Por Sérgio Rodas Depois da operação policial mais violenta da história do Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro (PL) novamente criticou a decisão do Supremo Tribunal Federal na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635 — na qual a corte homologou um plano de redução da letalidade policial no estado. A declaração foi repudiada por advogados, que dizem que ela incentiva ataques. E contradiz dados que mostram que as ordens do STF no caso ajudaram a reduzir a criminalidade no Rio sem limitar as atividades das forças de segurança. Pelo menos 64 pessoas morreram — quatro delas policiais — e 81 foram presas em uma megaoperação policial promovida nesta terça-feira (28/10) contra o Comando Vermelho nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio. É a ação mais letal da história do estado, com mais do que o dobro de vítimas da incursão no Jacarezinho, em 2021, que gerou 28 mortos. Em entrevista coletiva, Castro classificou a ADPF 635 de “maldita” e atribuiu a ela a dificuldade de policiais de acessar vias nos conjuntos de favelas. “Ainda são o que nós chamamos de filhotes dessa ADPF maldita. Infelizmente, um partido político (PSB) ingressou (com a ação) e prejudicou demais o Rio de Janeiro”, disse o governador. “Não pode o policial bem treinado atirar da plataforma, mas pode o criminoso usar um drone com bomba. São essas idiossincrasias que a gente vê e, que, infelizmente, a tentativa de politização da segurança pública arrebenta sempre no lado do policial que está lá arriscando a sua vida.” O governador ainda declarou que a ADPF trouxe ao Rio traficantes de outros estados, para se esconder das polícias de suas regiões. Dados dizem o contrário As afirmações de Castro contra a decisão do STF — que vêm sendo repetidas por bolsonaristas há tempos — já foram rebatidas por diversas instituições. Segundo dados divulgados pelo Ministério Público do Rio, de junho de 2020 a janeiro de 2025, as Polícias Civil e Militar do estado comunicaram cerca de 4,6 mil operações em comunidades do estado, ou seja, uma média de três por dia. Apenas em 2024 e no primeiro mês deste ano, foram 1.354 operações, sendo 1.208 da PM e 146 da Polícia Civil. O acompanhamento dessas ações gerou a elaboração e distribuição de 315 notícias de fato (sendo 41 apenas neste ano), que são procedimentos iniciais para apurar a ocorrência de ilegalidades, como violações de direitos e mortes. Esses casos foram encaminhados para as promotorias de Justiça competentes para serem analisadas. Dados compilados pelo Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni-UFF) mostram que houve um número até maior de operações do que aquelas comunicadas ao MP-RJ. Segundo o grupo, foram 5.833 operações de 2021 a 2024, uma queda de apenas 14% em relação ao período de 2016 a 2019. Outro dado apresentado pelo Geni-UFF é o aumento no número de operações, ano após ano, desde 2021. Em 2024, por exemplo, segundo o grupo de estudos, foram 1.966, contra 852 em 2021. As críticas à ADPF 635 também foram rebatidas pelo ministro Edson Fachin, relator do caso, em seu voto. Ele ressaltou que, de 2019 (data de propositura da ação) a 2023, as mortes violentas no Rio caíram 18,4%. Mais especificamente, as cometidas em operações policiais foram reduzidas 52%, e as de agentes em serviço declinaram 50%. Esses dados foram acompanhados pela queda de 44% nos roubos de veículos; de 57,2% nos roubos de rua; de 60,9% nos roubos a transeuntes; de 64,3% nos roubos a coletivos; de 42,2% nos roubos de celular; e de 56,8% nos roubos de carga, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, ressaltou Fachin. Manifestações de instituições O Ministério Público da União e a Defensoria Pública da União enviaram ofício ao governo do Rio questionando se a megaoperação cumpriu as determinações impostas pelo Supremo na ADPF 635. Os órgãos pediram que o governo “informe detalhadamente de que forma o direito à segurança pública foi promovido, indicando as finalidades da operação, os custos envolvidos e a comprovação da inexistência de outro meio menos gravoso de atingir a mesma finalidade”. Em nota, o Ministério Público do Rio informou que acompanha a operação policial com o objetivo de assegurar o cumprimento das diretrizes fixadas pelo STF. O MP-RJ disse que enviou técnicos periciais ao