Por Augusto de Sousa para o O Diário do Centro do Mundo Uma semana após a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) aprovar o fim das cotas em universidades estaduais, uma mulher negra foi presa, nesta quinta-feira (18), enquanto se manifestava contra as medidas. Segundo o vereador Leonel Camasão (PSOL), de Florianópolis, a vítima da arbitrariedade estava entregando panfletos que apresentava argumentos denunciando a situação, quando foi denunciada pela bolsonarista Ana Campagnolo (PL), deputada estadual. “A PM prendeu uma mulher negra que estava distribuindo panfletos com o nome dos deputados que votaram pelo fim das cotas raciais em SC. A prisão ocorreu após a ativista encontrar a deputada extremista Ana Campagnolo (PL)”, escreveu Camasão, que prometeu apoio jurídico à manifestante. Veja a matéria completa aqui.
Em decisão unânime, STF reconhece racismo e determina plano nacional de políticas públicas
O Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu, na noite de quinta-feira, 18, a análise da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 973) e estabeleceu que o Estado brasileiro enfrenta violações sistemáticas de direitos que afetam consistentemente a população negra. A decisão, unânime, impõe ao poder público obrigações para corrigir essas desigualdades por meio de um plano nacional de políticas públicas. A ação foi proposta em maio de 2022 pela Coalizão Negra por Direitos, apoiada por sete partidos políticos, e questionava omissões do Estado na efetivação de direitos fundamentais como vida, saúde, alimentação digna e segurança. O julgamento começou no final de novembro, com o voto do relator, ministro Luiz Fux, e se estendeu por várias sessões até a definição das obrigações impostas ao Executivo. Plano nacional com prazos e metas O STF determinou a criação, pelo governo federal, de um Plano Nacional de Enfrentamento às Desigualdades a ser concluído no prazo de 12 meses, prevendo metas, etapas de implantação e mecanismos de monitoramento de resultados. O documento deverá conter medidas concretas nas áreas de saúde, segurança pública, segurança alimentar e proteção à vida, além de ações de reparação pelas violações identificadas. Entre as diretrizes definidas pela Corte estão: O plano poderá ser integrado ao atual Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Planapir) ou estruturado como um instrumento novo, desde que siga as diretrizes estabelecidas pela Corte. Debate e votos no plenário No julgamento, os ministros analisaram se a situação configurava um “estado de coisas inconstitucional”, termo jurídico que caracteriza omissão do Estado na proteção de direitos fundamentais em larga escala. Uma parte dos magistrados entendeu que as violações persistentes justificam tratamentos excepcionais do ponto de vista constitucional, enquanto outros juízes reconheceram a existência de políticas em curso que atenuam, ainda que de forma insuficiente, essas lacunas. O Supremo, ao final, afastou a declaração formal de estado de coisas inconstitucional, mas manteve a necessidade de diretrizes estruturadas por meio de um plano com metas, prazos e mecanismos de avaliação. Próximos passos O governo federal tem um ano para apresentar o plano com metas definidas e mecanismos de acompanhamento. A expectativa no meio jurídico e na administração pública é que o cronograma inclua consultas e participação de organizações da sociedade civil, em especial aquelas que representam comunidades historicamente afetadas pelas violações apontadas no julgamento. O STF sinaliza que o cumprimento do plano será objeto de acompanhamento pelas instâncias judiciais competentes, o que pode envolver a apresentação periódica de relatórios ao Judiciário.
Mapa indica locais dos primeiros quilombos nos Palmares
Por Alice de Souza para a DW Brasil Documento inédito que aponta localização de três quilombos foi descoberto numa biblioteca de Harvard. Com base nele, pesquisadores farão escavações que podem revelar detalhes da vida de negros livres no período colonial. Um mapa guardado bem longe do Brasil, mais precisamente no acervo de uma biblioteca da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos , pode ser a peça fundamental para revelar aos brasileiros detalhes de uma história negada ao próprio país: a da vida em liberdade de negros durante o período colonial . O documento em questão é a versão original manuscrita do Brasilia Qua Parte Paret Belgis (A parte do Brasil que pertence aos Neerlandeses), do matemático e naturalista George Marggraf. Composto de nove mapas das Capitanias e Câmaras do Brasil Neerlandês, o período histórico da invasão e ocupação holandesa no Nordeste brasileiro , de 1630 a 1654, o mapa foi localizado pelo cartógrafo histórico Levy Pereira. Agora, esse documento serve de base para um grupo de pesquisadores, que inclui arqueólogos, geógrafos, historiadores e antropólogos da Universidade Federal de Alagoas (UFAL- Campus Sertão) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que tenta encontrar vestígios do que seriam os quilombos mais antigos fundados na região do Quilombo dos Palmares, entre os estados de Pernambuco e Alagoas. Financiados pela Fundação Cultural Palmares (FCP), responsável pelo Parque Memorial Quilombo dos Palmares , e com autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o grupo realizará escavações arqueológicas em Pernambuco e Alagoas em janeiro de 2026. Essa pesquisa pode revelar detalhes inéditos e materiais históricos de como era a vida em liberdade dentro da mais famosa, duradoura e organizada comunidade quilombola que existiu no Brasil colonial. O que o mapa permitiu acharFundado no final de 1590 pela princesa congolesa Aqualtune e instalado na Serra da Barriga, no município de União dos Palmares, em Alagoas, o Quilombo dos Palmares foi um Estado autônomo que resistiu por quase cem anos aos ataques holandeses, luso-brasileiros e de bandeirantes paulistas. É um símbolo de resistência à escravidão dos negros que se recusavam à submissão imposta pelo sistema colonial. Documentos históricos já mostravam, entretanto, que o local descrito na Serra da Barriga seria apenas o último dos quilombos da região, conhecida pela fertilidade e boas condições para caça de animais e coleta de vegetais. Dentre esses materiais já conhecidos, estavam os relatos do comandante Johan Blaer, líder de uma expedição contra quilombos em 1645, que descrevia pelo menos outros três quilombos em áreas próximas. Mas arqueólogos enfrentavam duas dificuldades ao analisar esses relatos e tentar chegar a essas localidades. Os relatos da época descrevem rios e montanhas com nomes em desuso, e distâncias em milhas aproximadas, o que impedia precisar a identificação das áreas. “Aí entra a importância desse mapa descoberto. Os rios e algumas montanhas [que aparecem nele] também são citados no relato desse holandês”, explica o arqueólogo Onésimo Santos, um dos coordenadores da pesquisa. O mapa achado em Harvard foi transposto sobre uma base cartográfica atual, o que permitiu cruzar informações com imagens de satélite de alta resolução e identificar elementos compatíveis com os três quilombos mencionados nos relatos de Blaer. Os dois primeiros estariam situados nos atuais municípios de Correntes e Lagoa do Ouro, no Agreste de Pernambuco, e o terceiro seria na região de Chã Preta e União dos Palmares, em Alagoas. Segundo o documento do oficial holandês, o primeiro estaria abandonado; o segundo, parcialmente destruído e também abandonado; já o terceiro, ativo. “A partir dessas informações cartográficas que nós obtivemos e com essas imagens de satélite atualizadas e precisas, nós visualizamos algumas geometrias do terreno, como retângulos que pareciam ser escavados e assinalamos nos mapas como áreas sensíveis”, conta Santos. Por que o mapa é inédito A cartografia do matemático e naturalista George Marggraf já era conhecida, mas os mapas publicados e distribuídos ao longo dos séculos eram reproduções do original, o que, segundo Santos, permitiu o acúmulo de erros de impressão. “À medida que a chapa de cobre [usada para reproduzi-lo] ia se apagando, alguém ia retocando e refazendo. Então, assim surgiram erros”, diz o pesquisador. Segundo ele, o material que está em Harvard é o original, feito à mão, pelo próprio Marggraf. Apesar de ele estar catalogado na biblioteca, ninguém nunca tinha tido acesso, nem o próprio Levy Pereira, o maior pesquisador da área no Brasil. O mapa foi achado em 2021, mas só neste ano foi possível obter o financiamento para as escavações. Nesse intervalo de tempo, foi feito o trabalho de transposição para a cartografia atual. E como o material foi parar em Harvard? Segundo Santos, durante o século 19, vários documentos do período holandês no Brasil foram vendidos e muitos foram parar em bibliotecas e arquivos no exterior. “A nossa história foi fincada sempre nas bases do colonizador. Os povos afro-indígenas, intencionalmente, foram apagados ou foram retirados, ou foi minimizada a sua participação na nossa história”, lembra o arqueólogo do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas, o Neabi da UFAL, Flávio Moraes. Leia a matéria completa aqui
Morre Joyce Prado, diretora de Chico Rei Entre Nós e referência do audiovisual negro brasileiro
A cineasta Joyce Prado, diretora, roteirista e produtora reconhecida por sua contribuição ao audiovisual negro no Brasil, morreu aos 38 anos. Sua trajetória, embora interrompida precocemente, consolidou uma das vozes mais relevantes de sua geração. Joyce Prado iniciou sua formação em Rádio e TV na Universidade Belas Artes e desenvolveu uma carreira dedicada à produção e afirmação de narrativas negras. Chico Rei Entre Nós O documentário Chico Rei Entre Nós, lançado em 2020, permanece como marco central de sua carreira. A partir da figura histórica de Chico Rei, líder congolês escravizado que conquistou sua liberdade em Minas Gerais, Joyce constrói uma reflexão sobre a permanência das estruturas coloniais e sobre as formas contemporâneas de organização comunitária, memória e resistência. O filme recebeu o prêmio de Melhor Documentário Brasileiro do público na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Oxalá Produções e atuação no audiovisual Além da atuação na produtora, Joyce teve participação ativa na APAN, Associação de Profissionais do Audiovisual Negro, entidade que se dedica à defesa da ampliação do acesso e ao fortalecimento de profissionais negros no setor e e fundou a Oxalá Produções, produtora comprometida com a circulação de narrativas negras. Sua atuação também se destacou na direção de videoclipes, campo no qual colaborou com artistas como Luedji Luna, Margareth Menezes e outros nomes da música brasileira. Uma perda para o cinema e para a memória A morte de Joyce Prado representa uma perda imensa para o cinema nacional. Sua obra contribuiu para ampliar as possibilidades de representação da memória da população negra. A diretora deixa uma trajetória que aliou criação e compromisso. O ÌROHÌN lamenta profundamente seu falecimento e expressa solidariedade à família, aos amigos e à comunidade artística. Confira o trailer oficial de Chico Rei entre Nós abaixo:
Movimento Negro ressignificou o conteúdo e a forma dos direitos humanos no Brasil
Fonte: ICL Notícias Essa pauta foi inscrita à duras penas na gramática dos direitos humanos graças à resiliência, desassombro e pertinácia da militância negra Por Hédio Silva Jr.* Lá se vão 13 anos desde que em abril de 2012, ao julgar a ADPF 186 reconhecendo a legitimidade e constitucionalidade das ações afirmativas (gênero do qual cotas raciais são espécie), o STF atestava a vitalidade e pujança da atuação do Movimento Negro na sociedade brasileira. Num dos julgamentos mais emblemáticos da história da Corte Suprema, deliberou-se que num país marcado por séculos de discriminação racial generalizada, é imprescindível uma ação proativa do Estado capaz de assegurar a igualdade material, substancial, igualdade de oportunidade e de tratamento. Disse o Supremo: “O modelo constitucional brasileiro incorporou diversos mecanismos institucionais para corrigir as distorções resultantes de uma aplicação puramente formal do princípio da igualdade. Esta Corte, em diversos precedentes, assentou a constitucionalidade das políticas de ação afirmativa.”. Referia-se a Corte a uma série de dispositivos consitucionais que textualmente preveem ações afirmativas tal qual a proteção específica do trabalho da mulher; a regra da capacidade contributiva segundo a qual paga mais quem ganha mais; a equidade no custeio da previdência; os benefícios assegurados às empresas de pequeno porte e às empresas de capital nacional, entre outros. Não se ouve falar que empresas de pequeno porte ou de capital nacional sobrevivem de “esmola” do governo ou que não têm a mesma capacidade das empresas de grande porte ou das estrangeiras. Nestas hipóteses, admite-se pacificamente que para assegurar igualdade material o Estado deve “tratar desigualmente os desiguais”. Foi precisamente esta demanda que o Movimento Negro brasileiro inseriu na agenda pública a partir da “Marcha Contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida” realizada em Brasília, em 1995 e que seis anos depois resultou nas duas primeiras experiências de ações afirmativas pro-negro no acesso à educação superior: a adoção de cotas raciais nos vestibulares da UNEB e da UERJ em 2003. Nos anos seguintes a experiência alastrou-se pelo país e terminou sendo questionada no STF justamente por meio aludida ADPF 186. Somente depois que o STF declarou a constitucionalidade das ações afirmativas pro-negro, portanto, é que o Legislativo decidiu aprovar a Lei 12.711/12 disciplinando cotas raciais no ensino superior, atualizada pela Lei 14.723/23. A agenda da igualdade racial, do empoderamento das mulheres negras, do enfrentamento ao racismo religioso e ao genocídio da juventude negra é uma pauta inscrita à duras penas na gramática dos direitos humanos graças à resiliência, desassombro e pertinácia da militância negra. O que não significa ignorar que indivíduos brancos, instituições e governos contribuíram vigorosamente, em maior ou menor grau, para o sucesso dessa empreitada. A celebração do Dia Internacional dos Direitos Humanos convida-nos a problematizar o deliberado e nefasto apagamento do protagonismo negro sem o qual direitos humanos permaneceriam sendo tratados como direitos de homens e mulheres brancas. *Advogado, Mestre e Doutor em Direito pela PUC-SP, fundador do Jusracial e do Idafro – @drhediosilva Fonte: https://iclnoticias.com.br/movimento-negro-ressignificou-o-conteudo-e-a-forma-dos-direitos-humanos-no-brasil/
SE VOCÊ JÁ LEU, RELEIA
Por Edson Lopes Cardoso Sugestão de leitura do Ìrohìn: nova edição de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, incluído na coleção “CLÁSSICOS” da editora ZAHAR, edição Bolso de Luxo, capa dura, que ressurge agora numa edição cuidadosa, com apresentação e posfácio imperdíveis. A apresentação de Felipe Botelho Corrêa e o posfácio de Jorge Augusto contribuem, com brilho, para orientar os leitores e situar bem a importância do romance de Lima Barreto, que é pioneiro não apenas para a literatura brasileira antirracista. Leitura obrigatória.
José Marmo: exemplo de Dedicação e Coerência
Por Lúcia Xavier Quando Criola nasceu José Marmo ouviu o choro e se encantou. Logo no primeiro ano de vida nos ajudou a enfrentar desafios complexos como o da Aids, enquanto ele mesmo atuava para que os terreiros de matriz africana conhecessem a epidemia que batia às suas portas, além da própria intolerância religiosa. De mãos dadas conosco desenvolveu diversas ações no campo do direito à saúde, formando ao longo dos anos 2000, mais de 300 ativistas, do Rio e de outras regiões do país, para consolidar a política de saúde da população negra, aperfeiçoar os processos de participação e educação; ampliando assim os nossos direitos. Marmo conduziu oficinas sobre mortalidade materna na região metropolitana do Rio de Janeiro; elaborou cartilha para a formação sobre quesito cor para funcionários do Sistema Único de Saúde/Rio; representou Criola no Conselho Estadual de Saúde e ainda organizou o Fórum Estadual de Saúde da População Negra. De 2010 a 2016, começou a coordenar o Projeto Ponto de Cultura Negras na História, desenvolvendo oficinas sobre presença e o pensamento das mulheres negras, trazendo o debate da representação social, da produção cultural e artística, religiosidade, produção científica e sobretudo, a memória de mulheres negras que foram fundamentais para o enfrentamento do racismo patriarcal. Promoveu o lançamento de livros e shows de música de mulheres negras. Elaborou a revista Negras na História e um livreto Negras Histórias: mulheres negras em luta pela arte e pela vida. Marmo também foi crucial para a organização e suporte do Curso de Atualização da Diáspora Africana (2012-2016), articulando também o intercâmbio entre alunos da Universidade do Texas e lideranças comunitárias, intelectuais, artistas, religiosas de matriz africana e quilombolas. Como blogueiro, criou e alimentou o blog de Criola: http://criolaong.blogspot.com. Marmo também colaborou como homem negro a manter Criola viva no seu período de crise, de mãos dadas para nos levantar e agir. Marmo foi e sempre será parte de nossa história.
