Já estreado em Brasília e Salvador, o próximo lançamento será em Recife, na programação do evento Conecta Latinas, no dia 24 de maio *Ramíla Moura Mendes Vieira, para o Portal Ìrohìn Fotos por Duda Rodrigues A escritora e jornalista negra Midiã Noelle lançou em Brasília, no início de abril, o seu primeiro livro: Comunicação Antirracista – Um guia para se comunicar com todas as pessoas em todos os lugares. Em 191 páginas, Midiã conecta sua experiência profissional como jornalista às suas vivências pessoais e sua intimidade com o exercício da comunicação na prática. Baiana, a jornalista relembra no livro que uma das suas referências para abertura de possibilidades e horizontes é Milton Santos, aclamado geógrafo brasileiro e uma das figuras mais respeitadas mundialmente, cuja história e imagem estavam presentes nas paredes de uma das escolas em que ela estudou. No livro de bolso, Midiã homenageia majoritariamente mulheres negras fundamentais em sua formação pessoal e profissional e, ao citar músicas e textos de criadores negros, faz uma ode ao esforço coletivo para que a comunicação seja de fato um instrumento de diálogo em prol de uma sociedade mais justa, equânime e sem racismo. Memória do nosso tempo Segundo Midiã, a proposta do livro também é de construção da memória do nosso tempo. “Porque a construção da memória do nosso tempo também precisa ser dita: quem são esses comunicadores desse momento que estão lutando pela pauta antirracista no Brasil, e também o reconhecimento de que a comunicação antirracista é para todas as pessoas, em todos os lugares”, defende. Para ela, todas as pessoas têm lugar de fala no enfrentamento ao racismo, a partir de sua própria narrativa, da construção de visão de mundo, da linguagem utilizada, da cultura e do território. Midiã ressalta ainda que a comunicação não deve ser vista apenas como um instrumento, mas como uma estratégia que molda perspectivas, derruba e ergue governos, define o que é considerado belo ou aceitável, e que precisa ser pensada de forma antirracista, antipunitivista e antiproibicionista para garantir a humanidade da população negra. Ao conectar sua trajetória profissional com as pessoas que a formaram, Midiã cita nome e sobrenome de diversas profissionais que a guiaram em seu percurso. As jornalistas e doutoras em Comunicação Juliana César Nunes e Kelly Quirino são mencionadas no capítulo sobre mídias negras, no qual ela narra suas experiências ao entrevistá-las em programas como Café com Mídia e Conexões Negras, reconhecendo-as como comunicadoras que estão, ao lado de outros e outras lideranças, na linha de frente da comunicação antirracista no Brasil. Comunicação antirracista em Brasília Juliana César Nunes, que esteve presente no lançamento em Brasília, afirma que o livro de Midiã é um presente para a comunicação e para a luta da população negra. “A publicação de autoria da Midiã tem um valor imenso não apenas pela sua autoria individual, mas também coletiva, principalmente pela trajetória que levou à publicação do livro: a trajetória de uma jornalista, comunicadora negra, que tem se dedicado a construir conceitos e práticas de comunicação que contribuem para a informação, empoderamento e visibilidade da população negra”, destacou. A jornalista ressaltou ainda que a obra oferece estratégias importantes para comunicadores profissionais e também para pessoas que atuam em redes sociais ou outras práticas comunicacionais, profissionais ou não. “O livro é um presente para a comunicação brasileira e para a luta do povo negro”, diz. “Como costumamos dizer, esses búzios que são devidamente colocados e de maneira muito estratégica, a nossa escrita, a escrevivência de mulheres negras, são búzios, pérolas, pedras preciosas que se colocam para nós e para a sociedade como um todo para ser esse mapa que nos guiam pelo caminho da comunicação antirracista”, conclui. Kelly Quirino, professora da Universidade Católica de Brasília (UCB), lamentou não ter comparecido ao lançamento em Brasília, mas expressou orgulho ao saber que foi citada no livro. “Reconhecer o trabalho que eu tenho feito na universidade e no movimento social me deixa muito feliz e orgulhosa no sentido de que estou fazendo um bom trabalho em relação a uma comunicação antirracista no nosso país”, afirmou. Kelly também ressaltou que soma aos esforços apontados no