Instituto Médico Legal para a produção de perícia independente, em conformidade com suas atribuições institucionais. As informações referentes aos desdobramentos da operação foram encaminhadas pelo Plantão de Monitoramento para a análise da 5ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada do Núcleo Rio de Janeiro. “O procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, está mantendo contato permanente com as equipes do MP-RJ em atuação, e a instituição segue em monitoramento contínuo dos desdobramentos da ação e de seus impactos sobre a cidade”, disse o órgão. Por sua vez, a Comissão de Direitos Humanos da seccional fluminense da Ordem dos Advogados do Brasil repudiou “veementemente” a operação policial. “A Carta Magna de 1988 estabelece que a segurança pública é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, devendo ser exercida com o propósito de assegurar a incolumidade das pessoas e do patrimônio. O cumprimento dessa missão constitucional não autoriza, contudo, a adoção de práticas que resultem em violação de direitos humanos, execuções sumárias ou tratamento desumano e degradante”, disse o presidente da comissão, Sidney Guerra, em nota. A entidade diz ser necessário que o governo do Rio divulgue o planejamento e a execução da ação, de modo a permitir o controle social e institucional das operações estatais. “É imperioso que a segurança pública se realize dentro dos marcos do Estado democrático de Direito, com respeito aos direitos fundamentais e à dignidade da pessoa humana, valores que constituem o núcleo axiológico da Constituição de 1988. A preservação da ordem não pode, e jamais poderá, justificar a supressão de garantias constitucionais, nem a perda de vidas humanas.” Leia a matéria completa em: https://www.conjur.com.br/2025-out-28/castro-culpa-adpf-635-por-violencia-no-rio-mas-dados-apontam-queda-da-criminalidade/
Por que brasileiros estão buscando cidadania de país africano de onde saíram milhões de escravizados
Neto de uma mulher negra nascida na Bahia, o consultor de vendas Clayton Muniz Filho, 29, que mora na cidade de São Paulo, interessou-se em saber mais sobre a origem de sua família, mas esbarrou em uma dificuldade comum entre descendentes de escravizados no Brasil: a falta de documentos e registros de seus ancestrais. Ele, então, decidiu fazer um teste de DNA, que detectou que cerca de 30% de sua ancestralidade é proveniente da região onde hoje fica o Benin — país da costa ocidental da África de onde saíram muitos dos escravizados enviados à força para o Brasil no período colonial. “Um descendente de italianos consegue saber que o tataravô veio da Itália para produzir vinho, por exemplo. Mas, se você é negro, não tem esse privilégio de saber sobre sua linhagem, a origem de sua família. Houve um apagamento desses registros ao longo da história”, afirma o consultor de vendas. Com o teste de ancestralidade em mãos, Clayton decidiu aproveitar uma oportunidade oferecida pelo governo do Benin a todos os afrodescendentes do mundo com antepassados naquela região: a obtenção da cidadania do país. O brasileiro agora aguarda uma resposta, que vê como “uma peça de quebra-cabeça” que o ajudará a completar sua trajetória familiar. Leia a matéria completa em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3w963y4v6yo
Pesquisa da UERJ mostra evolução da cobertura de O Globo sobre cotas raciais entre 2011 e 2023
Publicação do GEMAA analisa 787 textos e revela mudança no tom do jornal carioca Um novo estudo do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA/UERJ) revela uma transformação na cobertura do jornal O Globo sobre as políticas de cotas raciais. A pesquisa, assinada por João Feres Júnior e Raíssa Sales de Macêdo, analisou 787 textos publicados entre 2011 e 2023 e mostra que o veículo passou de opositor das ações afirmativas a defensor da renovação da Lei de Cotas, apoiada em editorial de 2022. Segundo o levantamento, até 2012 o jornal publicava três textos contrários para cada favorável. A partir de 2015 o quadro se inverteu, 37% dos textos tornaram-se favoráveis e o debate passou a tratar da eficácia e dos resultados das políticas, não mais de sua legitimidade. O estudo, que atualiza uma análise publicada em 2013, está disponível para download gratuito no site do GEMAA: gemaa.iesp.uerj.br.
Centro Cultural Banco da Amazônia é inaugurado com exposição dedicada a Nelson Mandela
Em 1990, delegação de parlamentares brasileiros esteve com Mandela, na África do Sul: Paulo Paim, Edmilson Valentim, Benedita da Silva (encoberta), Carlos Alberto Oliveira (Caó) e João Herrmann Neto. Acervo ÌROHÌN O Centro Cultural Banco da Amazônia abriu suas portas em Belém com uma mostra dedicada a um dos maiores símbolos da luta pela justiça e contra o racismo no século XX: Nelson Mandela. A exposição “Mandela, Ícone Mundial de Reconciliação” marca a estreia do espaço e propõe uma reflexão sobre a trajetória de um líder cuja história ultrapassa fronteiras e tempos. O novo centro, localizado no prédio histórico do Banco da Amazônia, nasce com a proposta de ser um espaço permanente de diálogo entre arte, história e diversidade cultural da região amazônica, acolhendo exposições, performances e produções contemporâneas que expressem as múltiplas identidades do Norte do país. A mostra inaugural, realizada em parceria com o Instituto Brasil África (IBRAF), apresenta um conjunto de fotografias, documentos e narrativas que percorrem desde a juventude de Mandela até seu legado como o primeiro presidente negro da África do Sul. A curadoria, assinada por Christopher Till e Mary-Jane Darroll, oferece uma leitura sensível de sua trajetória, das lutas contra o apartheid à construção de uma democracia. Entre as imagens expostas, estão registros emblemáticos de Mandela em Robben Island, onde passou 18 dos 27 anos de prisão, e momentos históricos como sua libertação, o voto nas primeiras eleições democráticas sul-africanas e a posse em 1994. Cada fotografia é acompanhada de trechos de discursos e reflexões do líder, compondo uma narrativa visual e textual sobre coragem, humanidade e reconciliação. A exposição também permite ao público acessar gratuitamente o livro digital “Mandela, Ícone Mundial de Reconciliação”, coordenado por João Bosco Monte. A publicação reúne 104 páginas com imagens históricas e citações de Mandela, acompanhadas de breves contextos sobre cada etapa de sua vida. O volume está disponível para download no site do Centro Cultural Banco da Amazônia (www.bancoamazonia.com.br/centrocultural). Mandela e o Brasil A relação de Nelson Mandela com o Brasil tem marcos importantes na década de 1990. Em 1990, poucos meses após sua libertação, uma delegação de parlamentares brasileiros — Paulo Paim, Edmilson Valentim, Benedita da Silva, Carlos Alberto de Oliveira (Caó) e João Herrmann Neto — esteve com Mandela na África do Sul. O encontro integrou as articulações internacionais de solidariedade à transição democrática sul-africana e ao fim do Apartheid. No ano seguinte, em 1991, Mandela visitou o Congresso Nacional, em Brasília, onde foi recebido com homenagens por parlamentares e representantes de movimentos sociais. A visita consolidou os laços entre Brasil e África do Sul, evidenciando afinidades históricas e políticas entre as duas nações. A exposição “Mandela, Ícone Mundial de Reconciliação”, em cartaz no Centro Cultural Banco da Amazônia, retoma essa aproximação histórica e cultural, destacando o papel do diálogo entre Brasil e África na construção de uma memória comum sobre liberdade, justiça e igualdade racial.
Tributar os super-ricos não pode ser oportunidade perdida
Eliane Barbosa da Conceição para a Folha de S. Paulo. Professora de administração pública da Unilab-CE, é doutora em administração (FGV-Eaesp) e diretora da Plataforma Justa Foi um compromisso assumido na campanha eleitoral: “incluir os pobres no Orçamento e os ricos no Imposto de Renda”. Até os dois primeiros meses deste ano, porém, muitos duvidavam de que o atual governo ousaria bancar a promessa mais espinhosa. Com o novo arcabouço fiscal impondo limites à expansão dos serviços públicos e as desigualdades sociais se agravando, cresceu a pressão de movimentos sociais, acadêmicos e organismos internacionais. Ficou evidente que a ausência de uma revisão no Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) aprofundaria a penalização da população mais pobre e perpetuaria a face regressiva do sistema tributário. Nesse contexto, em 18 de março o Executivo enviou ao Congresso o projeto de lei 1.087/2025. A proposta original previa, de um lado, isentar do IRPF rendimentos mensais de até R$ 5.000 e reduzir a carga para faixas intermediárias a partir de R$ 7.000. De outro, instituía um imposto mínimo para os super-ricos, com alíquotas graduais de até 10% sobre rendimentos mensais acima de R$ 50 mil, incluindo lucros e dividendos, isentos desde 1996. Críticos apontaram que uma alíquota máxima de 10% para rendimentos muito elevados parecia tímida diante do fato de trabalhadores assalariados seguirem pagando entre 7,5% e 27,5%. Mas o simbolismo era relevante: pela primeira vez em meio século, uma iniciativa do Executivo colocava os super-ricos no radar do IRPF, rompendo com a tradição de privilégios que concentra a carga no trabalho e poupa o capital. No dia 1º de outubro último, a Câmara dos Deputados aprovou uma subemenda substitutiva ao PL 1.087/2025. O texto suavizou parte dos impactos sobre o topo da pirâmide e comprometeu a arrecadação de 2026 a 2028 ao estender a isenção para lucros distribuídos em 2025, mesmo que pagos nos anos seguintes. Retardou, assim, parte dos efeitos, mas não desfigurou por completo a proposta. O que se manteve já é significativo: a partir de 2026, as rendas mais altas pagarão mais IRPF do que em qualquer momento dos últimos 50 anos. Uma mudança que, se preservada, recoloca o imposto em sintonia com sua função constitucional de promover justiça fiscal. O pano de fundo histórico ajuda a dimensionar o avanço. Até 1964, quando houve o golpe militar, 60% da arrecadação do IRPF retido na fonte provinham de rendimentos de capital —lucros, dividendos, aplicações financeiras, aluguéis— e apenas 18% do trabalho. Seis anos depois, em 1970, a balança já havia se invertido: metade da arrecadação vinha dos rendimentos do trabalho, e apenas 17% do capital. Esse padrão não mudou desde então. Até julho de 2025, 66% do total arrecadado pela Receita Federal a título de IRPF recaía sobre rendimentos do trabalho —três quartos deles dos assalariados. Apenas 29% tinham origem em rendimentos de capital. Ou seja, há seis décadas o Imposto de Renda brasileiro cumpre um papel distorcido: protege sistematicamente os ganhos do capital e concentra o peso em quem vive de salário. Essa distorção não é apenas técnica, mas política: contribui para perpetuar desigualdades e limita a capacidade do Estado de financiar serviços públicos com base em critérios de equidade. Leia a matéria completa em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/10/tributar-os-super-ricos-nao-pode-ser-oportunidade-perdida.shtml
A reunião com Pelé que impulsionou a Marcha Zumbi dos Palmares
Reunião entre integrantes da Executiva Nacional da Marcha Zumbi dos Palmares e Edson Arantes do Nascimento (Pelé). Foto: Antônio Cunha/Jornal de Brasília/Acervo ÌROHÌN Em 14 de novembro de 1995, vésperas da Marcha Zumbi dos Palmares, um encontro no gabinete do então Ministro Extraordinário do Esporte, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, marcou um dos momentos decisivos da mobilização negra em Brasília. A reunião, registrada pelo fotógrafo Antônio Cunha, do Jornal de Brasília, reuniu membros da Executiva da Marcha e contou com a articulação de Filó e Medeiros, assessores de Pelé e ativistas históricos do movimento negro, que facilitaram o acesso ao ministro. Até aquele momento, a Marcha Zumbi dos Palmares era praticamente ignorada pela grande imprensa, apesar da ampla mobilização nacional que vinha sendo construída por entidades do movimento negro em todo o país. O encontro com Pelé, no entanto, mudaria esse cenário. Segundo Edson Lopes Cardoso: “A reunião com o ministro dos Esportes, Edson Arantes do Nascimento, o grande e inesquecível Pelé, foi agendada com Filó e Medeiros, ambos assessores de Pelé e ativistas históricos do movimento negro, que facilitaram o acesso de membros da Executiva da Marcha Zumbi dos Palmares ao Ministério dos Esportes. Em razão do impacto das declarações de Pelé nesta reunião (‘Se o negro quer que se tenha uma melhora na sua posição social e uma melhora do Brasil de uma maneira geral, temos de botar a gente no Congresso para defender a nossa raça’), cuja repercussão foi nacional e internacional, a Marcha finalmente ganhou a atenção da mídia. A reunião com Pelé fortaleceu a mobilização nos momentos decisivos.” As declarações de Pelé repercutiram amplamente na imprensa e colocaram a pauta racial no centro do debate público às vésperas da Marcha, que levaria cerca de 30 mil pessoas à Esplanada dos Ministérios no dia seguinte, em 20 de novembro. A fala do ex-jogador, até então discreto em relação a temas raciais, teve um efeito catalisador na mobilização, ao chamar a atenção nacional e internacional para as reivindicações do movimento negro brasileiro, que exigia políticas públicas de combate ao racismo e valorização da cultura afro-brasileira.
Patxohã: língua, memória e resistência – resenha da tese de Anari Braz Bomfim
Por América César A tese intitulada Materializações da língua do Povo Pataxó no tempo presente: um estudo sobre o Patxohã no extremo-sul da Bahia, de autoria de Anari Braz Bomfim, desenvolvida no curso de Doutorado do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro foi defendida no mês de setembro do ano de 2025. A tese retoma e reflete o trabalho de uma “pesquisadora de dentro” da comunidade pataxó do extremo-sul da Bahia, nascida e criada na Aldeia Pataxó de Barra Velha, que há mais de 26 anos, junto à Coordenação Atxohã, formada por um grupo de jovens pesquisadores e pesquisadoras pataxó das diversas aldeias no extremo-sul do Estado da Bahia, vem desenvolvendo um trabalho hercúleo de pesquisa, documentação e ensino linguístico com vistas à reconstrução de uma língua que a línguistica oficial dá como extinta, mas que pelo esforço desse grupo de pesquisa e dos seus falantes como um todo, se reconstrói e vai se estabelecendo em várias situações de uso linguístico no território pataxó e fora dele. A relevância deste trabalho está, de saída, em si mesmo, no esforço de retomada e afirmação de uma realidade sociolinguística que se julgava improvável: a reconstrução e uso de uma língua que só remanescia na memória de alguns dos anciãos e anciãs e em alguns poucos documentos, esparsos e incompletos. Por isso, boa parte do texto consiste em contar essa história. A história do povo Pataxó no seu esforço de sobrevivência e afirmação política e cultural (capítulo 1), que se confunde com a história de silenciamento das suas formas ancestrais de falar, cultuar e pensar. Ao mesmo tempo, descreve esse afã de resistência em afirmá-las e reconstruí-las (capítulo 2 e 3). Assim a luta pela retomada da língua pataxó se confunde com a luta pela retomada dos seus territórios ancestrais, da luta por educação diferenciada e por direito à sua diversidade cultural. E se torna mais louvável dado o seu impacto nas políticas linguísticas e de identidade de outros povos indígenas no nordeste brasileiro, que se irmanam nesse mesmo fazer, conforme é analisado no quarto e último capítulo. Do mesmo modo, a história de retomada dessa língua, denominada no presente de Patxohã (língua do povo guerreiro), se associa também a luta dos seus pesquisadores e falantes por uma educação de qualidade, diferenciada e bilingue. A própria autora é também em si mesma um exemplo dessa luta. Foi aluna do primeiro curso de formação para o magistério indígena, curso esse que, tendo sido previsto para durar três anos, se estendeu por quase oito anos, pelas dificuldades impostas pelo Estado brasileiro para a realização da educação escolar indígena como garante a Constituição de 1988. Ingressa em 2005 na Universidade Federal da Bahia como uma das primeiras estudantes cotistas no curso de Letras, cursa o mestrado no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Estudos Etnicos e Africanos, um programa também que resulta dos esforços de implantação de Lei 10. 639/2003. No trabalho da tese, a autora se debruça em descrever e compreender essas trajetórias de afirmação políticas culturais e linguísticas, com seus desafios e caminhos encontrados para a sua superação, o que chama caminhos indígenas de metodologia e pesquisa. É claro que podemos fazer perguntas quando se trata da língua em si, cuja descrição tem limites impostos pelas próprias circunstâncias e objetivos das políticas de revitalização, retomada de línguas nesses contextos de resistência. Podemos também indagar sobre uma maior atividade crítica sobre as teorias linguísticas tradicionais, eurocentradas, colonializantes, que não só não dão conta de responder aos desafios impostos pela tarefa de reconstrução da língua, como impõem métodos e preceitos que não estão em sintonia com o ethos do povo pataxó nem com os conceitos que têm de língua e usos linguísticos próprios. Mas no contexto de militância em que sua autora se insere, mais parece ter sentido a construção dos novos paradigmas que dão sustentação ao seu trabalho de pesquisa do que o esforço de desconstrução da ciência estabilizada. Por ser um documento de agradável leitura e qualidade, testemunho do esforço de resistência e afirmação política, cultural e espiritual de um povo historicamente perseguido, e que até hoje convive com a violência da luta pelo seu território e direitos fundamentais, a tese de Anari Braz Bomfim é um trabalho que merece ser publicado, lido e discutido com muita seriedade.
Livro A Representação Social do Negro no Livro Didático: o que mudou? Por que mudou? ganha segunda edição
A Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba) lança no dia 24 de setembro, às 17h, a segunda edição do livro A Representação Social do Negro no Livro Didático: o que mudou? Por que mudou?, de autoria da professora e pesquisadora Ana Célia da Silva. O evento será realizado na Livraria da Edufba, na Faculdade de Educação da UFBA, no bairro do Canela, em Salvador. A obra tornou-se referência no debate sobre educação e racismo no Brasil, ao investigar como a população negra tem sido retratada em materiais didáticos ao longo das últimas décadas. ServiçoO quê: Lançamento da 2ª edição de A Representação Social do Negro no Livro Didático: o que mudou? Por que mudou?Autora: Ana Célia da SilvaQuando: 24 de setembro (quarta-feira), às 17hOnde: Livraria da Edufba – Faculdade de Educação da UFBA, Canela, Salvador – BA
Lançamento do livro Reparação: Memória e Reconhecimento em Salvador
Na próxima sexta-feira, 19 de setembro, às 19h, será lançado em Salvador o livro Reparação: Memória e Reconhecimento, publicado pela Editora Fósforo. A obra é resultado de um seminário promovido pelo Instituto Ibirapitanga, com curadoria da professora doutora Luciana da Cruz Brito, e reúne reflexões sobre justiça histórica, racismo e os caminhos para a construção de uma sociedade mais igualitária. Reparação: Memória e Reconhecimento reúne artigos de pesquisadores e militantes que se dedicam a pensar as consequências da escravidão e as formas de enfrentamento das desigualdades raciais no Brasil contemporâneo. O evento acontece no Zumvi Arquivo Fotográfico, no Pelourinho, com bate-papo entre a organizadora e os autores Alex de Jesus e Valdecir Nascimento. ServiçoO quê: Lançamento do livro Reparação: Memória e ReconhecimentoQuando: Sexta-feira, 19 de setembro, às 19hOnde: Zumvi Arquivo Fotográfico – Rua Gregório de Mattos, 29, Pelourinho, Salvador – BAParticipantes: Luciana da Cruz Brito (organizadora), Alex de Jesus e Valdecir Nascimento
Dino aciona PF para investigar R$ 85 milhões em emendas suspeitas
Decisão mira falhas de transparência em emendas parlamentares entre 2020 e 2024. Por Congresso em Foco O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta segunda-feira (15) que a Polícia Federal investigue 148 repasses de emendas parlamentares, que somam R$ 85,4 milhões, feitos sem plano de trabalho cadastrado na plataforma oficial do governo. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), entre 2020 e 2024 foram identificados 833 planos de trabalho de emendas individuais sem registro. Em 148 desses casos, mesmo sem cadastro, houve liberação de recursos, situação que, segundo Dino, compromete a rastreabilidade do dinheiro público. Os inquéritos serão abertos por Estado e podem apurar crimes como peculato, corrupção e desvio de verbas públicas. Leia a matéria completa: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/111927/dino-aciona-pf-para-investigar-r-85-milhoes-em-emendas-suspeitas