A Copa do Mundo transformada em arte: veja a coleção de selos que celebrou o futebol brasileiro em 1998

Lançada às vésperas do Mundial da França, série dos Correios reuniu alguns dos principais artistas do País para retratar um dos símbolos centrais da identidade nacional. Ao revisitar a coleção, emerge também a presença negra que ajudou a construir a história do futebol brasileiro.

Por Redação ÌROHÌN

No Brasil, o futebol raramente se limita aos gramados. Ao longo do século XX, o esporte tornou-se linguagem cultural, elemento de identidade nacional e espaço privilegiado de produção de memória coletiva. Em 1998, às vésperas da Copa do Mundo da França, os Correios decidiram registrar essa dimensão simbólica por meio de uma iniciativa incomum: convidaram 24 artistas brasileiros para criar uma coleção de selos dedicada ao futebol.

Batizada de Futebol-Arte, a série foi lançada em 28 de maio daquele ano e reuniu nomes importantes das artes visuais brasileiras, entre eles Emanoel Araújo, Cildo Meireles, Carlos Vergara, Aldemir Martins, Claudio Tozzi, Leda Catunda, Luiz Zerbini e Nelson Leirner. Em vez de reproduzir lances célebres ou retratos de jogadores, os artistas recorreram a diferentes linguagens estéticas para traduzir movimento, expectativa, celebração, tensão e pertencimento E os selos passaram a funcionar como pequenas narrativas visuais sobre o futebol brasileiro.

Vista hoje, a coleção revela mais do que o entusiasmo que cercava a participação brasileira na Copa da França, ela permite observar como o futebol já era compreendido como patrimônio cultural, capaz de sintetizar aspectos fundamentais da experiência brasileira.

Essa história, entretanto, não pode ser contada sem a presença negra.

A trajetória do futebol brasileiro confunde-se com a trajetória de jogadores negros que desafiaram barreiras raciais e transformaram profundamente o esporte. Desde as primeiras décadas do século XX, atletas negros foram responsáveis por redefinir estilos de jogo, ampliar a popularidade do futebol e consolidar uma forma de jogar que se tornaria reconhecida mundialmente.

Nenhum personagem simboliza esse processo de maneira tão contundente quanto Pelé. Mais do que um tricampeão mundial, Pelé tornou-se um dos maiores símbolos da projeção internacional do Brasil.

Sua carreira ajudou a afirmar a excelência de atletas negros em um país marcado por profundas desigualdades raciais e sua imagem consolidou mundialmente a ideia do chamado “futebol-arte”, expressão que décadas mais tarde daria nome à coleção lançada pelos Correios. Por isso, a coleção pode ser lida também como um documento da memória afro-brasileira. As imagens produzidas pelos artistas registram um patrimônio cultural cuja formação está profundamente ligada à contribuição da população negra.

A emissão de 1998 foi produzida pela Casa da Moeda do Brasil, com tiragem de 3,6 milhões de exemplares distribuídos em folhas contendo os 24 selos. No acervo filatélico do ÌROHÌN, esses selos adquirem um significado que ultrapassa a celebração esportiva. Eles ajudam a compreender como a memória nacional é construída por diferentes linguagens e como o futebol, longe de ser apenas entretenimento, tornou-se um espaço de produção de identidade, cultura e representação.

Na semana da abertura de mais uma Copa do Mundo, revisitar a série Futebol-Arte é lembrar que parte importante da história do Brasil também foi escrita por artistas, colecionadores, trabalhadores dos Correios e, sobretudo, por homens e mulheres negros que transformaram o futebol em uma das mais poderosas expressões culturais do país.

Série: Futebol-Arte
Data de emissão: 28 de maio de 1998
Motivo: XVI Copa do Mundo de Futebol, França 1998
Artistas participantes: 24 artistas brasileiros convidados
Tiragem: 3,6 milhões de selos
Impressão: Casa da Moeda do Brasil

Acervo: Centro de Documentação IROHIN.

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