Para enxergar e ouvir Luiza Bairros

Por Thomázia da Conceição

A capital do país viveu, na semana posterior ao 20 de novembro, uma efervescência incomum. Não viria de órgãos públicos nem dos centros de decisões políticas, embora tivesse caráter decisório e político.

Vinha das ruas. Vinha de 35 países e de todas as regiões do país. Atendia pelo nome de ‘mulher negra’ e mostraria sua força no dia 25 quando, após dez anos, a cidade recebeu a segunda edição de um evento histórico: a Marcha de Mulheres Negras 2025 – por reparação e bem-viver.

Dados oficiais apontam que pisaram o chão da Esplanada dos Ministérios os pés de 300 mil delas, representando tantas outras. Tal diversidade de tons de pele, gênero, classe, comunidades, territórios e etnias esbarrou na estanque agenda perpetuada ao longo de décadas, apesar de conquistas e vitórias, muitas forjadas pelo próprio movimento negro.

Tais demandas por reparação e bem-viver foram sintetizadas em um documento que pediu, gritou, escancarou, bradou as injustiças, iniquidades e desigualdades que se querem findas. Tal qual fizeram tantas das vozes presentes, em cima de trios elétricos, ao empunhar microfones ou em dezenas de atividades que ocorreram em todo o território nacional, correlacionadas ao momento histórico.

Fotos: Carlos Moura

Na Fundação Palmares, ainda no dia 24, no Espaço Cultural Mario Gusmão, ocorreu um desses eventos: a abertura da exposição ‘Luiza Bairros: Lentes e Voz’, realizada pelo Ministério da Igualdade Racial e pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, com curadoria de Martha Rosa F. Queiroz.

Considerada uma das agendas mais concorridas da instituição, que luta ela mesma para se reconstruir após desmonte e esvaziamento contundentes, impostos por um governo de direita que fez sucumbir até mesmo o Ministério da Cultura, ao qual a autarquia está vinculada, a Palmares abriu suas portas para receber Luiza Bairros.

A cerimônia contou com as participações das ministras Margareth Menezes (Cultura), Anielle Franco (Igualdade Racial), do presidente da casa anfitriã, João Jorge, entre tantas outras autoridades, lideranças e militantes de movimentos sociais e do movimento negro, como Sueli Carneiro.

Também abrigou uma roda de conversa sobre Mulheres Negras na Cultura – Por reparação e Bem Viver, entre Margareth Menezes, a escritora Conceição Evaristo, a curadora Martha Rosa e a integrante do Comitê Nacional da Marcha, Érika Matheus Silva dos Santos, mediada pela secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura do MinC, Roberta Martins.

‘Lentes e Voz’ indica, por parte do Governo Federal, mais um movimento necessário para honrar a memória de uma das principais referências brasileiras na luta contra o racismo e pela equidade de gênero e raça do Brasil.

Fotos: Carlos Moura

A exposição, segundo material de apoio, está dividida entre fotografias e audiovisuais (registros de vida e atuação política); objetos de memória (artefatos pessoais, publicações e documentos históricos); legado político e social (contribuição para o movimento negro e políticas públicas) e instalações interativas (experiências).

Começando por uma linha do tempo que pontua as vivências de maior destaque na vida pública de Luíza, passamos por fotografias, réplicas de artigos de sua lavra, cartazes de momentos ímpares de sua trajetória.

Uma das imagens traz uma Luiza Bairros, também ela, empunhando um microfone e fazendo soar seus apelos em cima de um trio, na I Marcha das Mulheres Negras, em 2015, evento que ajudou a fazer. No ano seguinte, ela partiria, em 12 de julho, acometida por um câncer de pulmão.

Luiza Bairros chegou e saiu do mundo físico em uma Porto Alegre conhecida por sua exclusão e preconceito à população negra – tão invisibilizada na capital gaúcha que muitos pensam nem existir.

De acordo com a curadoria, sua ligação com o bairro Colônia Africana, território que abrigou ex-escravizados e onde teve origem sua família, fez com que Luiza soubesse, desde sempre, quem era, de onde vinha e reconhecesse a cor da sua pele como determinante social.

O que, no entanto, ganhou novas dimensões quando foi morar, no final dos anos 70, em uma Salvador conhecida como Roma Negra, a cidade de maior população negra do Brasil. E lugar no qual, pode-se dizer, ela se encontrou, fincou raízes e de onde lançou brotos e galhos que alcançariam dimensões globais.

Não apenas por ela, mas por toda a população negra brasileira, Luiza Bairros sabia que essa luta deveria acontecer a partir de diferentes ringues – e ela ocupou, com maestria, todos eles.

Na academia, no movimento estudantil, ao submeter seu nome em eleição para cargo eletivo, na política partidária, em cargos de confiança em governos municipais e estaduais, em organismos internacionais, em solos estrangeiros, em discursos e posicionamentos históricos, em conferências promovidas pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Fotos: Carlos Moura

Como titular da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), órgão-semente do atual MIR, sob sua liderança denúncias importantes e conquistas igualmente salutares para a sobrevivência do povo negro, em especial da juventude negra, foram implantadas. A exposição abre espaço para sublinhar algumas delas.

Destacando a figura de Luiza Bairros como a “Memória viva da luta feminista e negra no Brasil”, a homenagem é um bom começo para que se conheça seu legado e sua história de vida. Mas é importante lembrar que há mais a ser catalogado, registrado, recuperado e, sempre, enriquecido e mostrado à população.

A exposição se ateve, na maior parte de seu conteúdo, a mostrar aspectos da vida pública da administradora, com mestrado e doutorado em sociologia. Mas, talvez aí, tenha perdido a oportunidade de humanizá-la, cuidado que permeou sua militância junto ao povo negro.

