nas mulheres indígenas, nas mulheres das lutas de base. O mundo é redondo, mas a gente tem que ter lado. E o nosso lado é o da democracia, da justiça racial, dos direitos das mulheres e das juventudes, e da dignidade do nosso povo.

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