livro de Midiã ao atuar como fonte para a imprensa do Distrito Federal, explicando conceitos de raça e racismo, ajudando no combate ao racismo e formando novos jornalistas com consciência racial. Para todas as pessoas, em todos os lugares Com linguagem simples e humanizada, Midiã narra suas inspirações na comunicação desde as vivências familiares em locadoras de vídeo ou com parentes fotógrafos e seu profundo respeito aos seus mais velhos que a ensinaram na prática como respeitar todas as pessoas. Ela defende que o ato de comunicar é um direito de todos e todas, sendo além de instrumento de formação da opinião pública, uma ferramenta importante para a mudança de comportamentos. Midiã também chama atenção para o racismo como determinante social da saúde, especialmente para mulheres negras. No capítulo “Racismo e Mídia”, ela defende que informações como o fato de que 90% das mortes maternas poderiam ser evitadas com atendimento adequado precisam ser amplamente divulgadas pelos meios de comunicação como forma de alerta e denúncia, citando o caso da morte da gestante negra Alyne Pimentel como um exemplo de tragédia que poderia ter sido evitada. Em sua pesquisa de mestrado intitulada Causa Mortis: Racismo, a advogada, mestre em Direitos Humanos e especialista em Gestão e Políticas Públicas Ilka Teodoro analisa a relação entre racismo e morte evitável de mulheres. Para Ilka, que esteve no lançamento do livro de Midiã na capital do país, a comunicação pode sim ser uma ação estratégica para o enfrentamento ao racismo e à prevenção de mortes evitáveis. “Na minha pesquisa, um dos achados é a relevância da comunicação para a não naturalização ou banalização, divulgação dos dados e prevenção dessas mortes. E o livro de Midiã Noelle vem esmiuçar como fazer, apontando caminhos e estratégias eficazes para evitar o apagamento dessas informações”, avalia. Para Ilka, trata-se de uma leitura obrigatória. “Uma alegria poder acompanhar o lançamento dessa ‘obra-ferramenta’ antirracista”,
Sankofa: Reparação e Bem Viver
Rebeca Oliveira Duarte Educadora e ativista antirracista. É professora de Educação das Relações Étnico-Raciais da UFRPE e integrante do NEAB/UFRPE. Foi advogada do SOS Racismo/PE e do Observatório Negro. Falar sobre mudanças sociais, em um contexto de longa transição de sistemas políticos e econômicos, precisa começar pela lembrança de que o mundo nunca foi fácil. Sempre foi, globalmente, disputa; nossa história é manifesta em tensões territoriais, confrontos de grupos, em busca incessante de adaptação ao meio, elaboração e construção de conhecimentos próprios para essa adaptação e para a produção de elementos essenciais à vida. Mas é fato que, com o colapso global provocado pelo capitalismo, e com o movimento de re-hegemonização do nazifascismo, põem-se em ameaça contínua e crescente as pouquíssimas conquistas dos movimentos de resistência dos grupos sociais subalternizados. Isso nos dá a percepção vívida de que pouco avançamos nos derradeiros anos em direção a um mundo de justiça social. O apelo midiático é de “fim dos tempos”. Mesmo que tenhamos o registro histórico de vários “finais de mundo”, a sensação geral parece apontar a uma desmobilização em torno de projetos concretos de um mundo novo e da esperança de que este seja possível. Apesar de que o colapso global seja uma “realidade” apresentada como um cenário distópico de sociedades controladas por inteligência artificial, o tecnocapitalismo genocida não é o fim da história, nem de nossas esperanças. Um lembrete óbvio, mas necessário. Vivemos História, que é processo, ação e transformação. Mas não uma História linear e determinista; seguindo Sankofa, a circularidade do Tempo permite que o percurso passado / futuro nos ensine, nos eduque e nos oriente no caminho que seguimos. Sankofa, como parte de uma cosmopercepção afrodiaspórica, dialoga com o Sumak Kawsay (Bien Vivir) andino, em que a integralidade das nossas relações interseres e intertempos nos retira do especismo, do antropocentrismo, do racismo, do imediatismo e do individualismo que estão na base do atual colapso da humanidade. Percebam que se trata de projetos não apenas espirituais, mas também socioeconômicos, de mundo. Essa integralidade nos reorganiza em um mundo diverso. É através de o que é esse mundo diverso que proponho pensarmos no projeto de Reparação. Ou, em