Trinta e oito anos antes do presente, em um momento decisivo da redemocratização brasileira, a Comissão do Negro do PT-DF produziu um documento que antecipou embates fundamentais sobre raça, classe e representação política no país. Preparatório para o I Encontro Nacional “O PT e a Questão Racial”, realizado entre 20 e 22 de março de 1987, o texto propõe uma guinada antirracista dentro do Partido dos Trabalhadores e oferece uma leitura crítica do racismo nas instituições, inclusive dentro da própria esquerda.
O documento, resgatado agora pelo Ìrohìn como parte do acervo de memória do movimento negro, denuncia a invisibilidade do trabalho negro nas pautas centrais do partido, critica a celebração oficial do Centenário da Abolição e propõe que o 13 de Maio de 1988 seja transformado em um marco político de denúncia e mobilização. “O racismo não é, entretanto, um assunto exclusivo de negros. Por isso nos empenhamos na construção partidária de uma resposta à questão racial”, defende o texto.
O texto destaca que os negros são maioria entre os trabalhadores que recebem até três salários mínimos, mas enfrentam resistências internas no PT para discutir o tema. “O Partido dos Trabalhadores não será um instrumento de avanço democrático da sociedade brasileira se não incorporar a luta contra o racismo como parte central de seu projeto”, afirma o documento. A Comissão critica setores do partido que reduzem a luta racial a um “apêndice da luta de classes”, ignorando que a exploração capitalista se sustenta também na desigualdade racial.
Entre as propostas, destacam-se a criação de comissões do negro em todos os diretórios do PT, a pressão sobre a Constituinte para incluir a criminalização do racismo, e o fortalecimento de vínculos com o movimento negro internacional. Ao mesmo tempo, o documento expõe contradições internas, como a exclusão da população negra do discurso oficial do partido e a resistência de setores da esquerda em tratar a questão racial como estruturante.


Esse registro histórico, agora disponível no acervo do Ìrohìn, revela a longa trajetória de enfrentamento e construção política do movimento negro dentro e fora das instituições.
Veja o documento:
