Reunião entre integrantes da Executiva Nacional da Marcha Zumbi dos Palmares e Edson Arantes do Nascimento (Pelé). Foto: Antônio Cunha/Jornal de Brasília/Acervo ÌROHÌN Em 14 de novembro de 1995, vésperas da Marcha Zumbi dos Palmares, um encontro no gabinete do então Ministro Extraordinário do Esporte, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, marcou um dos momentos decisivos da mobilização negra em Brasília. A reunião, registrada pelo fotógrafo Antônio Cunha, do Jornal de Brasília, reuniu membros da Executiva da Marcha e contou com a articulação de Filó e Medeiros, assessores de Pelé e ativistas históricos do movimento negro, que facilitaram o acesso ao ministro. Até aquele momento, a Marcha Zumbi dos Palmares era praticamente ignorada pela grande imprensa, apesar da ampla mobilização nacional que vinha sendo construída por entidades do movimento negro em todo o país. O encontro com Pelé, no entanto, mudaria esse cenário. Segundo Edson Lopes Cardoso: “A reunião com o ministro dos Esportes, Edson Arantes do Nascimento, o grande e inesquecível Pelé, foi agendada com Filó e Medeiros, ambos assessores de Pelé e ativistas históricos do movimento negro, que facilitaram o acesso de membros da Executiva da Marcha Zumbi dos Palmares ao Ministério dos Esportes. Em razão do impacto das declarações de Pelé nesta reunião (‘Se o negro quer que se tenha uma melhora na sua posição social e uma melhora do Brasil de uma maneira geral, temos de botar a gente no Congresso para defender a nossa raça’), cuja repercussão foi nacional e internacional, a Marcha finalmente ganhou a atenção da mídia. A reunião com Pelé fortaleceu a mobilização nos momentos decisivos.” As declarações de Pelé repercutiram amplamente na imprensa e colocaram a pauta racial no centro do debate público às vésperas da Marcha, que levaria cerca de 30 mil pessoas à Esplanada dos Ministérios no dia seguinte, em 20 de novembro. A fala do ex-jogador, até então discreto em relação a temas raciais, teve um efeito catalisador na mobilização, ao chamar a atenção nacional e internacional para as reivindicações do movimento negro brasileiro, que exigia políticas públicas de combate ao racismo e valorização da cultura afro-brasileira.
Patxohã: língua, memória e resistência – resenha da tese de Anari Braz Bomfim
Por América César A tese intitulada Materializações da língua do Povo Pataxó no tempo presente: um estudo sobre o Patxohã no extremo-sul da Bahia, de autoria de Anari Braz Bomfim, desenvolvida no curso de Doutorado do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro foi defendida no mês de setembro do ano de 2025. A tese retoma e reflete o trabalho de uma “pesquisadora de dentro” da comunidade pataxó do extremo-sul da Bahia, nascida e criada na Aldeia Pataxó de Barra Velha, que há mais de 26 anos, junto à Coordenação Atxohã, formada por um grupo de jovens pesquisadores e pesquisadoras pataxó das diversas aldeias no extremo-sul do Estado da Bahia, vem desenvolvendo um trabalho hercúleo de pesquisa, documentação e ensino linguístico com vistas à reconstrução de uma língua que a línguistica oficial dá como extinta, mas que pelo esforço desse grupo de pesquisa e dos seus falantes como um todo, se reconstrói e vai se estabelecendo em várias situações de uso linguístico no território pataxó e fora dele. A relevância deste trabalho está, de saída, em si mesmo, no esforço de retomada e afirmação de uma realidade sociolinguística que se julgava improvável: a reconstrução e uso de uma língua que só remanescia na memória de alguns dos anciãos e anciãs e em alguns poucos documentos, esparsos e incompletos. Por isso, boa parte do texto consiste em contar essa história. A história do povo Pataxó no seu esforço de sobrevivência e afirmação política e cultural (capítulo 1), que se confunde com a história de silenciamento das suas formas ancestrais de falar, cultuar e pensar. Ao mesmo tempo, descreve esse afã de resistência em afirmá-las e reconstruí-las (capítulo 2 e 3). Assim a luta pela retomada da língua pataxó se confunde com a luta pela retomada dos seus territórios ancestrais, da luta por educação diferenciada e por direito à sua diversidade cultural. E se torna mais louvável dado o seu impacto nas políticas linguísticas e de identidade de outros povos indígenas no nordeste brasileiro, que se irmanam nesse mesmo fazer, conforme é analisado no quarto e último capítulo. Do mesmo modo, a história de retomada dessa língua, denominada no presente de Patxohã (língua do povo guerreiro), se associa também a luta dos seus pesquisadores e falantes por uma educação de qualidade, diferenciada e bilingue. A própria autora é também em si mesma um exemplo dessa luta. Foi aluna do primeiro curso de formação para o magistério indígena, curso esse que, tendo sido previsto para durar três anos, se estendeu por quase oito anos, pelas dificuldades impostas pelo Estado brasileiro para a realização da educação escolar indígena como garante a Constituição de 1988. Ingressa em 2005 na Universidade Federal da Bahia como uma das primeiras estudantes cotistas no curso de Letras, cursa o mestrado no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Estudos Etnicos e Africanos, um programa também que resulta dos esforços de implantação de Lei 10. 639/2003. No trabalho da tese, a autora se debruça em descrever e compreender essas trajetórias de afirmação políticas culturais e linguísticas, com seus desafios e caminhos encontrados para a sua superação, o que chama caminhos indígenas de metodologia e pesquisa. É claro que podemos fazer perguntas quando se trata da língua em si, cuja descrição tem limites impostos pelas próprias circunstâncias e objetivos das políticas de revitalização, retomada de línguas nesses contextos de resistência. Podemos também indagar sobre uma maior atividade crítica sobre as teorias linguísticas tradicionais, eurocentradas, colonializantes, que não só não dão conta de responder aos desafios impostos pela tarefa de reconstrução da língua, como impõem métodos e preceitos que não estão em sintonia com o ethos do povo pataxó nem com os conceitos que têm de língua e usos linguísticos próprios. Mas no contexto de militância em que sua autora se insere, mais parece ter sentido a construção dos novos paradigmas que dão sustentação ao seu trabalho de pesquisa do que o esforço de desconstrução da ciência estabilizada. Por ser um documento de agradável leitura e qualidade, testemunho do esforço de resistência e afirmação política, cultural e espiritual de um povo historicamente perseguido, e que até hoje convive com a violência da luta pelo seu território e direitos fundamentais, a tese de Anari Braz Bomfim é um trabalho que merece ser publicado, lido e discutido com muita seriedade.
Livro A Representação Social do Negro no Livro Didático: o que mudou? Por que mudou? ganha segunda edição
A Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba) lança no dia 24 de setembro, às 17h, a segunda edição do livro A Representação Social do Negro no Livro Didático: o que mudou? Por que mudou?, de autoria da professora e pesquisadora Ana Célia da Silva. O evento será realizado na Livraria da Edufba, na Faculdade de Educação da UFBA, no bairro do Canela, em Salvador. A obra tornou-se referência no debate sobre educação e racismo no Brasil, ao investigar como a população negra tem sido retratada em materiais didáticos ao longo das últimas décadas. ServiçoO quê: Lançamento da 2ª edição de A Representação Social do Negro no Livro Didático: o que mudou? Por que mudou?Autora: Ana Célia da SilvaQuando: 24 de setembro (quarta-feira), às 17hOnde: Livraria da Edufba – Faculdade de Educação da UFBA, Canela, Salvador – BA
Lançamento do livro Reparação: Memória e Reconhecimento em Salvador
Na próxima sexta-feira, 19 de setembro, às 19h, será lançado em Salvador o livro Reparação: Memória e Reconhecimento, publicado pela Editora Fósforo. A obra é resultado de um seminário promovido pelo Instituto Ibirapitanga, com curadoria da professora doutora Luciana da Cruz Brito, e reúne reflexões sobre justiça histórica, racismo e os caminhos para a construção de uma sociedade mais igualitária. Reparação: Memória e Reconhecimento reúne artigos de pesquisadores e militantes que se dedicam a pensar as consequências da escravidão e as formas de enfrentamento das desigualdades raciais no Brasil contemporâneo. O evento acontece no Zumvi Arquivo Fotográfico, no Pelourinho, com bate-papo entre a organizadora e os autores Alex de Jesus e Valdecir Nascimento. ServiçoO quê: Lançamento do livro Reparação: Memória e ReconhecimentoQuando: Sexta-feira, 19 de setembro, às 19hOnde: Zumvi Arquivo Fotográfico – Rua Gregório de Mattos, 29, Pelourinho, Salvador – BAParticipantes: Luciana da Cruz Brito (organizadora), Alex de Jesus e Valdecir Nascimento
Dino aciona PF para investigar R$ 85 milhões em emendas suspeitas
Decisão mira falhas de transparência em emendas parlamentares entre 2020 e 2024. Por Congresso em Foco O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta segunda-feira (15) que a Polícia Federal investigue 148 repasses de emendas parlamentares, que somam R$ 85,4 milhões, feitos sem plano de trabalho cadastrado na plataforma oficial do governo. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), entre 2020 e 2024 foram identificados 833 planos de trabalho de emendas individuais sem registro. Em 148 desses casos, mesmo sem cadastro, houve liberação de recursos, situação que, segundo Dino, compromete a rastreabilidade do dinheiro público. Os inquéritos serão abertos por Estado e podem apurar crimes como peculato, corrupção e desvio de verbas públicas. Leia a matéria completa: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/111927/dino-aciona-pf-para-investigar-r-85-milhoes-em-emendas-suspeitas
Idafro pede ao STF reafirmação de pretos e pardos como critério para cotas raciais