Seminário marca os 30 anos da Marcha Zumbi dos Palmares e revisita legado histórico da mobilização negra
Três décadas após a Marcha Zumbi dos Palmares ocupar Brasília com mais de 30 mil pessoas, pesquisadores, ativistas e instituições se reúnem para debater os sentidos contemporâneos daquele acontecimento histórico. No dia 9 de dezembro, o Centro Maria Antonia, da USP recebe um seminário dedicado aos 30 anos da mobilização que redefiniu o lugar do combate ao racismo no debate público brasileiro. A atividade é uma iniciativa da Fundação Perseu Abramo, por meio do Centro Sérgio Buarque de Holanda e do Projeto Reconexão Periferias, em parceria com a ANPUH, o AfroCebrap, o Projeto Afro Memória e a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP. Entre os participantes estão o diretor do ÌROHÌN Edson Lopes Cardoso, Márcia Lima, Vicentinho, Simplicio Arcanjo, Paulo Ramos, Martvs Chagas, Marcos Cardoso, Thayara de Lima e Juliana Borges, com mediação de Elen Coutinho e Amílcar Pereira. O seminário será dividido em três mesas temáticas ao longo do dia, com entrada gratuita. Confira a programação:
Para enxergar e ouvir Luiza Bairros
Por Thomázia da Conceição A capital do país viveu, na semana posterior ao 20 de novembro, uma efervescência incomum. Não viria de órgãos públicos nem dos centros de decisões políticas, embora tivesse caráter decisório e político. Vinha das ruas. Vinha de 35 países e de todas as regiões do país. Atendia pelo nome de ‘mulher negra’ e mostraria sua força no dia 25 quando, após dez anos, a cidade recebeu a segunda edição de um evento histórico: a Marcha de Mulheres Negras 2025 – por reparação e bem-viver. Dados oficiais apontam que pisaram o chão da Esplanada dos Ministérios os pés de 300 mil delas, representando tantas outras. Tal diversidade de tons de pele, gênero, classe, comunidades, territórios e etnias esbarrou na estanque agenda perpetuada ao longo de décadas, apesar de conquistas e vitórias, muitas forjadas pelo próprio movimento negro. Tais demandas por reparação e bem-viver foram sintetizadas em um documento que pediu, gritou, escancarou, bradou as injustiças, iniquidades e desigualdades que se querem findas. Tal qual fizeram tantas das vozes presentes, em cima de trios elétricos, ao empunhar microfones ou em dezenas de atividades que ocorreram em todo o território nacional, correlacionadas ao momento histórico. Na Fundação Palmares, ainda no dia 24, no Espaço Cultural Mario Gusmão, ocorreu um desses eventos: a abertura da exposição ‘Luiza Bairros: Lentes e Voz’, realizada pelo Ministério da Igualdade Racial e pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, com curadoria de Martha Rosa F. Queiroz. Considerada uma das agendas mais concorridas da instituição, que luta ela mesma para se reconstruir após desmonte e esvaziamento contundentes, impostos por um governo de direita que fez sucumbir até mesmo o Ministério da Cultura, ao qual a autarquia está vinculada, a Palmares abriu suas portas para receber Luiza Bairros. A cerimônia contou com as participações das ministras Margareth Menezes (Cultura), Anielle Franco (Igualdade Racial), do presidente da casa anfitriã, João Jorge, entre tantas outras autoridades, lideranças e militantes de movimentos sociais e do movimento negro, como Sueli Carneiro. Também abrigou uma roda de conversa sobre Mulheres Negras na Cultura – Por reparação e Bem Viver, entre Margareth Menezes, a escritora Conceição Evaristo, a curadora Martha Rosa e a integrante do Comitê Nacional da Marcha, Érika Matheus Silva dos Santos, mediada pela secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura do MinC, Roberta Martins. ‘Lentes e Voz’ indica, por parte do Governo Federal, mais um movimento necessário para honrar a memória de uma das principais referências brasileiras na luta contra o racismo e pela equidade de gênero e raça do Brasil. A exposição, segundo material de apoio, está dividida entre fotografias e audiovisuais (registros de vida e atuação política); objetos de memória (artefatos pessoais, publicações e documentos históricos); legado político e social (contribuição para o