Por Edson Lopes Cardoso Sugestão de leitura do Ìrohìn: nova edição de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, incluído na coleção “CLÁSSICOS” da editora ZAHAR, edição Bolso de Luxo, capa dura, que ressurge agora numa edição cuidadosa, com apresentação e posfácio imperdíveis. A apresentação de Felipe Botelho Corrêa e o posfácio de Jorge Augusto contribuem, com brilho, para orientar os leitores e situar bem a importância do romance de Lima Barreto, que é pioneiro não apenas para a literatura brasileira antirracista. Leitura obrigatória.
José Marmo: exemplo de Dedicação e Coerência
Por Lúcia Xavier Quando Criola nasceu José Marmo ouviu o choro e se encantou. Logo no primeiro ano de vida nos ajudou a enfrentar desafios complexos como o da Aids, enquanto ele mesmo atuava para que os terreiros de matriz africana conhecessem a epidemia que batia às suas portas, além da própria intolerância religiosa. De mãos dadas conosco desenvolveu diversas ações no campo do direito à saúde, formando ao longo dos anos 2000, mais de 300 ativistas, do Rio e de outras regiões do país, para consolidar a política de saúde da população negra, aperfeiçoar os processos de participação e educação; ampliando assim os nossos direitos. Marmo conduziu oficinas sobre mortalidade materna na região metropolitana do Rio de Janeiro; elaborou cartilha para a formação sobre quesito cor para funcionários do Sistema Único de Saúde/Rio; representou Criola no Conselho Estadual de Saúde e ainda organizou o Fórum Estadual de Saúde da População Negra. De 2010 a 2016, começou a coordenar o Projeto Ponto de Cultura Negras na História, desenvolvendo oficinas sobre presença e o pensamento das mulheres negras, trazendo o debate da representação social, da produção cultural e artística, religiosidade, produção científica e sobretudo, a memória de mulheres negras que foram fundamentais para o enfrentamento do racismo patriarcal. Promoveu o lançamento de livros e shows de música de mulheres negras. Elaborou a revista Negras na História e um livreto Negras Histórias: mulheres negras em luta pela arte e pela vida. Marmo também foi crucial para a organização e suporte do Curso de Atualização da Diáspora Africana (2012-2016), articulando também o intercâmbio entre alunos da Universidade do Texas e lideranças comunitárias, intelectuais, artistas, religiosas de matriz africana e quilombolas. Como blogueiro, criou e alimentou o blog de Criola: http://criolaong.blogspot.com. Marmo também colaborou como homem negro a manter Criola viva no seu período de crise, de mãos dadas para nos levantar e agir. Marmo foi e sempre será parte de nossa história.
Seminário marca os 30 anos da Marcha Zumbi dos Palmares e revisita legado histórico da mobilização negra
Três décadas após a Marcha Zumbi dos Palmares ocupar Brasília com mais de 30 mil pessoas, pesquisadores, ativistas e instituições se reúnem para debater os sentidos contemporâneos daquele acontecimento histórico. No dia 9 de dezembro, o Centro Maria Antonia, da USP recebe um seminário dedicado aos 30 anos da mobilização que redefiniu o lugar do combate ao racismo no debate público brasileiro. A atividade é uma iniciativa da Fundação Perseu Abramo, por meio do Centro Sérgio Buarque de Holanda e do Projeto Reconexão Periferias, em parceria com a ANPUH, o AfroCebrap, o Projeto Afro Memória e a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP. Entre os participantes estão o diretor do ÌROHÌN Edson Lopes Cardoso, Márcia Lima, Vicentinho, Simplicio Arcanjo, Paulo Ramos, Martvs Chagas, Marcos Cardoso, Thayara de Lima e Juliana Borges, com mediação de Elen Coutinho e Amílcar Pereira. O seminário será dividido em três mesas temáticas ao longo do dia, com entrada gratuita. Confira a programação:
Para enxergar e ouvir Luiza Bairros
Por Thomázia da Conceição A capital do país viveu, na semana posterior ao 20 de novembro, uma efervescência incomum. Não viria de órgãos públicos nem dos centros de decisões políticas, embora tivesse caráter decisório e político. Vinha das ruas. Vinha de 35 países e de todas as regiões do país. Atendia pelo nome de ‘mulher negra’ e mostraria sua força no dia 25 quando, após dez anos, a cidade recebeu a segunda edição de um evento histórico: a Marcha de Mulheres Negras 2025 – por reparação e bem-viver. Dados oficiais apontam que pisaram o chão da Esplanada dos Ministérios os pés de 300 mil delas, representando tantas outras. Tal diversidade de tons de pele, gênero, classe, comunidades, territórios e etnias esbarrou na estanque agenda perpetuada ao longo de décadas, apesar de conquistas e vitórias, muitas forjadas pelo próprio movimento negro. Tais demandas por reparação e bem-viver foram sintetizadas em um documento que pediu, gritou, escancarou, bradou as injustiças, iniquidades e desigualdades que se querem findas. Tal qual fizeram tantas das vozes presentes, em cima de trios elétricos, ao empunhar microfones ou em dezenas de atividades que ocorreram em todo o território nacional, correlacionadas ao momento histórico. Na Fundação Palmares, ainda no dia 24, no Espaço Cultural Mario Gusmão, ocorreu um desses eventos: a abertura da exposição ‘Luiza Bairros: Lentes e Voz’, realizada pelo Ministério da Igualdade Racial e pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, com curadoria de Martha Rosa F. Queiroz. Considerada uma das agendas mais concorridas da instituição, que luta ela mesma para se reconstruir após desmonte e esvaziamento contundentes, impostos por um governo de direita que fez sucumbir até mesmo o Ministério da Cultura, ao qual a autarquia está vinculada, a Palmares abriu suas portas para receber Luiza Bairros. A cerimônia contou com as participações das ministras Margareth Menezes (Cultura), Anielle Franco (Igualdade Racial), do presidente da casa anfitriã, João Jorge, entre tantas outras autoridades, lideranças e militantes de movimentos sociais e do movimento negro, como Sueli Carneiro. Também abrigou uma roda de conversa sobre Mulheres Negras na Cultura – Por reparação e Bem Viver, entre Margareth Menezes, a escritora Conceição Evaristo, a curadora Martha Rosa e a integrante do Comitê Nacional da Marcha, Érika Matheus Silva dos Santos, mediada pela secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura do MinC, Roberta Martins. ‘Lentes e Voz’ indica, por parte do Governo Federal, mais um movimento necessário para honrar a memória de uma das principais referências brasileiras na luta contra o racismo e pela equidade de gênero e raça do Brasil. A exposição, segundo material de apoio, está dividida entre fotografias e audiovisuais (registros de vida e atuação política); objetos de memória (artefatos pessoais, publicações e documentos históricos); legado político e social (contribuição para o movimento negro e políticas públicas) e instalações interativas (experiências). Começando por uma linha do tempo que pontua as vivências de maior destaque na vida pública de Luíza, passamos por fotografias, réplicas de artigos de sua lavra, cartazes de momentos ímpares de sua trajetória. Uma das imagens traz uma Luiza Bairros, também ela, empunhando um microfone e fazendo soar seus apelos em cima de um trio, na I Marcha das Mulheres Negras, em 2015, evento que ajudou a fazer. No ano seguinte, ela partiria, em 12 de julho, acometida por um câncer de pulmão. Luiza Bairros chegou e saiu do mundo físico em uma Porto Alegre conhecida por sua exclusão e preconceito à população negra – tão invisibilizada na capital gaúcha que muitos pensam nem existir. De acordo com a curadoria, sua ligação com o bairro Colônia Africana, território que abrigou ex-escravizados e onde teve origem sua família, fez com que Luiza soubesse, desde sempre, quem era, de onde vinha e reconhecesse a cor da sua pele como determinante social. O que, no entanto, ganhou novas dimensões quando foi morar, no final dos anos 70, em uma Salvador conhecida como Roma Negra, a cidade de maior população negra do Brasil. E lugar no qual, pode-se dizer, ela se encontrou, fincou raízes e de onde lançou brotos e galhos que alcançariam dimensões globais. Não apenas por ela, mas por toda a população negra brasileira, Luiza Bairros sabia que essa luta deveria acontecer a partir de diferentes ringues – e ela ocupou, com maestria, todos eles. Na academia, no movimento estudantil, ao submeter seu nome em eleição para cargo eletivo, na política partidária, em cargos de confiança em governos municipais e estaduais, em organismos internacionais, em solos estrangeiros, em discursos e posicionamentos históricos, em conferências promovidas pela Organização das Nações Unidas (ONU). Como titular da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), órgão-semente do atual MIR, sob sua liderança denúncias importantes e conquistas igualmente salutares para a sobrevivência do povo negro, em especial da juventude negra, foram implantadas. A exposição abre espaço para sublinhar algumas delas. Destacando a figura de Luiza Bairros como a “Memória viva da luta feminista e negra no Brasil”, a homenagem é um bom começo para que se conheça seu legado e sua história de vida. Mas é importante lembrar que há mais a ser catalogado, registrado, recuperado e, sempre, enriquecido e mostrado à população. A exposição se ateve, na maior parte de seu conteúdo, a mostrar aspectos da vida pública da administradora, com mestrado e doutorado em sociologia. Mas, talvez aí, tenha perdido a oportunidade de humanizá-la, cuidado que permeou sua militância junto ao povo negro. “Todos somos humanos, e a resistência aos processos desumanizadores do racismo é, de longe, a maior contribuição dos negros à cultura brasileira”. Aspectos biográficos que aprofundassem e instigassem a descoberta ou o (re)conhecimento sobre afetos, vida familiar, predileções, amizades, hobbies e traços de sua personalidade ajudariam na montagem de um mosaico que aproximasse Luiza dos ainda distantes e serviriam como uma ponte emocional ainda mais firme a ligá-la aos que compartilharam de sua existência. Algo que não está posto é que Luiza atuou no teatro – em cima dos palcos, como atriz, e nos bastidores, nas montagens, textos e contextos. A missão
Sueli Carneiro recebe honraria de intelectual do ano pelo Juca Pato de 2025
Por Jefferson Barbosa, para a Folha de S. Paulo. A filósofa e escritora Sueli Carneiro, de 75 anos, foi agraciada na noite de sexta-feira com o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano. O reconhecimento é concedido pela União Brasileira dos Escritores, a UBE, e celebra o lançamento no ano passado de “Lélia Gonzalez: Um Retrato”, da editora Zahar, escrito por Carneiro e que trata de um ensaio biográfico sobre outra intelectual do movimento feminista latino-americamo. A entrega do prêmio se deu durante a Flipetrópolis, festa literária que está na sua segunda edição acontecendo na região serrana do Rio de Janeiro. Em seu discurso, Sueli Carneiro agradeceu às pessoas que a antecederam na apresentação do prêmio e destacou como o momento representa um deslocamento histórico, já que, até cinco anos atrás, todos os laureados pela premiação foram brancos, em sua maioria homens. A premiada saudou ainda Lélia Gonzalez que, nas suas palavras, foi o farol para entender o que queria ser como militante. A autora também prestou tributo à escritora mineira Conceição Evaristo, que subiu a serra fluminense já completando 79 anos neste sábado em meio a outro festival literário, a Flup. “Ser reconhecida, hoje, como uma das principais vozes do pensamento nacional é algo inusitado. Inusitado não no sentido da inadequação, mas do deslocamento histórico que revela. Sou antes de tudo uma militante negra, feminista e antirracista.” Reverenciou Abdias Nascimento. “É desse passado que brota o espanto que sinto diante das homenagens que eu, Conceição, Lélia e tantas outras temos recebido. Não porque não as merecemos, mas porque sabemos a distância histórica para nós.” Da americana bell hooks trouxe a frase”mais que qualquer grupo de mulheres as negras tem sido consideradas só corpos sem mente” e depois leu um poema de Fernanda Bastos sobre o leilão de mulheres negras como amas de leite durante a escravidão. Mais adiante fez um destaque sobre a contradição do momento “porque longe de amainar, o conflito racial se acirra no Brasil”. “A ascensão global e nacional da extrema direita traz em seu bojo a agudização das práticas racistas, e sobretudo da violência racial. A brutalidade que ceifou 121 vidas nos complexos do Alemão e da Penha atesta esse recrudescimento. São corpos negros, sempre corpos negros, transformados em alvos legítimos de políticas de morte.” Antes a jornalista Flávia Oliveira, articulista do canal GloboNews apresentou Carneiro para o público destacando o papel da filósofa a partir de seus livros e traços do seu comportamento, como não falar de improviso, mas escrever e também o papel da ganhadora do prêmio na Conferência de Durban, e consequentemente na implementação das políticas de ações afirmativas e mais recentemente a incidência sobre reparação pelo empoderamento econômico no sistema internacional de direitos humanos. A eleição para o prêmio acontece a partir de indicações da própria união de escritores e de outras entidades do meio literário, a votação entre associados da UBE. Em edições anteriores foram agraciados os escritores Ailton Krenak, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Milton Hatoum, o professor e crítico literário Antonio Candido, o diplomata e imortal Alberto da Costa e Silva, da ABL, o economista Bresser-Pereira, dom Evaristo Arns e o padre Júlio Lancellotti. Na ocasião, a jornalista Miriam Leitão e Conceição Evaristo, agraciadas respectivamente em 2024 e 2023, falaram no Palácio de Cristal, localizado no centro de Petrópolis, no Rio de Janeiro. “O que é incrível na Sueli, é que ela é pensadora e ela é ação”, disse Leitão, sobre a autora. Evaristo destacou como é bom abrir caminho e não apenas ser a primeira, se referindo a ter sido a primeira mulher negra ganhando o prêmio. “Se todas mulheres negras tivessem sido tão corajosas como você, várias outras mulheres negras estariam aqui celebrando com você, estamos em tempo mas ainda falta muito.” Doutora em filosofia da educação pela Universidade de São Paulo, Sueli Carneiro foi a primeira mulher negra a receber o título de doutora honoris causapela Universidade de Brasília em 2021. Antes, foi uma dos fundadores do Geledés, o Instituto da Mulher Negra, organização que visa combater o racismo e o sexismo no Brasil. Em 2022, foi reconhecida como personalidade literária do ano pelo Prêmio Jabuti. Ao fim do discurso, a autora fez uma convocação aos presentes. “Por um Brasil capaz de reconhecer, celebrar e aprender com todas as suas vozes —especialmente aquelas que por tanto tempo foram silenciadas. Para nós, é tempo de insurgência, mas há também a urgência de reencantamento do mundo. Disso depende a possibilidade de um novo futuro. Que estejamos à altura desses desafios.” Leia a matéria completa aqui.
Marcha das Mulheres Negras, maior ato do movimento em uma década, reúne 300 mil na capital federal e recoloca Reparação no centro do debate público
Foto: Bruno Peres/Agência Brasil Cerca de 300 mil mulheres negras de todas as regiões do país marcharam, em 25 de novembro, pela Esplanada dos Ministérios, em uma das maiores mobilizações sociais registradas na capital federal nos últimos anos. A marcha reuniu mulheres negras de perfis diversos, incluindo quilombolas, trabalhadoras urbanas, lideranças comunitárias, representantes de organizações internacionais, parlamentares, pesquisadoras e coletivos de juventude, o que evidenciou o caráter nacional e plural da mobilização. A presença expressiva reflete a consolidação de uma agenda política articulada em torno da Reparação e do Bem Viver, apresentada como horizonte estratégico para enfrentar desigualdades raciais persistentes no país. Durante o ato, foi lançado o Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que sustenta que a democracia brasileira permanece condicionada pela herança da escravidão e por estruturas coloniais que seguem moldando políticas públicas, distribuição de renda, acesso à terra e dinâmicas de violência estatal. O documento apresenta medidas materiais, simbólicas e institucionais de reparação e defende que o Estado e setores privados historicamente beneficiados assumam responsabilidade pelo legado da escravização. Passados dez anos da mobilização de 2015, a comparação entre os manifestos revela mudanças na orientação política do Movimento. O documento de 2015, preservado no acervo do Centro de Documentação ÌROHÌN, tinha como foco central a denúncia da violência policial, do genocídio da juventude negra e da exclusão sistemática das mulheres negras do mercado de trabalho, da educação e dos espaços de poder. Já o manifesto de 2025 expande esse diagnóstico ao situar essas violações dentro de um sistema mais amplo de colonialidade, relacionando desigualdades raciais às crises climáticas, à concentração fundiária, ao avanço de políticas autoritárias e aos impactos econômicos e sociais do período pós-2016, o que evidencia um amadurecimento da pauta. A Marcha ocorreu em um dia marcado pela prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, fato que concentrou a atenção da imprensa nacional e reduziu a visibilidade da mobilização. Ainda assim, consideramos um ato politicamente bem-sucedido. A capacidade de reunir centenas de milhares de pessoas, apesar do bloqueio de parte da mídia tradicional, indica o enraizamento da pauta e o fortalecimento das redes que articulam o Movimento de Mulheres Negras em todo o país. A mobilização de 2025, uma década após a primeira Marcha, representa uma nova etapa na disputa por políticas de reparação e por modelos alternativos de desenvolvimento e justiça. O Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver está disponível para leitura integral no site da organização: https://marchadasmulheresnegras.com.br/manifesto-das-mulheres-negras-por-reparacao-e-bem-viver/
Zanin reconhece violações contra população negra, mas afasta estado de coisas inconstitucional
Em voto, ministro reconheceu graves violações a preceitos fundamentais, mas afastou a declaração do estado de coisas inconstitucional. Por: Migalhas Quentes Em voto proferido durante sessão do plenário do STF que julga ação sobre violações de direitos da população negra, ministro Cristiano Zanin reconheceu violações contra a população negra e afastou a declaração de estado de coisas inconstitucional. Situação de insuficiência Zanin iniciou destacando “o brilhantismo do voto proferido pelo eminente ministro Luiz Fux”. Para S. Exa., a compreensão do racismo estrutural como fruto da formação do Estado brasileiro “explica o próprio cenário de extrema desigualdade racial existente no Brasil”. No entanto, ao analisar o pedido para reconhecimento do estado de coisas inconstitucional, o ministro apresentou ressalvas. S. Exa. observou que a AGU apresentou providências já adotadas, e mencionou ter recebido informações sobre ações implementadas. Para Zanin, há insuficiências, mas não inércia do poder público: “existe uma situação de insuficiência, talvez, mas não uma omissão atual que justificasse (…) o reconhecimento do estado de coisas inconstitucional”, afirmou. Nesse sentido, citou precedentes recentes em que o STF recusou a declaração, como a ADPF 635, relatada pelo ministro Edson Fachin, e a ADPF 760, da relatoria da ministra Cármen Lúcia, em ambos os casos pela inexistência de omissão atual. Diante disso, afirmou que seu voto se encaminha no sentido de reconhecer as graves violações a preceitos fundamentais, apoiando as medidas propostas por Fux, especialmente quanto à elaboração ou incremento de um novo plano nacional de enfrentamento ao racismo estrutural. Porém, concluiu que, diante das iniciativas estatais em curso e dos compromissos já assumidos, não caberia o reconhecimento do estado de coisas inconstitucional. ADPF 973 A ADPF 973 foi proposta por sete partidos políticos, que sustentam haver violações estruturais e sistemáticas contra a população negra no Brasil e pedem que o STF reconheça o racismo estrutural como elemento que produz desigualdades em diversas áreas, além de requerer medidas concretas e coordenadas de reparação e enfrentamento. Em voto, o relator, ministro Luiz Fux, reconheceu o estado de coisas inconstitucional relacionado ao racismo estrutural no país e apontou que políticas públicas voltadas à igualdade racial seguem ineficazes. O julgamento foi suspenso e até o momento o entendimento de Zanin foi acompanhado pelos ministros Nunes Marques, André Mendonça, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. O placar conta com 5 votos a 3. Leia o texto em: https://www.migalhas.com.br/quentes/445279/zanin-reconhece-violacoes-contra-populacao-negra
A guerra é branca. A luta, negra: marchando por um armistício para o Brasil – Por Ana Luiza Flauzina
Enquanto nos gabinetes se celebra a política da morte, nós, mulheres negras, seguimos apostando na vida. Marchamos exaltando a política real da vida, da qual somos protagonistas absolutas. Postado em: Correio Braziliense Ana Flauzina, professora da Faculdade de Educação e do programa de pós-graduação da Universidade Federal da Bahia, tem mestrado em direito (UnB) e doutorado em direito (American University Washington College of Law) É do fundo da alma, do canto do peito em que pulsa verdade, amor e compromisso, que deságuam essas palavras. Sei que de mim se esperam as linhas retas, as respostas prontas, as sentenças definitivas. Mas não posso dar o que não tenho. Desde o dia 28 de outubro, estou mergulhada no silêncio, tentando achar um beco de saída para esse labirinto sem mapa. Não que haja novidade em termos de tragédia. Afinal, em que rincão do Brasil o rio do sangue negro não jorra? Mas houve ali a assinatura pública de um projeto de país que celebra a morte e nos convoca a aderir ao terror. Falo desse mundo criado pelos homens e para os homens. Esse mundo masculino e, indiscutivelmente, branco, que gestou a tragédia brasileira e, agora, se arvora a apresentar soluções para o colapso. São homens engravatados determinando operações — muitos expostos em CPIs das milícias e das armas; homens fardados executando ordens; homens armados coordenando facções; homens togados chancelando matanças. Essa estética da violência é a disputa de um grupo de homens sobre outros — e de todos eles sobre nós. Neste mundo, a masculinidade é semantizada como violência. E a virilidade armada, sabemos, pertence à mesma constelação dos red pills que naturalizam a predação, dos videogames que transformam a morte em passatempo e das músicas que exaltam o domínio masculino sobre as mulheres. Trata-se de um continuum de violência, que vai da forma como meninos aprendem a desejar até a maneira como o Estado define suas políticas de segurança. O resultado está nos números: segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é vítima de feminicídio a cada seis horas. 63,6% são negras. Armas de fogo são usadas em quase um quarto dos casos. As respostas oferecidas a esse quadro são tão perversas quanto ineficazes. De um lado, a autodefesa individual, com sprays de pimenta vendidos como símbolo de empoderamento; de outro, a cumplicidade das instituições que tomam como referência modelos internacionais com cheiro de testosterona, como o de El Salvador. Enquanto nos gabinetes se celebra a política da morte, nós, mulheres negras, seguimos apostando na vida. Apesar de excluídas das instâncias decisórias, produzimos há décadas propostas ignoradas pelo Estado, especialmente no âmbito da segurança pública. De imediato, propomos a pavimentação de um caminho de volta para os jovens envolvidos no tráfico. A pesquisa Raio-X da Vida Real confirma o que já sabíamos: 58% sairiam se tivessem uma alternativa real. Muitos já circulam entre atividades lícitas e ilícitas, fazendo bicos e tentando construir alguma estabilidade em meio ao caos. Cabe pontuar que são filhos da pobreza: para 29% dos entrevistados, o principal motivo para gostar da escola era a merenda. Quando perguntados por que sairiam, respondem com a lógica da sobrevivência: emprego formal, chance de abrir um pequeno negócio, trabalho com flexibilidade ou possibilidade de constituir família explicam 57% das motivações para abandonar o tráfico. Esse caminho exige um armistício efetivo: cessar-fogo mediado por comunidades e lideranças femininas; possibilidade segura de devolver armas; interrupção da produção clandestina e políticas de apagamento progressivo da ficha criminal, num processo que substitua as políticas de punição estéreis por um projeto de responsabilização social dos indivíduos. Medellín mostrou que não é utopia: anistia parcial, reintegração e presença urbana reconstruíram uma cidade que, nos anos 1980 e 1990, ostentou uma das maiores taxas de homicídios do mundo. Também é urgente reduzir as armas em circulação. E isso, obviamente, não se faz revistando mochilas de adolescentes negros, mas atuando onde o poder opera: fronteiras por onde entram fuzis, portos que liberam carregamentos, clubes de tiro e CACs usados como fachada, arsenais das forças de segurança que abastecem milícias. Ao se controlar as armas, controla-se a violência que macula tanto os homens na esfera pública quanto as mulheres, no silêncio do privado. Amanhã, ao tomarmos as ruas de Brasília, marchamos para impedir que a segurança pública seja patenteada como guerra. Marchamos exaltando a política real da vida, da qual somos protagonistas absolutas: donas da economia do cuidado, da sobrevivência e da intelectualidade crítica radical. Fato é que a transformação efetiva do Brasil só será possível com as mulheres negras na vanguarda das decisões políticas. Abrir mão de nós é abrir mão das agentes que acumulam mediação, gerenciamento de conflitos e horizonte de conciliação. Pelos últimos movimentos no Planalto Central, esse reconhecimento ainda está longe de ser efetuado, considerando a nomeação de um homem branco para o Supremo Tribunal Federal em pleno Dia da Consciência Negra. Apesar de muitos quilômetros históricos separarem a política da vida da política de gabinetes, o diagnóstico continua inescapável: a paz — que não se consolida com a ausência de conflito, mas com a presença de justiça — é um substantivo feminino negro. E outro caminho para o país só será possível quando se abrir, de fato, um caminho para nós.