outras palavras: imperioso compreender que tratar de Reparação em mundos forjados pelo racismo, como elemento estrutural e estruturante, é tratar da preparação para um outro mundo possível, esse mundo diverso, que não pode ser lido de forma reta, linear e desenvolvimentista por ser fruto da circularidade da Vida. Vejam bem: o sentido de “reparar”, no modo linear, é buscar corrigir algo feito no passado que causou um dano. No campo do conceito cunhado pelo Movimento Negro, estamos falando de danos reais no contexto do racismo, que são muitos, imensos e complexos, incrustrados na formação mesma dos estados ficcionalmente “nacionais”. As perguntas que acompanham esse tema são: é possível reparar a escravização e todas as torturas vividas pelos povos negros e indígenas a partir dela? É possível reparar, ainda nesse sentido, as políticas eugenistas de limpeza racial que resultaram na violência policial sistêmica, no encarceramento massivo da população negra e nas profundas assimetrias socioeconômicas? Ou, em outras palavras, de que forma políticas públicas em um Estado racista vão de fato reparar os danos de algo que a sua própria estrutura fundamental fomenta? Corremos o risco, nesse debate, de confundirmos a Reparação com a Mitigação se nos mantivermos discutindo políticas reparativas com os mesmos instrumentos institucionais causadores dos danos que queremos reparar. Aqui temos a distinção necessária entre reparar e mitigar. A Reparação, como conceito, precisa vir em torno de um projeto de mundo diverso na circularidade do Tempo de Sankofa e do Sumak Kawsay que ponha os povos subalternizados de hoje no lugar de decisão sobre o mundo que quer viver. É um movimento que “volta” ao passado para retomar um novo ponto de partida desde lá. Quando se diz que Exu mata ontem um pássaro com uma pedra que ele só atirou hoje, temos a lição necessária para saber quais passos precisamos dar para resolver um problema: voltar ao exato ponto em que esse problema foi projetado. Essa cosmopercepção circular aqui proposta, para tratar de Reparação, é algo que será mais simples compreender quando não pensamos em reparar olhando a vida no contexto da linearidade. Voltar ao ponto do passado em que os danos futuros foram projetados é voltar à encruzilhada do Tempo e retomar as outras possibilidades de mundo, que ali não foram seguidas, e adotar nossas escolhas que àquele ponto não fora possível fazer. Enfim, é negar veementemente o fim da História e não compactuar com a visão linear que nega Sankofa e que joga o Bien Vivir em uma condição de utopia. É negar a ideologia que nos impõe como fato natural e imutável o Estado Nacional e sua estrutura racista, o capitalismo e sua exploração de nossas forças vitais, e que nos retira da realidade ancestral de que, sim, temos outras formas organizativas, outros projetos e outras práticas de mundo possível em que somos de fato participantes. Para lutarmos por Reparação, precisamos primeiramente reconhecer que o pensamento afrodiaspórico e dos povos de Abya Yala têm outros projetos de mundo e de sociedades, e assim como determinados segmentos sociais se organizam em defesa de projetos eurocentrados de capitalismo e socialismo, por exemplo, podemos nos organizar politicamente em defesa desses outros projetos. O Bem Viver enquanto projeto de mundo, com a percepção do Sankofa, pode retirar-nos dessa ideia linear e determinista da História e nos fazer acessar a circularidade do Tempo, retomando-nos como o sujeito da encruzilhada, capaz de seguir o outro caminho não seguido, mas em potência. É sobre retomar o papel de sujeitos integrados e coletivos, desde sempre. Óbvio que “quem tem fome, tem pressa”. Precisamos hoje enfrentar o mundo posto, no termo que ele se nos apresenta. Daí que as políticas públicas, vindas de um Estado estruturalmente racista, são o reconhecimento necessário das profundas injustiças praticadas por esse mesmo Estado. Tais políticas e ações, embora não sejam uma real Reparação, são a Mitigação das sequelas
Livro de Sílvio Humberto traça um retrato fiel da Bahia em nova obra
A Biblioteca Central do Estado da Bahia será palco, no dia 8 de maio de 2025, às 17h30, do lançamento do livro “Um Retrato Fiel da Bahia: Sociedade, Racismo e Economia”, de Sílvio Humberto. O evento acontece no quadrilátero da Biblioteca e é aberto ao público.