movimento negro e políticas públicas) e instalações interativas (experiências). Começando por uma linha do tempo que pontua as vivências de maior destaque na vida pública de Luíza, passamos por fotografias, réplicas de artigos de sua lavra, cartazes de momentos ímpares de sua trajetória. Uma das imagens traz uma Luiza Bairros, também ela, empunhando um microfone e fazendo soar seus apelos em cima de um trio, na I Marcha das Mulheres Negras, em 2015, evento que ajudou a fazer. No ano seguinte, ela partiria, em 12 de julho, acometida por um câncer de pulmão. Luiza Bairros chegou e saiu do mundo físico em uma Porto Alegre conhecida por sua exclusão e preconceito à população negra – tão invisibilizada na capital gaúcha que muitos pensam nem existir. De acordo com a curadoria, sua ligação com o bairro Colônia Africana, território que abrigou ex-escravizados e onde teve origem sua família, fez com que Luiza soubesse, desde sempre, quem era, de onde vinha e reconhecesse a cor da sua pele como determinante social. O que, no entanto, ganhou novas dimensões quando foi morar, no final dos anos 70, em uma Salvador conhecida como Roma Negra, a cidade de maior população negra do Brasil. E lugar no qual, pode-se dizer, ela se encontrou, fincou raízes e de onde lançou brotos e galhos que alcançariam dimensões globais. Não apenas por ela, mas por toda a população negra brasileira, Luiza Bairros sabia que essa luta deveria acontecer a partir de diferentes ringues – e ela ocupou, com maestria, todos eles. Na academia, no movimento estudantil, ao submeter seu nome em eleição para cargo eletivo, na política partidária, em cargos de confiança em governos municipais e estaduais, em organismos internacionais, em solos estrangeiros, em discursos e posicionamentos históricos, em conferências promovidas pela Organização das Nações Unidas (ONU). Como titular da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), órgão-semente do atual MIR, sob sua liderança denúncias importantes e conquistas igualmente salutares para a sobrevivência do povo negro, em especial da juventude negra, foram implantadas. A exposição abre espaço para sublinhar algumas delas. Destacando a figura de Luiza Bairros como a “Memória viva da luta feminista e negra no Brasil”, a homenagem é um bom começo para que se conheça seu legado e sua história de vida. Mas é importante lembrar que há mais a ser catalogado, registrado, recuperado e, sempre, enriquecido e mostrado à população. A exposição se ateve, na maior parte de seu conteúdo, a mostrar aspectos da vida pública da administradora, com mestrado e doutorado em sociologia. Mas, talvez aí, tenha perdido a oportunidade de humanizá-la, cuidado que permeou sua militância junto ao povo negro. “Todos somos humanos, e a resistência aos processos desumanizadores do racismo é, de longe, a maior contribuição dos negros à cultura brasileira”. Aspectos biográficos que aprofundassem e instigassem a descoberta ou o (re)conhecimento sobre afetos, vida familiar, predileções, amizades, hobbies e traços de sua personalidade ajudariam na montagem de um mosaico que aproximasse Luiza dos ainda distantes e serviriam como uma ponte emocional ainda mais firme a ligá-la aos que compartilharam de sua existência. Algo que não está posto é que Luiza atuou no teatro – em cima dos palcos, como atriz, e nos bastidores, nas montagens, textos e contextos. A missão
Sueli Carneiro recebe honraria de intelectual do ano pelo Juca Pato de 2025
Por Jefferson Barbosa, para a Folha de S. Paulo. A filósofa e escritora Sueli Carneiro, de 75 anos, foi agraciada na noite de sexta-feira com o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano. O reconhecimento é concedido pela União Brasileira dos Escritores, a UBE, e celebra o lançamento no ano passado de “Lélia Gonzalez: Um Retrato”, da editora Zahar, escrito por Carneiro e que trata de um ensaio biográfico sobre outra intelectual do movimento feminista latino-americamo. A entrega do prêmio se deu durante a Flipetrópolis, festa literária que está na sua segunda edição acontecendo na região serrana do Rio de Janeiro. Em seu discurso, Sueli Carneiro agradeceu às pessoas que a antecederam na apresentação do prêmio e destacou como o momento representa um deslocamento histórico, já que, até cinco anos atrás, todos os laureados pela premiação foram brancos, em sua maioria homens. A premiada saudou ainda Lélia Gonzalez que, nas suas palavras, foi o farol para entender o que queria ser como militante. A autora também prestou tributo à escritora mineira Conceição Evaristo, que subiu a serra fluminense já completando 79 anos neste sábado em meio a outro festival literário, a Flup. “Ser reconhecida, hoje, como uma das principais vozes do pensamento nacional é algo inusitado. Inusitado não no sentido da inadequação, mas do deslocamento histórico que revela. Sou antes de tudo uma militante negra, feminista e antirracista.” Reverenciou Abdias Nascimento. “É desse passado que brota o espanto que sinto diante das homenagens que eu, Conceição, Lélia e tantas outras temos recebido. Não porque não as merecemos, mas porque sabemos a distância histórica para nós.” Da americana bell hooks trouxe a frase”mais que qualquer grupo de mulheres as negras tem sido consideradas só corpos sem mente” e depois leu um poema de Fernanda Bastos sobre o leilão de mulheres negras como amas de leite durante a escravidão. Mais adiante fez um destaque sobre a contradição do momento “porque longe de amainar, o conflito racial se acirra no Brasil”. “A ascensão global e nacional da extrema direita traz em seu bojo a agudização das práticas racistas, e sobretudo da violência racial. A brutalidade que ceifou 121 vidas nos complexos do Alemão e da Penha atesta esse recrudescimento. São corpos negros, sempre corpos negros, transformados em alvos legítimos de políticas de morte.” Antes a jornalista Flávia Oliveira, articulista do canal GloboNews apresentou Carneiro para o público destacando o papel da filósofa a partir de seus livros e traços do seu comportamento, como não falar de improviso, mas escrever e também o papel da ganhadora do prêmio na Conferência de Durban, e consequentemente na implementação das políticas de ações afirmativas e mais recentemente a incidência sobre reparação pelo empoderamento econômico no sistema internacional de direitos humanos. A eleição para o prêmio acontece a partir de indicações da própria união de escritores e de outras entidades do meio literário, a votação entre associados da UBE. Em edições anteriores foram agraciados os escritores Ailton Krenak, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Milton Hatoum, o professor e crítico literário Antonio Candido, o diplomata e imortal Alberto da Costa e Silva, da ABL, o economista Bresser-Pereira, dom Evaristo Arns e o padre Júlio Lancellotti. Na ocasião, a jornalista Miriam Leitão e Conceição Evaristo, agraciadas respectivamente em 2024 e 2023, falaram no Palácio de Cristal, localizado no centro de Petrópolis, no Rio de Janeiro. “O que é incrível na Sueli, é que ela é pensadora e ela é ação”, disse Leitão, sobre a autora. Evaristo destacou como é bom abrir caminho e não apenas ser a primeira, se referindo a ter sido a primeira mulher negra ganhando o prêmio. “Se todas mulheres negras tivessem sido tão corajosas como você, várias outras mulheres negras estariam aqui celebrando com você, estamos em tempo mas ainda falta muito.” Doutora em filosofia da educação pela Universidade de São Paulo, Sueli Carneiro foi a primeira mulher negra a receber o título de doutora honoris causapela Universidade de Brasília em 2021. Antes, foi uma dos fundadores do Geledés, o Instituto da Mulher Negra, organização que visa combater o racismo e o sexismo no Brasil. Em 2022, foi reconhecida como personalidade literária do ano pelo Prêmio Jabuti. Ao fim do discurso, a autora fez uma convocação aos presentes. “Por um Brasil capaz de reconhecer, celebrar e aprender com todas as suas vozes —especialmente aquelas que por tanto tempo foram silenciadas. Para nós, é tempo de insurgência, mas há também a urgência de reencantamento do mundo. Disso depende a possibilidade de um novo futuro. Que estejamos à altura desses desafios.” Leia a matéria completa aqui.