Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Cerca de 300 mil mulheres negras de todas as regiões do país marcharam, em 25 de novembro, pela Esplanada dos Ministérios, em uma das maiores mobilizações sociais registradas na capital federal nos últimos anos.
A marcha reuniu mulheres negras de perfis diversos, incluindo quilombolas, trabalhadoras urbanas, lideranças comunitárias, representantes de organizações internacionais, parlamentares, pesquisadoras e coletivos de juventude, o que evidenciou o caráter nacional e plural da mobilização. A presença expressiva reflete a consolidação de uma agenda política articulada em torno da Reparação e do Bem Viver, apresentada como horizonte estratégico para enfrentar desigualdades raciais persistentes no país.
Durante o ato, foi lançado o Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que sustenta que a democracia brasileira permanece condicionada pela herança da escravidão e por estruturas coloniais que seguem moldando políticas públicas, distribuição de renda, acesso à terra e dinâmicas de violência estatal. O documento apresenta medidas materiais, simbólicas e institucionais de reparação e defende que o Estado e setores privados historicamente beneficiados assumam responsabilidade pelo legado da escravização.
Passados dez anos da mobilização de 2015, a comparação entre os manifestos revela mudanças na orientação política do Movimento. O documento de 2015, preservado no acervo do Centro de Documentação ÌROHÌN, tinha como foco central a denúncia da violência policial, do genocídio da juventude negra e da exclusão sistemática das mulheres negras do mercado de trabalho, da educação e dos espaços de poder. Já o manifesto de 2025 expande esse diagnóstico ao situar essas violações dentro de um sistema mais amplo de colonialidade, relacionando desigualdades raciais às crises climáticas, à concentração fundiária, ao avanço de políticas autoritárias e aos impactos econômicos e sociais do período pós-2016, o que evidencia um amadurecimento da pauta.
A Marcha ocorreu em um dia marcado pela prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, fato que concentrou a atenção da imprensa nacional e reduziu a visibilidade da mobilização. Ainda assim, consideramos um ato politicamente bem-sucedido. A capacidade de reunir centenas de milhares de pessoas, apesar do bloqueio de parte da mídia tradicional, indica o enraizamento da pauta e o fortalecimento das redes que articulam o Movimento de Mulheres Negras em todo o país.
A mobilização de 2025, uma década após a primeira Marcha, representa uma nova etapa na disputa por políticas de reparação e por modelos alternativos de desenvolvimento e justiça.
O Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver está disponível para leitura integral no site da organização: https://marchadasmulheresnegras.com.br/manifesto-das-mulheres-negras-por-reparacao-e-bem-viver/
