Congresso Pan-Africano de Lomé consolidou agenda por justiça cognitiva que levou União Africana a rever mapa de África

Representação comparativa de projeções cartográficas. Imagem meramente ilustrativa.

Resoluções aprovadas em 2025 impulsionaram decisão histórica sobre cartografia, reposicionando o debate sobre representação, poder e colonialidade

As resoluções do 9º Congresso Pan-Africano, realizado em Lomé, em dezembro de 2025, consolidaram uma agenda política que, meses depois, se materializou em uma decisão da União Africana sobre a correção das representações cartográficas do continente africano.

Adotada em fevereiro de 2026, durante a conferência realizada em Adis Abeba, a medida respondeu diretamente a uma formulação construída no campo pan-africano, e passou a tratar a cartografia como um território de disputa política e simbólica.

Lomé como ponto de inflexão

O Congresso Pan-Africano de 2025 reuniu lideranças do continente e da diáspora e se tornou um ponto de inflexão ao afirmar que a forma como África é representada no mundo integra a estrutura das desigualdades globais, e também produz hierarquias, influencia percepções e organiza o imaginário global sobre territórios e povos.

Na declaração final, o Congresso instou a União Africana e seus Estados-membros a levarem às instâncias internacionais, especialmente à ONU, a demanda pela revisão das representações cartográficas dominantes. A projeção de Projeção de Mercator foi identificada como um dos principais símbolos dessa distorção histórica.

Da distorção à política de reparação

A decisão posterior da União Africana incorporou esse entendimento ao reconhecer que a representação reduzida do continente contribuiu para minimizar sua centralidade econômica, territorial e geopolítica. O documento aprovado apontou que tais distorções não são neutras mas heranças diretas da cartografia colonial, que historicamente operou para deslocar África de uma posição de centralidade no mundo.

Nesse sentido, a correção do mapa passou a ser tratada como parte de uma agenda mais ampla de reparações, alinhada ao tema continental de justiça para africanos e pessoas de descendência africana. A medida foi acompanhada da orientação para revisão de currículos escolares e do fortalecimento do ensino de história, geografia e valores africanos, em sintonia com a Agenda 2063.

Entre memória e futuro

O que se delineou a partir de Lomé foi uma estratégia de longo prazo. A correção do mapa aparece, assim, como parte de um processo mais amplo de reconstrução da imagem de África, e a consolidou a compreensão de que não há transformação sem disputa sobre as formas de ver, nomear e representar o mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Conheça nosso Acervo!