Por: Redação Bnews O Supremo Tribunal Federal (STF) foi acionado pelo Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro) para reafirmar as cotas raciais como critério válido em concursos públicos e universidades, através da autoidentificação como preto ou pardo, e não como “negro ou pardo”. A medida foi motivada por decisão recente, em que o STF autorizou o controle judicial sobre bancas de heteroidentificação e estabeleceu que os candidatos devem declarar-se “negros” ou “pardos”. Para o Idafro, essa determinação contraria julgados anteriores, como a ADPF 186 e a ADC 41, além de resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do próprio Estatuto da Igualdade Racial, que reconhecem a cor da pele e os traços fenotípicos como parâmetros centrais para aferição. Os advogados que assinam a petição, Hédio Silva Jr., Silvia Souza , Anivaldo dos Anjos e Maira Vida, destacam que exigir das bancas a análise de linhagem étnica ou origem racial desvirtua o objetivo do processo. “Atribuir às Comissões de Heteroidentificação a responsabilidade de decidir sobre cor da pele e traços fenotípicos é algo concreto e viável. Já definir origem racial ou descendência genética é tarefa impossível e sem respaldo jurídico”, afirmam. O jurista Hédio Silva Jr., um dos autores da ação, reforça que “o Idafro pede que o Supremo resgate sua própria jurisprudência, reafirmando que basta a autoidentificação como preto ou pardo”. Hédio afirma que “negro” não é “critério jurídico ou administrativo, mas uma noção ligada a origem racial, impossível de ser aferida objetivamente”. “Já os traços fenotípicos como cor da pele, cabelo, características faciais, oferecem parâmetros claros e objetivos para as comissões. É isso que garante segurança jurídica e respeito à dignidade dos candidatos”, afirma o advogado. O documento ainda relembra o julgamento do Caso Ellwanger (2003), quando o STF consolidou a compreensão de que “raça é uma construção social definida pela negrofobia”. Assim, tanto pretos quanto pardos devem ser reconhecidos igualmente como vítimas do racismo estrutural brasileiro e, portanto, sujeitos do direito às políticas afirmativas. Leia a matéria: https://www.bnews.com.br/noticias/crime-e-justica-bahia/idafro-pede-ao-stf-reafirmacao-de-pretos-e-pardos-como-criterio-para-cotas-raciais.html
Cais do Valongo é reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade
Por Solimar Luz – Repórter da Rádio Nacional O Cais do Valongo, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, foi reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade. O presidente Lula sancionou a Lei 15.203, que reconhece o sítio arqueológico como patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro essencial à formação da identidade nacional. A lei estabelece diretrizes para a proteção do local, reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Unesco desde 2017, como o respeito às manifestações culturais afro-brasileiras e à preservação de objetos. E destaca a importância do Cais, datado de 1811 e considerado o principal vestígio material de desembarque de africanos escravizados na América. Fonte: Agência Brasil Leia a matéria completa em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2025-09/cais-do-valongo-e-reconhecido-como-patrimonio-cultural-da-humanidade
Thiago Campos toma posse como primeiro diretor negro da Anvisa em 26 anos
Brasília, 11 de setembro de 2025 — A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) empossou nesta quarta-feira (10) três novos diretores em cerimônia realizada em Brasília. Entre eles, o advogado sanitarista Thiago Lopes Cardoso Campos, que se tornou o primeiro negro a integrar a diretoria da agência desde a sua criação, em 1999. A solenidade contou com a presença de ministros de Estado, representantes do setor de saúde, servidores públicos e lideranças sociais. Além de Campos, tomaram posse Leandro Pinheiro Safatle, designado diretor-presidente, e Daniela Marreco Cerqueira. Trajetória e perfil Thiago Campos é advogado, com especializações em Direito Sanitário, Gestão de Políticas de Saúde e Gestão Empresarial. Atuou no Ministério da Saúde em cargos técnicos e de gestão, incluindo diretorias na área de trabalho e educação em saúde, além de experiências no setor privado e em consultoria jurídica. Com trajetória marcada pela defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), Campos afirmou que pretende alinhar sua atuação na Anvisa aos princípios de universalidade, equidade e inclusão. Discurso e prioridades Em seu discurso de posse, o novo diretor ressaltou o significado de sua nomeação para a representatividade racial no país: “A presença negra nos espaços de poder segue muito aquém da sua representatividade no nosso país. Assumo, portanto, esse cargo com o compromisso de trabalhar para que a Anvisa continue sendo uma instituição capaz de proteger vidas, reduzir desigualdades e garantir o direito à saúde para todos os brasileiros e brasileiras.” Campos afirmou que suas prioridades à frente da diretoria incluem a modernização dos processos regulatórios, a agilidade nas análises técnicas e o fortalecimento da transparência institucional, com ênfase no alinhamento às diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS).
Morre em Brasília a economista Roseli Faria, referência em políticas públicas e no combate ao racismo
Foto: Pedro França/Agência Senado A economista e servidora pública federal Roseli Faria, de 54 anos, faleceu na manhã desta quinta-feira (11), em Brasília. Reconhecida pela dedicação ao serviço público e pelo compromisso com a justiça social, Roseli se tornou uma das maiores referências nacionais em orçamento público e na construção de políticas voltadas à redução das desigualdades sociais e raciais. Natural de Mato Grosso, Roseli construiu uma carreira marcada pelo rigor técnico e pelo compromisso ético. Atuou em diferentes órgãos do governo federal, sendo referência em temas relacionados à transparência, à participação social e à formulação de políticas de enfrentamento ao racismo. Sua trajetória uniu economia, cidadania e militância, abrindo caminhos para uma administração pública mais democrática e inclusiva. O falecimento de Roseli gerou manifestações de pesar em todo o país. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania destacou, em nota oficial, sua contribuição à formulação de políticas para a promoção da igualdade racial e de gênero. O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) ressaltou que sua trajetória foi marcada pela capacidade de “aliar conhecimento técnico e compromisso com a justiça social e racial”. Entidades representativas de servidores públicos, como a Unacon Sindical, também lamentaram a perda. Em comunicado, a associação afirmou que Roseli “foi uma servidora exemplar, dedicada e comprometida com o interesse público”. Além da atuação técnica, Roseli era militante do PSOL e participou de debates nacionais sobre orçamento, cidadania e combate às desigualdades históricas. Seu trabalho foi fundamental para denunciar como a estrutura orçamentária pode reproduzir injustiças, mas também servir como instrumento de transformação social. Roseli Faria deixa um legado de compromisso com o serviço público, com a democracia e com a luta contra o racismo. Sua memória seguirá como referência para novas gerações de servidores, economistas e ativistas.
Itamaraty disponibiliza acervo digital inédito sobre o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas
Fonte: @palaciodoitamaratyrj no Instagram. O Ministério das Relações Exteriores concluiu a digitalização de documentos históricos do Museu Histórico e Diplomático, preservados pelo Arquivo Histórico do Itamaraty, que lançam luz sobre uma das páginas mais marcantes da nossa história: o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas no século XIX. O acervo reúne cerca de 50 metros lineares (25.877 páginas) de registros de aproximadamente 160 navios negreiros interceptados por forças navais britânicas, brasileiras e de outros países, e julgados pela Comissão Mista de Combate ao Tráfico em Serra Leoa, que funcionou entre 1815 e meados do século XIX. Os documentos detalham as condições a bordo das embarcações e registram estratégias jurídicas e políticas utilizadas para tentar legitimar o comércio de pessoas escravizadas. O material serve como fonte para pesquisadores das áreas de História, Direito, Relações Internacionais, Memória Social e Direitos Humanos. A digitalização cumpre o objetivo de preservar, democratizar o acesso e incentivar pesquisas sobre uma das páginas mais marcantes da história brasileira. O acervo está agora disponível gratuitamente no Itamaraty Digital: https://atom.itamaraty.gov.br/index.php/cmis. Veja o post: (https://www.instagram.com/palaciodoitamaratyrj/p/DN3on_bYr7o/)