Leitor pouco frequente mas admirador de Adélia Prado, entendi a alegria com a qual seu último livro de poemas foi recebido. Desde os anos 2000, há edições da obra poética reunida da autora e prêmios nacionais e internacionais em 2024 deram outro ar e valor ao título novo da autora agora nonagenária e cuja trajetória muita gente dava por completa. Não é preciso ser um Umberto Eco para sugerir que a poeta e seu prestígio é que foram notícia, não sua poesia, independentemente do que esta trate ou de como esta venha a ser.
Meu Natal poético foi escrito com a leitura de “Cruor – Poemas de Edson Lopes Cardoso”, outro lançamento de 2025. Quinto ou sexto título de uma obra poética que – por extensão no tempo e exiguidade de exemplares – deve ter sido lida na íntegra por cinco ou seis leitores que acompanham com alegria cada trabalho que modifica a fisionomia poética de um autor cuja vida o levou a ser muito mais associado à prosa, tanto como professor, palestrante, orador, quanto como autor.
Prosa presente na fala de rigor argumentativo, de combate, de ativismo, de propaganda da luta racial, que transportou seu autor – não exatamente em tapete mágico – a diversos auditórios, salas de aula e situações de fala pública, não só no Brasil. E prosa de articulista, ensaísta, estudioso de primeira, cujo valor foi reconhecido no Valor Econômico, em cujas páginas um resenhista de “Nada os trará de volta – escritos sobre racismo e luta política” (Companhia das Letras, 2022) registrou não entender como podia estar recém-conhecendo pensador contemporâneo tão prolífico e interessante.
A distorção cognitiva e afetiva operada pelo racismo, com implicações em todas as esferas de vida individual e coletiva (da cultural à econômica), é tema um grande poema de Cruor, “Antimemória”, sendo comum também a vários reflexões expressas em artigos. Prosa e poesia do autor não sendo feitas em planetas diferentes, uma emanando de Marte e outra de Vênus, compartilham motivos e referências. Diferentemente da coletânea de prosa, cujos 400 artigos estão organizados tematicamente, a ordem alfabética dos 71 poemas de Cruor permite e até exige impor ao conjunto algum tipo de classificação, alguma ordem particular, estabelecida segundo os critérios de cada leitor.
A liberdade de leitura me faz marcar um conjunto de cerca de pouco mais de 20 poemas – como “Cal e Silêncio” e “Inseto” – que me parecem nos informar diretamente sobre o próprio autor, que não nasceu adulto e nem hoje, “Mas numa casinha honesta e honrada”, natalina. Para caracterizar a poética do livro, a prefaciadora de “Cruor”, Ana Luiza Pinheiro Flauzina, estudiosa e diretora de um filme sobre o autor, escolhe e analisa um poema que pertenceria a este subgrupo, baseado no impacto, ainda adolescente, de assistir a uma sequência de “O assalto ao Trem Pagador”, de Roberto Farias. Eu escolheria outro – e, outros, outros, na abundância do livro: “Soneto” – poema que liga o primeiro título (em 1977, quase contemporâneo à estreia de Adélia) a este “Cruor”, um soneto atípico, espécie de pós-soneto em versos livres, com sinete de reflexão de pessoa de Letras que mourejou muito a língua.
Mourejar tem muitos ondes e quandos. Eu o trago de Lima Barreto, autor que Edson Lopes Cardoso muito ensina a ler, assim como a Machado de Assis, de cuja leitura negra (ainda surpresa literária em 2025) é um precursor e praticante. Cotejar as trajetórias de Machado de Assis, Lima Barreto e Edson Lopes Cardoso (editor de três jornais do movimento negro) é um convite para ver como o racismo afunilou as oportunidades de se ganhar a vida no jornal, sendo espaço mais de “meritochacinas” (termo que aprendi com Marcos Fabrício Lopes da Silva) que de “meritocracia”.
Em 1859, a estreia de Machado em “O Espelho”, veículo que me parece ter sido talhado para ele, talvez não tenha passado de um “falso boato”, expressão que Mário de Andrade usou em análise sobre Aleijadinho. Meio século depois, as “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, já culminam com a entrada de Isaías no mundo das letras, sim, mas como contínuo do jornal. E é deste livro eloquente que Edson Lopes Cardoso transforma em poema de abertura de “Cruor” o trecho em que Isaías se compara a um grande navio moderno cujo vapor se perdesse e o impossibilitasse de se mover.