“Todos somos humanos, e a resistência aos processos desumanizadores do racismo é, de longe, a maior contribuição dos negros à cultura brasileira”.

Aspectos biográficos que aprofundassem e instigassem a descoberta ou o (re)conhecimento sobre afetos, vida familiar, predileções, amizades, hobbies e traços de sua personalidade ajudariam na montagem de um mosaico que aproximasse Luiza dos ainda distantes e serviriam como uma ponte emocional ainda mais firme a ligá-la aos que compartilharam de sua existência. Algo que não está posto é que Luiza atuou no teatro – em cima dos palcos, como atriz, e nos bastidores, nas montagens, textos e contextos.

A missão de resgate e registro não se encerra aqui, porque “memória viva” é, portanto, destinada a novas significações, estudos, achados e inspirações.

Os feitos de Luiza permanecem sendo espaço para o vindouro. Como o símbolo do Sankofa, muito ainda há que se olhar em todas as direções e tempos, para que se encontre a Luiza que Luiza Bairros foi, é e continuará sendo.

Fotos: Carlos Moura

A exposição é convite para os que chegam – para que se atentem à figura, às lentes e vozes de Luiza. Uma mulher que entrou no Movimento Negro Unificado (MNU), como ela mesma conta (e pode ser conferido em um dos quatro aparelhos de rádio que guardam depoimentos seus e de pessoas de sua convivência), um ano após sua fundação. Também falam sobre sua relação com a homenageada personalidades como Silvany Euclênio, Mônica Oliveira, Ângela Figueiredo e Valdecir Nascimento.

Ao compreender as diferenças de gênero, mesmo no interior do movimento, Luiza Bairros atuou pelas mulheres negras. Entendendo a importância de dados e informações oficiais, utilizou-os para embasar políticas públicas. Entendendo que seu chamado era pela ocupação da academia e por uma construção intelectual, fez graduação, especialização, mestrado e doutorado, este fora do país.

Fotos: Carlos Moura/ Arte: Nelson Inocêncio

Fazendo jus ao título Lentes e Voz, a exposição é ambientada destacando, como objeto estético e de coesão, grandes óculos confeccionados em madeira e muitas flâmulas e tecidos como suporte, remetendo aos panos, echarpes e estolas usadas por Luiza Bairros e que, compondo seu visual e estilo, terminaram por se tornar uma espécie de marca registrada. Alguns deles estão presentes no acervo, bem como fotos de armações de óculos usados por ela, disponibilizados por sua sobrinha. Obras de arte que têm Luiza como tema também têm espaço.

Fotos de sua infância, do irmão, do pai e da mãe, ainda que em molduras separadas, remetem a sua ancestralidade e até nos fazem louvar a existência de tais registros em um país que, sabemos, não cuidou da memória do povo negro e onde a cor da pele determinou, tantas vezes, a existência de uma fotografia.

O painel Nossos Feminismos Revisitados homenageia figuras importantes na caminhada intelectual e afetiva de Luiza, como Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Valdecir Nascimento, Mãe Beata de Yemonjá, bell hooks, Vilma Reis, Beatriz Nascimento, entre outras.

Muito do seu pensamento crítico, em textos de gêneros variados, foi evocado por meio de caixas em formato de livros, que trazem os títulos das obras, mas não o conteúdo. Quando abertas, ora surgem vazias, ora oferecem um QR Code que remete aos arquivos do material. As caixas vazias, informa a monitoria, referem-se a obras que não puderam ser disponibilizadas devido a questões de direito autoral, por exemplo.

Luiza Bairros ganhou, em 2024, por iniciativa do Ministério da Igualdade Racial e dos Correios, um selo com sua imagem, o que foi registrado na exposição, bem como outras homenagens, em um espaço dedicado a este fim. Estão presentes condecorações como o Grau de Grã-Cruz da Ordem do Mérito da Defesa, os títulos de Cidadã Baiana e de Cidadã Honorária de Uberlândia-MG e a Medalha Tiradentes, da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Por outro lado, seria muito bom que os audiovisuais propagados abarcassem registros em vídeo das vidas e vivências de Luiza. Ouvir alguns de seus pensamentos em dois dos quatro rádios pareceu pouco diante da urgência e atualidade de suas reflexões. O livro Luiza Bairros: Pensamento e compromisso político, de Vanda Sá Nogueira, surge na estante, em exemplar único, lacrado por embalagem plástica.

Já o artigo publicado no ÌROHÌN, em setembro de 2006, é reproduzido apenas em parte. Por ali, não é possível saber as conclusões a que chega a “importante mulher negra, militante, feminista, intelectual e estadista da história brasileira”, ao discorrer sobre Uma nova configuração da política racial. Vale lembrar que, àquela época, a publicação integrava os esforços por compor uma mídia negra e, hoje, se constitui como um Centro de Documentação, Comunicação e Memória Afro-Brasileira.

‘Lentes e Voz’ não chega a ser inclusiva como pretendia a luta de Luiza Bairros. Questões de acessibilidade, como linguagem, sinalização e tecnologias assistivas, consideradas essenciais para a democratização da cultura, podem deixar de fora algumas pessoas na tentativa de fruição de todo o percurso.

Ao final da visita, sentimos que o Brasil precisa enxergar e ouvir Luiza Bairros de todas as formas possíveis. De perto. Para lembrar que os passos vêm de longe. Para inspirar os que chegam. Para nutrir estudos e estudiosos com o que foi produzido e sistematizado por ela. Para que não se incorra no erro do apagamento, do esquecimento, da pressa. Em uma tensão sutil, altiva e austera entre calmaria e urgência. Assim como ensinou Luiza Bairros. Em atos e palavras. Nunca em omissão.

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