Intelectual e ativista do feminismo negro Lélia Gonzalez é a homenageada do Projeto Memória da Fundação Banco do Brasil
1ª Edição – 2011 – 2015 Lélia Gonzalez: O feminismo negro no palco da história Realizado pela Fundação Banco do Brasil desde 1997, o Projeto Memória é uma tecnologia social de educação que visa difundir a obra de personalidades que contribuíram significativamente para a transformação social, a formação da identidade cultural brasileira e o desenvolvimento do país. O objetivo é resgatar, difundir e preservar a memória cultural brasileira por meio de homenagens a personalidades que contribuíram para a transformação social e para a construção da cultura nacional. Na edição de 2011 do Projeto Memória, a Fundação Banco do Brasil, escolheu homenagear Lélia Gonzalez, em parceria com a Redeh – Rede de Desenvolvimento Humano. Para essa edição foi elaborado 20 réplicas da exposição Lélia Gonzalez; 4 mil kits biblioteca (composto por livro Fotobiográfico, DVD do documentário e caixa para acondicionar o material); 4 mil kits pedagógicos (composto por dois almanaques históricos e caixa para acondicionar o material); e o website da homenageada. As réplicas da exposição foram distribuídas para organizações do movimento negro, comprometidas com a superação do racismo e das desigualdades sociais e que tinham endereço fixo. Os kits biblioteca foram, prioritariamente, encaminhados para organizações do movimento negro, núcleos de pesquisas sobre relações raciais das universidades, redes e organizações não governamentais voltadas para a superação do racismo, associações de comunidades quilombolas, comunidades de terreiro e entidades afins. Já os kits pedagógicos foram distribuídos em eventos locais para movimentos sociais, comunidade escolar e entidades afins e contou com debates sobre a temática das desigualdades de gênero e raça. 2ª Edição – 2024 – 2025 Lélia Gonzalez: Caminhos e Reflexões Antirracistas e Antissexistas. Em homenagem aos 90 anos do nascimento de Lélia Gonzalez, o Projeto Memória volta a homenageá-la revitalizando a proposta anterior de resgate da trajetória e obra da escritora e ativista em uma série de atividades itinerantes por 7 capitais brasileiras até junho de 2025. A iniciativa já passou por Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), São Luís (MA), Brasília (DF), fica até 7 de abril no CCBB Rio de Janeiro, e terá sua próxima parada em Porto Alegre (RS) finalizando em maio em Belém (PA). A iniciativa da Fundação Banco do Brasil, será, nesta 2ª edição, produzida pela Associação Amigos do Cinema e da Cultura (AACIC), e consiste na apresentação do seminário e da exposição Lélia Gonzalez: Caminhos e Reflexões Antirracistas e Antissexistas, produção de um documentário sobre a homenageada, com acessibilidade de Libras, audiodescrição e legendas, para garantir o acesso a todos os públicos. O filme, de 32 minutos, será exibido nas grades de programação de TVs públicas, comunitárias, universitárias e legislativas. Completam o Projeto Memória 2024 a edição de um livro fotobiográfico em formato de e-book, audiobook e em formato pdf gratuito e online. Na ocasião, também será apresentado o Almanaque Pedagógico sobre Lélia Gonzalez, uma ferramenta educacional abrangente e inovadora, sugerindo recursos educacionais acessíveis para professores, educadores e alunos de todos os níveis de ensino. Na abertura do evento, em maio de 2024, na cidade de Salvador (BA) foi inaugurada a Mostra Educativa com 18 painéis representando os caminhos percorridos por Lélia, bem como o Seminário sobre seu legado, que contou com a participação de pensadoras/es e ativistas negros, entre eles Edson Cardoso, do IROHIN que destacou momentos importantes da trajetória de Lélia e sua contribuição pioneira para o debate sobre o racismo e sexismo na sociedade brasileira. Ao longo da realização do projeto, serão alcançadas mais de 24 mil pessoas, em atividades presenciais, com um público de mais de 14 mil estudantes das redes públicas de ensino. Por Schuma Schumaher Coordenadora Geral do Projeto na primeira Edição e responsável pela organização dos Seminários na segunda Edição.
Espetáculo “Traga-me a Cabeça de Lima Barreto” chega a Rio Branco para apresentações únicas
O aclamado monólogo “Traga-me a Cabeça de Lima Barreto”, estrelado por Hilton Cobra, será apresentado em Rio Branco (AC) no dia 11 de abril de 2025, na Usina de Arte João Donato. A obra, com texto de Luiz Marfuz e direção de Onisajé (Fernanda Julia), traz à cena a trajetória intensa e crítica do escritor Lima Barreto, refletindo sobre racismo, marginalização e genialidade. Serão duas apresentações únicas: uma sessão especial para estudantes às 14h e a sessão principal às 19h30. Os ingressos variam entre R$ 10,00 (promocional) e R$ 30,00 (inteira). O espetáculo faz parte do Circuito Funarte de Teatro Myriam Muniz 2023 e é uma realização da Cia dos Comuns, com apoio da Fundação de Cultura Elias Mansour e diversas instituições culturais. 📍 Endereço: Rua das Acácias, 1155 – Distrito Industrial, Rio Branco – AC📞 Informações: (68) 3229-6892