As engrenagens impotentes de “Isaías Caminha mandou avisar” me lembram citação ouvida do próprio Edson, sobre como Steve Biko – o ativista fulminado pelo apartheid – comparava um povo sem memória a um carro sem motor. A poesia de Edson trabalha esta importância da memória, colocando-se na condição de ser memória de si e dos outros, a partir da palavra escrita – o elemento de expressão artística com o qual também “esculpe”, “pinta”, “foca” e “fotografa”. Tivesse talento, eu desenharia “Maçu espanta almas penadas, visagens”, poema vizinho de “Maioria” e próximo alfabeticamente de “Ocupados em falar”, que me parecem sinalizar ideias que se desenvolverão em artigos e ensaios.
A chave digressiva e crítica que preside a poética do autor de “Cruor” detecta e atrai como um ímã os automatismos discursivos reiterados que acompanham as falas sobre o racismo e destaca e realça os ardis de ilusão presentes no pacote de entretenimento, de jornalismo ou de publicidade dos meios de comunicação. “Outra ilusão”, por exemplo, trabalha a elisão e substituição de sujeitos históricos verdadeiros na venenosa fórmula “a cana é agro”; e “Linguagem técnica”, alcança efeito crítico mesmo sem o poeta acrescentar nenhuma palavra à nota de assessoria de comunicação sobre situação de crueldade policial que alcançara excepcional repercussão após ter sido filmada em celular e veiculada na TV.
Segundo aprendemos com o autor, “cruor” é termo que se refere ao sangue derramado violentamente, estando na origem da palavrar crueldade, entendida esta como prazer – mas também indiferença – de ver o sangue dos outros. O termo é tirado de leitura de edição comentada d’Os Lusíadas, obra contemporânea da era (e ira) das “grandes descobertas” – entre elas, a da escravização como “comércio” moderno, em processo anterior à formação de nações modernas nas quais hoje a população da diáspora é vista como problema e questão.
“Cruor” é também signo com o qual podemos percorrer, ao revés, a obra poética do autor, verificando, como sugere “Soneto”, também em Intimações do Desumano (2022), Gravatá da Fonte (2017), Minha Vez (2004), Ubá (2002) e Areial das Sevícias (1977) a constância de não transigir com a indiferença racializada (o racismo) diante do sangue derramado. Para ter prazer ou ser indiferente, anestésico, ao sofrimento de outra pessoa, é preciso achar que ela é e não é “como nós”. É, pois sofre; não é, porquanto “merece” (“meritocracia”, finalmente…) ou “pressupomos merecer” o que a vemos sofrer, seja a morte, o castigo, as sobras ou a subalternidade.
Hierarquizando nossa humanidade comum a partir de um padrão político de “brancura”, o racismo é o equipamento mental que nos permite, como se fôssemos um “scanner”, digitalizar num átimo a aparência de cada pessoa e hierarquizar os seres humanos diferentemente, tratando-os desigualmente a partir da tonalidade da pele, da textura do cabelo, da cor dos olhos, do formato do nariz, da grossura dos lábios, e, ato contínuo, situando-os num continuum de humanidade no qual o último na fila do pão deve se aproximar do Homo sapiens monstrosus, expressão do pai da taxonomia moderna, Carl Lineu.
Lendo poemas como “Mono” e Vinicius” chego à conclusão de que, se o Homo sapiens monstrosus não existe como queriam, pode se manifestar ironicamente de quando em quando, enquanto uma idealização racista capaz de se materializar “a las cinco de la tarde” (Llanto por Ignácio Sanches Mejía, de García Lorca) – horário de bola aos domingos no Brasil – em estádio espanhol lotado de gente “primeiro-na-fila-do-pão”, ensandecida pelo racismo e a projetar num jovem toda a monstruosidade cultivada em si própria. O pranto não dura no tempo e nem nas imagens da TV, que faz o papel de ser máquina de mostrar e fazer esquecer, mas não se apaga das imagens dos poetas, seja no poema de um Lorca, seja nas arenas da poesia de um Edson Lopes Cardoso.
Com esta leva de “Cruor”, os poemas publicados por Edson Lopes Cardoso talvez cheguem a 300 ou somem até mais, em estimativa que faço sem os exemplares à mão – e sua publicação conjunta, obra poética reunida, quem sabe com inéditos, é uma necessidade cujo atendimento não se faz esperar.
Por Lunde Braghini Junior – Jornalista e mestre em Comunicação (UnB)
Serviço
Cruor – Poemas, de Edson Lopes Cardoso, está à venda no site do IROHIN, com redirecionamento para o Mercado Livre.
Disponível em: https://www.mercadolivre.com.br/cruor/up/MLBU3439281034
