O último porto do tráfico negreiro: pesquisa aponta ruínas em Barra de Guaratiba como local de desembarque de escravizados

Há registros da chegada de navios no local onde ficava a antiga Casa do Porto, no Canal do Bacalhau; lugar passará por trabalho arqueológico que vai buscar mais evidências da atividade no lugar


Por Carmélio Dias — Rio de Janeiro

Os versos dão o tom e as coordenadas: “Eu nasci, nasci de Angola / Angola que me criou / Hoje estou na Marambaia, moreno/ E por isso negra sou”. O ponto, entoado com força pelas mulheres do Jongo do Quilombo da Marambaia, remete à origem e ao destino de milhares de pessoas trazidas à força do continente africano para o litoral fluminense. A área de restinga que se estende pelo território de três cidades — Mangaratiba, Itaguaí e Rio de Janeiro — é reconhecida como tendo sido centro de um dos mais ativos complexos clandestinos do tráfico negreiro. Pesquisa recente mostra que esta infame estrutura pode ter incluído ainda um ponto no continente: a antiga Casa do Porto, em Barra de Guaratiba, na Zona Oeste.

Da velha construção restam apenas ruínas descritas como “uma base de pedras amareladas multiformes” no artigo em que o pesquisador Flávio José de Moraes Junior expõe suas descobertas sobre o local. A Casa do Porto, cuja existência, estima-se, remonta ao século XVIII, ficava bem na entrada do Canal do Bacalhau, onde hoje passa a “ponte nova”, erguida na década de 1970, para substituir a velha ligação do Rio com a Restinga da Marambaia.

No texto, publicado em julho do ano passado na Coleção Estudos Cariocas, do Instituto Pereira Passos (IPP), o cientista social, que mora em Barra de Guaratiba desde 2022, se apoia nos registros que encontrou de navios negreiros que atracaram no local, na vasta produção acadêmica sobre o tráfico negreiro na região da Restinga da Marambaia, na análise de documentos e na tradição oral perpetuada por Francisco Alves Siqueira, autor de livros sobre as histórias do bairro onde nasceu e viveu por 100 anos.

— O Seu Chiquinho, como ele era conhecido, um dia me contou como se estivesse falando uma coisa muito banal: “Tinha um porto ali no Canal do Bacalhau, que era do Sousa Breves (o traficante de escravizados Joaquim José de Sousa Breves). Ele recebia escravizados ali, mas agora já está em ruínas, já não vale nada” — lembra Flávio Moraes. — Não era algo banal, claro. A partir daí comecei a levantar o histórico e encontrei na plataforma Slave Voyages registros que indicam a entrada de vários navios naquele ponto.

Leia a matéria completa em: https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/01/25/o-ultimo-porto-do-trafico-negreiro-pesquisa-aponta-ruinas-em-barra-de-guaratiba-como-local-de-desembarque-de-escravizados.ghtml

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