Acesse gratuitamente a edição comemorativa da Separata da Marcha Zumbi dos Palmares de 1995, documento histórico do ato que marcou a transformação do debate sobre racismo e cidadania no país
Por ÌROHÌN Em 20 de novembro de 1995, milhares de mulheres e homens negros atravessaram Brasília afirmando um projeto de futuro. No tricentenário de Zumbi, a Marcha Contra o Racismo, Pela Cidadania e a Vida marcou um capítulo decisivo da história política brasileira. As imagens de Carlos Moura, hoje também disponíveis no acervo digital do ÌROHÌN, registraram uma Esplanada tomada por faixas e cartazes que anunciavam um horizonte comum: Zumbi vive. O passado era convocado como força de disputa no presente, associado ao direito à vida, à moradia, ao trabalho digno, à terra para as comunidades quilombolas, à saúde, à educação e ao fim da violência policial. Como escreveu Edson Cardoso, o Movimento Negro havia constituído, com Palmares no centro, uma identidade coletiva capaz de reivindicar direitos sociais, culturais, econômicos e políticos, protestando, cantando e dançando. A Marcha de 1995 foi um gesto de reorganização da memória e da política, capaz de deslocar o debate nacional e exigir do Estado ações concretas contra o racismo e a desigualdade racial. A Separata da Marcha, que lançamos agora em edição comemorativa, reúne as vozes, as imagens e o programa político que o Movimento Negro apresentou ao país, fruto da mobilização de entidades, sindicatos, movimentos populares, organizações de mulheres negras e comunidades rurais. É também um registro de sua força política, pois ao ampliar e projetar nacionalmente vozes que há décadas desmontavam o mito da democracia racial, a Marcha de 1995 consolidou um novo ciclo de ação coletiva e disputa pública. A disponibilização desta separata se insere na véspera da Marcha de Mulheres Negras de 2025, que mais uma vez convocará o país a encarar as violências que persistem contra a população negra. A luta contra o racismo, pela cidadania e pela vida segue orientando novas gerações de mulheres negras que insistem em projetar um futuro de dignidade, liberdade e justiça. Esta edição é um convite ao estudo e ao compromisso. Que as imagens e as palavras de 1995 reforcem o que o Movimento Negro ensinou ao país: a democracia brasileira só avança quando negras e negros avançam. Baixe gratuitamente aqui.
Apenas 24% das cidades brasileiras têm estrutura específica para promover políticas de igualdade racial, diz IBGE
Entre os municípios com mais de 500 mil habitantes, no entanto, percentual salta para 95,8%. Todos os governos estaduais possuem equipamentos para implementar ações do tipo Por Yago Godoy Apenas 24% dos municípios brasileiros têm equipamentos específicos para promover políticas de igualdade racial na administração pública. O percentual representa 1.331 cidades, conforme informações inéditas da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) e Estaduais (Estadic) de 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), divulgada nesta sexta-feira. Dos 5.570 municípios do país, 20 não responderam ao IBGE. Do total de cidades que promovem tais políticas, em 1.326 delas as estruturas estão ligadas à administração direta, ou seja, integradas diretamente ao Poder Executivo municipal. Nesse sentido, somente 34 prefeituras (0,6%) possuem secretarias exclusivas, e em 1.183 (21,3%) o setor responsável é subordinado a outra secretaria. Em 982 cidades (73,8%), quem lidera as respectivas estruturas são mulheres. No Nordeste, a taxa geral salta 32,3%, enquanto na região Sul cai para apenas 15,4%. O Sudeste e o Centro-Oeste também se encontram abaixo da média nacional, com percentuais de 21% e 23,1%, respectivamente. Na região Norte, a taxa é de 25,3%. O baixo percentual nacional, no entanto, que representa menos de 1/4 das cidades brasileiras, é puxado pelos locais com população pequena. Entre os municípios com mais de 500 mil habitantes, por exemplo, 95,8% contam com os equipamentos específicos para isso na administração pública, embora somente 4,2% deles tenham secretarias exclusivas. Gerente de Pesquisas de Indicadores Sociais do IBGE, Vânia Pacheco afirma que a tomada de decisões para o desenvolvimento de políticas públicas eficazes precisa estar baseada em “evidências fundamentadas”, o que torna o levantamento sobre igualdade racial na administração pública “essencial” para a disseminação de novas ações nesse sentido no país. Leia a matéria completa em: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/10/31/apenas-24percent-das-cidades-brasileiras-tem-estrutura-especifica-para-promover-politicas-de-igualdade-racial-diz-ibge.ghtml?utm_source=aplicativoOGlobo&utm_medium=aplicativo&utm_campaign=compartilhar