Do “pão do espírito” ao “pão que o diabo amassou”
Lunde Braghini Junior É interessante ler com “óculos de Walter Benjamin” uma crônica escrita por Machado de Assis aos vinte anos de idade, em 1859. Trata-se de “A Reforma pelo Jornal”, publicada numa revista chamada “O Espelho”, bancada e dirigida por um amigo, Francisco Eleutério de Sousa, e editada na tipografia de Francisco de Paula Brito, o célebre editor negro brasileiro. “O Espelho – Revista semanal de literatura, modas, indústria e artes” mereceu uma edição fac-similar da Biblioteca Nacional, em 2008. Artigo primeiro do número 8, de 23 de outubro de 1859, “A Reforma pelo Jornal” pode ser acessado facilmente nos sites de busca. Não é um momento qualquer na vida de Machado de Assis. No ano anterior, o “escritor em construção” já havia publicado um vigoroso ensaio que, já no título, mostrava a amplitude de sua visão e perspectiva: “O passado, o presente e o futuro da literatura” – no qual a nossa literatura aparecia como um lugar essencial para a realização de um “7 de Setembro” cultural. A ideia de Machado era de quem 1822 se fizera um 7 de Setembro apenas político. A independência política, por isso, precisava ser complementada também por uma independência cultural. Quinze anos mais tarde, em 1873, no contexto do cinquentenário da independência, Machado aprofundaria a reflexão sobre o tema no marcante ensaio “Instinto de Nacionalidade”. “O Espelho” foi um foguete – e um foguete negro – construído na medida para Machado de Assis. Ele assina a maioria dos “artigos de fundo” – nome que se dava à matéria principal – nos 19 números que teve a revista, o que dá conta da aposta que se fazia sobre seu talento. Além disso, cabe a ele, em todos os números, com uma ou outra exceção, escrever quase tudo o que se refere a teatro, em exercício vívido de jornalismo cultural. Jean-Michel Massa, pesquisador que se dedicou a biografar a juventude de Machado e depois a estudar a literatura cabo-verdiana, atribui ao escritor a autoria de 33 textos na revista, ampliando uma conta de José Galante de Sousa. Destes só uns poucos foram incluídos, como “crônicas”, na primeira coleção de suas obras completas (Edições Jackson, 1938), um deles, “A Reforma pelo Jornal”. O texto mereceu republicação por volta de 1965, em livro de Luiz Amaral, jornalista natural de Ilhéus que se distinguiu na imprensa nacional e foi um pioneiro nos estudos sobre jornalismo. “Reprodução amiudada” “A Reforma pelo Jornal” esboça ideias ricas com as quais o leitor brasileiro se familiarizaria muito mais tarde, quando um autor alemão, Walter Benjamin, começou a ser traduzido entre nós. Contém uma espécie de teoria da comunicação, que ficou, inexplicavelmente, fora da coletânea “O Livro e o Jornal”, na qual a Penguin e a Companhia das Letras coligiram escritos de Machado, inclusive de “O Espelho”, em 2011. O poder criador da palavra, oral e escrita, é evocado por Machado antes de abordar a reprodução técnica da escrita – materializada primeiro na edição tipográfica de livros e a seguir de jornais –, mostrando as grandes implicações políticas da propaganda no jornal para a construção da opinião coletiva – com foco no operário explorado – e para a promoção da “reforma”. De que reforma e de que jornal fala Machado? A reforma é a social, a democrática, a proletária. Machado não usa, no momento, a palavra revolução, mas a aproveita em outros textos. O jornal – cuja distribuição a todos é facultada por sua “reprodução amiudada” – é caracterizado por metáforas como “pão do espírito” e “hóstia da comunhão social”. Machado concebe esse jornal como um espaço de conversa, de diálogo, no qual a pessoa que o ler, hoje, pode tomar a palavra amanhã para se posicionar acerca do que leu. Talvez com olhos postos nessa caracterização, um grupo de jovens cearenses criou, nos anos 1890, um jornal chamado “O Pão”, produzido pela “Padaria Espiritual”, e evocado nos versos de uma canção de sucesso do compositor cearense Ednardo (“Olha o padeiro entregando O Pão / de casa em casa, entregando o Pão”). O fato é que a transformação do jornal em mercadoria o fez ser comparado, desde há muito, a salsichas – a coisas que se a gente soubesse como são feitas jamais as consumiria. A reprodutibilidade técnica da escrita não é o foco, mas um pressuposto de Walter Benjamin quando analisa, no célebre ensaio sobre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, as implicações – tanto para a revolução quanto para a contrarrevolução – da reprodução técnica do som (no disco e no rádio) e da imagem (na fotografia e no cinema). De algum modo, o passo adiante de Walter Benjamin em relação a Machado é de mostrar a necessidade de uma reforma não “pelo” mas “para” o jornal. Isto é, seriam precisas transformações revolucionárias para que o jornal pudesse vir a servir como esse imaginado espaço de diálogo social, no qual pessoas que foram reduzidas a consumidoras de