Projeto de pesquisa coleta dados históricos em fazendas para saber como ocorreu a consolidação do trabalho durante o período da escravidão e pós-abolição no Brasil
Por Marcos Santos
A escravidão, o baixo crescimento demográfico e alta taxa de mortalidade infantil contribuíram negativamente para a entrada do negro no mercado de trabalho rural, no período pós-abolição. Esses dados são preliminares e constam no projeto de pesquisa Quando o interior conta, que analisa documentos encontrados em sete propriedades rurais e núcleos coloniais, no Estado de São Paulo e na parte fluminense do Vale do Paraíba, no Rio de Janeiro, do final do século 19 até meados do século 20. A iniciativa é coordenada pelos professores Bruno Gabriel Witzel de Souza, do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), e Thales Augusto Zamberlan Pereira, da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EESP). “Temos algumas evidências de que existiam fazendas que usavam o trabalhador imigrante e o trabalhador nacional, que potencialmente era um ex-escravizado. Não foi simplesmente um grupo que entrou e outro que saiu, como aprendemos anteriormente”, comenta Thales Augusto.
O pesquisador da FGV-EESP destaca que os dados obtidos com as documentações encontradas são fragmentados. Segundo ele, para montar o quebra-cabeça da real situação de pessoas brancas e negras na sociedade brasileira, no final da escravidão e no pós-abolição, os dados sobre mortalidade infantil no período são uma boa métrica para mostrar as reais condições de vida da população no período. “As taxas de mortalidade, especialmente a infantil, das crianças negras eram absurdamente maiores que as das crianças brancas. Estamos vendo um reflexo do passado, e a pergunta que fazemos é se isso ocorreu pela falta de oportunidade, ou fatores estruturais, por exemplo”, diz o pesquisador.
Para Bruno Gabriel, a função do estudo é verificar diferentes hipóteses que conhecemos sobre a escravidão e o pós-abolição, mas que ainda não foram confirmadas por meio de testes. “Isso vai mudar, naturalmente, as perspectivas que temos sobre a escravidão e o pós-escravidão. Queremos saber, por exemplo, o nível de produtividade de descendentes de italianos e de descendentes de escravizados. Sabemos que a dinâmica do mercado de trabalho era muito mais complexa do que pensávamos anteriormente”, salienta o pesquisador.
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