informação, interpretação e opinião também tomem da pena e se tornem produtoras de textos jornalísticos. Em “O autor como produtor”, Benjamin reporta a existência de um jornal desse tipo, em operação na União Soviética dos anos 1920. Um dos aspectos ideológicos de nosso tempo presente é de que a comunicação digital e a “revolução digital” dispensariam a revolução social e até a substituiriam. A internet e as redes sociais materializariam uma sociedade pós-comunicação de massa, na qual cada indivíduo tomaria a palavra, e as transformações se acelerariam num sentido participativo e democrático. Essa ilusão contemporânea diminuiu um pouco nos últimos 10 anos, à medida que a atuação política dos algoritmos de inteligência artificial das chamadas Big Techs começou a ser exposta como fator de “seleção reversa” (de “promoção do pior”) e de criação de novos fascismos e nazismos, distribuindo, sem novidade, o pão que o diabo amassou em nome do pão do espírito. Brasil Walter Benjamin morreu em 1940, fugindo do nazismo e do fascismo. Vinte anos depois, três volumes de suas obras escolhidas foram publicados, em 1965,
A permanência de Jônatas Conceição (1952 – 2009)
Fotografia proveniente do acervo da Plataforma Jônatas Conceição. Disponível em: https://plataformajonatas.wixsite.com/jonatasconceicao Por América Lúcia Silva Cesar Jônatas Conceição da Silva, escritor, poeta e liderança pioneira do Movimento Negro Unificado, foi “um dos mais sérios militantes do movimento negro do país”, segundo Oliveira Silveira (Silva, 1989:11). Foi também educador popular, professor universitário, pesquisador, jornalista e diretor cultural do Bloco Afro Ylê Ayiê. Tal diversidade de papéis que desempenhou nos seus breves 56 anos de vida, no entanto, tinha um denominador comum: a militância visceral na luta contra o racismo, nas suas mais diversas implicações. Nascido no dia 8 de dezembro de 1952, em Salvador, Bahia, filho de Tertulino Sales da Silva e de Maria Isabel da Silva, caçula numa família de muitos irmãos e irmãs, Jônatas Conceição da Silva foi criado e viveu toda a sua vida no Engenho Velho de Brotas; com exceção do curto período que passou na Universidade de Campinas e das suas intensas idas e vindas a Saubara, terra do seu pai, onde também fez sua morada. O Engenho Velho de Brotas, hoje um bairro da região central de Salvador, está nos títulos dos seus dois primeiros livros publicados, Miragem de Engenho (1984) e Outras Miragens (1989), e em muito da sua poesia. O lugar, remanescente de parte da antiga Freguesia de Brotas, datada do início do século XVIII, abrigava várias fazendas e engenhos de cana de açúcar. Com o passar dos séculos, não existem mais engenhos, mas o lugar continua a abrigar população majoritariamente negra, patrimônio da memória cultural e histórica da diáspora africana na Bahia, ainda invisibilizada nas narrativas oficiais. No último conto que escreveu, Nossas Mães, publicado postumamente no volume 32 dos Cadernos Negros (2009), Jônatas Conceição volta mais uma vez seu olhar para a memória do Engenho Velho da sua infância, um berço de muitas mães negras. “Nossas mães começaram a aninhar suas crias ali por volta de 1930. Um Verger apressado chamaria de presépio o lugar. Ele estava encravado sobre um grande barranco, fazendo fronteira com as margens do Dique do Tororó e a parte mais alta do bairro, um engenho antigo. E ali onde nossas mães vieram morar era mesmo bonito de se ver: a grande lagoa com seus pequenos saveiros, suas lavadeiras e suas margens com belas plantações de hortaliças” (Silva, 2009:73) Ana Célia, sua irmã mais velha, nos conta que, desde criança, Natinho, como era chamado pela família, foi um menino estudioso e implicado com os problemas sociais da sua comunidade. Ainda na adolescência, como membro de grupo de jovens da Igreja do Alto da Capelinha, começou a realizar ações de educação entre os moradores e vizinhos, inclusive a edição de um jornalzinho de bairro, onde já colocava seus versos. Em 1972, fez vestibular e ingressou no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, no Curso de Licenciatura em Letras Vernáculas com Francês. Seu ingresso na universidade lhe proporcionou a organização de diversas ações culturais e políticas juntamente com outros escritores e escritoras promissores, e também a convivência com professoras e professores que marcam a sua trajetória como escritor no período mais cruel da ditadura implantada pelo golpe civil-militar de 1964. Nas Oficinas de Criação Literária conduzidas pela Profa. Judith Grossmann, por exemplo, escreveu o seu primeiro conto, “Campo Fechado”, distribuído em cópias mimeografadas a álcool para colegas. Em 1976, publicou o conto intitulado Minha missão, aprovado em terceiro lugar em concurso literário em Fortaleza. Concluído o curso de Letras, vai para São Paulo e se encontra com lideranças negras que organizam as primeiras manifestações que refundam o Movimento Negro no Brasil. Em setembro de 1985 participa do I Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros Brasileiros juntamente com Cuti, Êle Semog, Esmeralda Ribeiro, Oliveira Silveira, dentre outros intelectuais negros. Desse encontro resulta a publicação Criação crioula, nu elefante branco (1987), onde publica um artigo intitulado “A traição da tradição oral’. De volta a Salvador, dedica-se à organização do Movimento Negro Unificado (MNU) na Bahia, com destaque para a produção e edição do jornal Nêgo, com várias edições na década de 80, e passa a integrar a equipe do Instituto de Radiodifusão do Estado da Bahia (Irdeb). Na Rádio Educadora da Bahia foi responsável pela produção de programas de educação popular. É também na Rádio que produz a série de programas intitulada Afro Bahia, sob a sua coordenação e apresentação, cujo primeiro programa foi ao ar no dia 20 de junho de 1987. Durante sua atividade como radialista, concilia a militância no MNU, a produção de material didático para escolas comunitárias (Reflexões sobre o ensino de português para a escola comunitária), e uma ativa produção intelectual e literária. Publicou vários contos e poesias nos Cadernos Negros, iniciativa que ajudou a organizar, juntamente com Carlos Limeira, Lourdes Teodoro, Miriam Alves. Oliveira Silveira, Ainda nesta década, publicou algumas poesias na coletânea internacional Schwarze Poesie/Poesia Negra (1988) em edição bilingue. Em 1989, lança o seu segundo livro, Outras Miragens. No início da década de 90, integrou como diretor cultural a Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ylê Aiyê e idealizou e executou, com grupo de educadores ligados ao Ylê, um projeto de formação de professores na perspectiva da educação etnicorracial. Essa experiência no Ylê Aiyê resulta nos Cadernos de Educação do Ylê Aiyê, que também idealizou e coordenou, cujo primeiro volume, intitulado Organizações de Resistência Negra, é lançado em 1995. Já no início do século XXI, retorna para o curso de mestrado no Instituto de Letras da UFBa, sob a orientação da Profa. Dra. Florentina Souza, já que a sua dissertação “A crase não foi feita para humilhar ninguém”, resultado do curso de Mestrado realizado na Unicamp no início de 80, não pode ser defendida em tempo hábil. A sua nova dissertação de mestrado embasa a publicação pela Edufba do livro Vozes Quilombolas: uma poética brasileira (2004), cuja discussão aborda as composições de poetas e músicos negros, muitos dos quais foram inspirados pela sua própria produção literária e militância política. Ainda nessa primeira década faz concurso para professor de Literatura na Universidade Estadual
A ADPF 635 e a segurança pública do Rio de Janeiro: medidas, resultados e o que está por vir
Por Eduardo Adami Advogado, mestrando em Direito Público na UERJ, membro da Clínica de Direitos Fundamentais da UERJ. Fez sustentação oral na ADPF 635 pelo Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (IARA). No próximo dia 3 de abril, o Supremo Tribunal Federal retoma o julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 635, também conhecida como a “ADPF das Favelas”. A ação foi ajuizada em 2019 pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) para discutir o estado de coisas inconstitucional da letalidade policial no Rio de Janeiro. Naquele ano, policiais tentaram atirar contra uma moto, mas acertaram Ágatha Félix, de apenas 9 anos, que estava dentro de uma kombi com sua mãe. A menina morreu. Em 2020, durante a pandemia, a polícia matou João Pedro Mattos, de 14 anos. Sua casa foi atingida por mais de 70 disparos, e um deles atravessou sua barriga. Em 2021, agentes de segurança tiraram a vida de Kathlen Romeu, de 24 anos, com um tiro no peito. Mataram não só Kathlen, mas também seu bebê, do qual estava grávida de três meses. Histórias como essas se repetem dia após dia no Rio de Janeiro. Para a maior parte dos cidadãos, a revolta, a tristeza e a indignação perdem espaço para a rotina. A brutalidade se torna normal. Por isso, dar nome e rosto a essas pessoas é essencial para não transformar a violência de suas mortes em meros números e estatísticas frias. Esses casos não são isolados. Quando a ADPF foi ajuizada, o Estado do Rio de Janeiro chegava ao ápice do processo de aumento de sua letalidade policial. Naquele ano, foram 1.814 mortes causadas por policiais fluminenses. Para se ter dimensão, isso é quase 70% a mais do que a letalidade de toda a polícia dos Estados Unidos no mesmo ano. Diante desse quadro, o Supremo Tribunal Federal foi acionado para fazer valer o direito à vida, à segurança e à dignidade da população fluminense, principalmente dos moradores de favelas – em sua maioria, negros. Afinal, as forças de segurança têm seu alvo preferencial. Como disse Emicida, há pele alva e pele alvo: mais da metade dos mortos pela polícia tem entre 12 e 24 anos; são negros em 87% das vezes. Desde 2019, as polícias mataram pessoas negras quase sete vezes mais do que pessoas brancas. Esses problemas têm raízes históricas. De fato, a ADPF das Favelas enfrenta dois passados que ainda não passaram. De um lado, o passado da escravidão negra, que torna corpos negros descartáveis, meros danos colaterais da violência estatal. O desrespeito aos seus direitos não produz a mesma resposta institucional e comoção – são invisíveis. De outro lado, o passado da ditadura militar, que permite às forças de segurança atuarem sem qualquer mecanismo de responsabilização, fazendo uso arbitrário e ilegal da força. Quanto a isso, o Ministério Público e o Poder Judiciário concorrem para a legitimação jurídica dessas mortes, ao validar essa lógica de guerra. No entanto, muito tem sido feito para mudar esse estado de coisas. Desde que o processo teve início, o Supremo Tribunal Federal já proferiu três decisões colegiadas que impuseram uma séria de obrigações ao Estado do Rio de Janeiro. Em 2020, em meio à pandemia do COVID-19 e às constantes operações policiais em favelas do Rio, o STF determinou que tais incursões só deveriam ocorrer em casos “absolutamente excepcionais”, que precisavam ser justificados por escrito e comunicados imediatamente ao Ministério Público, órgão competente pela fiscalização da atividade policial. A avaliação sobre a excepcionalidade das operações, porém, sempre foi competência da própria polícia, com supervisão do MPRJ. Os dados demonstram que a decisão só foi capaz de reduzir o volume de operações nos seus quatro primeiros meses de vigência; depois disso, passou a ser descumprida. No mesmo mês, o tribunal proferiu decisão sobre a medida cautelar postulada pelo autor da ação. Com isso, fixou algumas regras para operações policiais. O uso de helicópteros passou a ser permitido apenas em casos de “estrita necessidade”, com a necessária produção de um relatório detalhado após a operação. As operações próximas a escolas e hospitais deveriam ser excepcionais, e justificadas em até 24 horas. O Supremo também proibiu a remoção indevida de corpos e a destruição de vestígios em operações. Por fim, estabeleceu que os casos de mortes ou violações envolvendo policiais deveriam ser investigados pelo Ministério Público, e não pela própria polícia. Dois anos depois, em fevereiro de 2022, o STF ampliou as medidas concedidas. Assim, determinou que o Estado do Rio de Janeiro elaborasse um “Plano de Redução de Letalidade”, como já determinado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Favela Nova Brasília. O Supremo também fixou prazo para que o Estado implementasse o uso obrigatório de câmeras nos uniformes e viaturas policiais. Quanto às buscas em domicílios, além de proibir invasões noturnas sem mandado – salvo em caso de flagrante delito –, reconheceu que denúncias anônimas não podem ser a única justificativa, devendo ser corroboradas por outros elementos de investigação. E ainda obrigou que o Estado oferecesse ambulâncias nas ações planejadas que apresentassem risco de confronto armado. Portanto, além de estabelecer regras mínimas para a realização de operações policiais, o STF também atuou sobre a fiscalização realizada pelo Ministério Público. Tais providências tiveram como objetivo garantir a proteção de civis, a transparência e a accountability por parte do Estado do Rio de Janeiro, especialmente por suas forças de segurança. Ademais, em que pese o recorte local da ação, o debate da constitucionalização da segurança pública tem servido ao país inteiro, como bem demonstra o avanço das discussões no Ministério da Justiça sobre o uso de câmeras corporais pelas instituições policiais. Essas medidas serviram ao seu propósito. Até aqui, a ADPF 635 tem produzido resultados significativos. A letalidade policial caiu de 1.814, em 2019, para 699 mortes em 2024 – uma redução de mais de 60%. E isso ocorreu sem que houvesse piora nos principais indicadores estratégicos de criminalidade. Na verdade, nesse período, todos eles apresentaram melhoras. Segundo dados oficiais do Instituto de Segurança Pública
Correios homenageiam luta contra o racismo
Precisamos registrar que os Correios lançaram três selos no ano passado (2024) de grande significado para aqueles que valorizam a afirmação da identidade negra, a história de lutas e o protagonismo do Movimento Negro Com esses três selos (Luíza Bairros, Oliveira Silveira e o Feriado Nacional da Consciência Negra) queremos inaugurar nossa seção de filatelia, que terá exemplares da coleção do Ìrohìn e outros.
Revista NÓS, We Around the World: o breve legado de uma publicação dedicada às vozes negras
O primeiro número da revista NÓS (WE, AROUND THE WORLD) foi lançado em fevereiro de 1991, no Rio de Janeiro, e, em sua curta existência, teve apenas mais uma edição. A matéria de capa, “Sebastião de Oliveira – um renomado cientista brasileiro” é de Carlos Nobre e as fotos são de Vantoen Pereira Jr., também dois profissionais experientes e reconhecidos, fotógrafo e jornalista. Carlos Nobre, falecido em 2019, entre outros trabalhos, é autor de “Mães de Acari – uma história de protagonismo social”. Rio de janeiro, PUC-Pallas, 2005, 217p. Confira a seguir: