Baixe aqui Proposta Nº 76 Março/Maio de 1998 ‘Sigo em frente fazendo aquilo que sei que é o meu dever’, disse Abdias, e questionou: ‘Por que não podemos ter amor ao nosso povo? Fundador do Teatro Experimental do Negro. Economista. Autor, entre outros livros, de: “O Genocídio do Negro Brasileiro”, “O Quilombismo”. Artista plástico. Senador pelo Rio de Janeiro Proposta – É possível falar de cultura sem falar de raça no Brasil? Abdias – Possível é, na maneira falsa como tem sido no Brasil. Aqui fala-se de cultura porque eles importaram uma cultura e a impõem sobre o povo. Sobretudo sobre os segmentos de origem africana que trouxeram da África os seus próprios valores culturais e que aqui foram submetidos a essa degradação, a esse recalcamento, pois ficam sempre submetidos a uma teia de exercícios que distorcem, falsificam, criam uma imagem não verdadeira. Até há pouco tempo, as coisas que os africanos trouxeram para cá eram sempre tidas como folclóricas, como, por exemplo, no caso das religiões tidas como cultos animistas. As línguas não eram línguas, eram dialetos. Nunca se levou em consideração um pensamento filosófico africano válido como uma experiência de educação para o sistema educacional no Brasil. As coisas importantes que os africanos trouxeram foram simplesmente menosprezadas e até mesmo desdenhadas, tidas como completamente fora do nosso contexto, pois até os seres humanos que trouxeram esses valores também eram considerados quase como que estrangeiros, figuras exóticas, pitorescas, etc. Para se falar de uma cultura verdadeira no Brasil temos que falar exatamente nas matrizes indígenas e africanas dessa cultura. Caso contrário, haverá sempre uma falsificação disso que se chama cultura no Brasil. A componente raça não pode ser dissociada da cultura brasileira. Vamos mais uma vez advertir os racistas intermitentes que, quando falamos em raça, é sempre no sentido histórico-sócio-cultural, e não no sentido biológico. Vamos advertir mais uma vez, porque eles insistem em embaralhar as coisas. Neste sentido, a raça negra tem todo o direito de dizer que a cultura brasileira é uma cultura africana. Não somente no sentido quantitativo da maioria do nosso povo, que é de origem africana, mas também pela importância que ele exerce como fator de construção da nossa idéia, do nosso pensamento, disso que se chama de cultura. Agora, uma coisa mais escandalosa e mais incompreensível é que essa classe que tomou conta deste país desde a Descoberta pensa que isso não existe e quer subestimar a sua importância até hoje. Por isso, os nossos sistemas oficiais ou convencionais de cultura, de educação, etc. não dão a menor atenção, não dão “a menor pelota” a isso que nós trouxemos para aqui como grande contribuição para a formação deste país. Onde é que já se viu, por exemplo, um ensino de 1o grau como esse do Brasil, meu Deus do céu?! Se nós tivéssemos realmente aquilo que o Fernando Henrique Cardoso disse, com muita impropriedade sobre os políticos do Norte e Nordeste, “que eles não tinham vergonha na cara”, se o Brasil, de uma maneira geral, tivesse vergonha na cara, veríamos que estamos fora do tempo e o que estamos fazendo é um anacronismo no mundo de hoje. Nem a África do Sul ousou tanto. Querer dizer que a maioria do nosso povo, que é de ascendência africana, é igual, tem os mesmos direitos; que não há cultura verdadeiramente africano-brasileira é querer desmerecer, é querer perpetuar essa imagem ainda do tempo da escravidão de que o africano nem é cidadão, é um ser de segunda classe. Os fatos desmontam completamente essa versão da imagem do africano no país. E infelizmente, por força dessa pressão, por força desse tipo de dominação racial, muitos africanos brasileiros corroboram essa forma de atuação das classes dirigentes e até ajudaram, como, por exemplo, Nina Rodrigues e outros das chamadas ciências psiquiátricas. Porque o negro, até bem pouco tempo, era uma matéria da psiquiatria, não dos direitos humanos e nem da ciência humana. Era puramente um elemento, um objeto de Ciência Psiquiátrica. E muitos desses psiquiatras que praticaram esse desvio científico, que é mais um crime contra os africanos, eram também de origem africana. No processo da formação econômica do Brasil, o negro foi decisivo – se não fosse o trabalho do africano escravizado não havia economia no Brasil. Tudo se deve ao esforço, ao suor, ao sangue e ao martírio da vida dos africanos. Mas também nos outros níveis da construção do país, sobretudo, na construção de uma espiritualidade brasileira, que é exatamente o vetor mais forte da identidade de um povo, isso aí é super africano. É verdade que esses elementos, até agora, não têm transcendido os limites da própria comunidade de origem africana, porque esta, até hoje, é uma comunidade encurralada, recalcada dentro do status que lhe é permitido pela dominação. Mas isso, eu estou falando de uma forma muito relativa porque o movimento negro tem expandido essa presença em todos os níveis, no nível do emprego, da participação política e no nível também da sua força e das suas crenças. Esse espaço está realmente se alargando e hoje está fugindo do controle dessas instituições que sempre nos asfixiaram e manipularam. Eu tenho toda a certeza (já não é mais uma crença nem uma profissão de fé que pode se desvanecer), eu tenho a consciência muito clara de que nós estamos às vésperas de o africano brasileiro, a comunidade de origem africana ter realmente o domínio de todas as esferas da vida do país. Não por uma questão de imposição nem de ambição, mas por uma questão natural de matemática, pois nós somos a maioria. Falamos sempre em democracia e ela é justamente a predominância das maiorias, então, é um movimento natural. O que o tem impedido é esse controle que tem tido uma grande eficácia, pois é introjetado na comunidade negra, de que ela não possui potencial, força, direito, capacidade. Mas, o movimento negro está destruindo estes mitos e o monopólio de posição, de comando da sociedade, também está sendo derrubado. Proposta – Senador, esse
Brasil Paralelo usou documento falso para atacar Maria da Penha
Fonte: Agência Pública. Acesse a matéria completa aqui. Investigação da Procuradoria-Geral do Ceará apontou inconsistências nos registros apresentados pelo documentário Por Amanda Audi Investigação sigilosa da Procuradoria-Geral de Justiça do Ceará, a que a Agência Pública teve acesso, mostra que a produtora Brasil Paralelo usou um laudo falso em um documentário sobre a Lei Maria da Penha, um marco na proteção das mulheres contra a violência doméstica. A investigação apura a existência de uma estratégia organizada para invalidar a lei e desacreditar a ativista. Segundo a investigação, o documentário aponta, falsamente, que teria ocorrido uma troca de laudos periciais nos autos do processo para favorecer a condenação do ex-marido de Maria da Penha, Marco Antonio Heredia Viveros. O filme mostra um suposto “laudo” que estaria em posse do ex-marido e não teria sido juntado ao processo. Viveros tentou assassinar Maria da Penha duas vezes em 1983. Primeiro, ele deu um tiro em suas costas enquanto ela dormia – que a deixou paraplégica. Viveros disse à polícia que havia sido uma tentativa de assalto, em que ele também teria ficado machucado. Mas a versão foi posteriormente desmentida pela perícia. Quatro meses depois, quando Maria da Penha voltou para casa, ele ainda a manteve em cárcere privado e tentou eletrocutá-la durante o banho. O laudo falso mostrado pela Brasil Paralelo aponta que Viveros teria ferimentos que corroboram a sua versão de que foi rendido por assaltantes. No entanto, a análise pericial da Polícia Forense do Ceará mostra que o laudo é uma “montagem”. A perícia encontrou várias inconsistências: baixa qualidade de imagem, diferenças de espaçamento entre linhas, de assinaturas e imagem de carimbos e até erro de datilografia. “Dúvidas não há acerca da montagem do referido documento, utilizado, igualmente, no referido documentário da plataforma BRASIL PARALELO.”, disse o Ministério Público. Os investigadores também tiveram acesso às mensagens de um grupo de WhatsApp chamado “Investigação Paralela – Maria da Penha”, que foi obtido no celular de Alexandre de Paiva, um influenciador que recebeu medida protetiva, foi afastado das filhas e, desde então, move uma campanha para descredibilizar a lei. Ele é um dos entrevistados do documentário. No grupo, um produtor da Brasil Paralelo pergunta se Viveros tem “esse documento original”, “antes de ser adulterado”. O advogado de Viveros responde que havia digitalizado e enviado a Paiva, que ficou de mandar para a produtora. Após citar essa troca de mensagens, o relatório transcreve um áudio enviado por Henrique Zingano, diretor do documentário. “Então tem tudo aí para ser um… uma puta resposta, assim pros caras, e… acabar com essa história de Maria da Penha de uma vez por todas”. Nos trechos tornados públicos da investigação, não há menção de que os produtores do documentário perguntaram ou tentaram checar sobre a veracidade do laudo. A Pública pediu esclarecimentos ao Brasil Paralelo, que ainda não respondeu. O espaço permanece aberto. O documentário com o laudo falso foi usado por Viveros como argumento para reabrir a produção de provas do caso. Em março deste ano, a Advocacia-Geral da União (AGU) ajuizou uma ação civil pública contra a Brasil Paralelo, pedindo indenização de R$ 500 mil por danos morais coletivos por desinformação sobre o caso Maria da Penha. A investigação aponta ainda que o documentário não seria “um movimento espontâneo” de liberdade de expressão, mas sim “algo estruturado para atacar a imagem da Sra. Maria da Penha, o julgamento realizado pelo sistema de justiça do Ceará, na tentativa de minar a base de criação da Lei Maria da Penha e ainda, lucrar” (negrito do original). O documento cita um áudio de Ricardo Ventura, outro entrevistado no documentário: “Vamos fazer… soltar o podcast e depois monetizar dentro da gente. Porque ganhar dinheiro não é pecado! Então é fazer a coisa certa e também monetizar da maneira correta para que todo mundo ganhe. Porque todo mundo botou energia, todo mundo botou tudo também. Entendeu?”, ele disse em um áudio enviado ao grupo de WhatsApp MARIA X MARCO”, também obtido do celular de Paiva. Extratos bancários do influenciador mostram que ele recebeu R$ 7,6 mil em depósitos do Google e R$ 1,6 mil do Meta. A Pública já mostrou que a Brasil Paralelo gastou pelo menos R$ 305 mil para impulsionar 575 anúncios promovendo o documentário. A segunda fase da operação Echo Chamber, deflagrada na semana passada, cumpriu mandados de busca e apreensão contra Viveros. A 9ª Vara Criminal de Fortaleza também determinou a suspensão de todos os episódios do documentário da Brasil Paralelo pelo prazo de 90 dias. A investigação segue. O documentário passou a ser investigado por mostrar informações distorcidas para gerar descrédito sobre a lei e promover discurso de ódio. A investigação criminal visa elucidar possíveis crimes de perseguição e campanha de ódio praticados contra Maria da Penha. A possibilidade de o laudo mostrado no filme ser falso foi levantado pela influenciadora sobre direitos femininos Caroline Sardá, que teve acesso ao original e enviou as suspeitas ao Ministério Público. Depois da onda de ataques, Maria da Penha, símbolo da luta contra a violência contra a mulher no Brasil, teve que ser incluída no Programa de Proteção a Defensores dos Direitos Humanos. Edição: Mariama Correia
Encontro de escritoras negras do DF chega à 5ª edição com homenagens e lançamentos
Foto: Gilberto Soares (IV Encontro Julho das Pretas que Escrevem no DF – 2024) Encontro literário promovido pelo coletivo Coletivo Julho das Pretas que Escrevem chega à quinta edição com homenagens, lançamentos de livros e sarau no Museu Nacional da República No próximo dia 26 de julho, o Museu Nacional da República, em Brasília, recebe a quinta edição do encontro Julho das Pretas que Escrevem no DF, atividade literária que celebra a produção de mulheres negras e marca o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, além do Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. O evento acontece das 14h às 18h e integra a programação do Festival Latinidades 2025. Neste ano, o tema escolhido é “Escrever o afrofuturo“. O encontro homenageia quatro mulheres que atuam com a palavra: as escritoras Andressa Marques, Ramila Moura e Ana Rossi, a jornalista Juliana Cézar Nunes, e a compositora e Mestra Martinha do Coco. A programação inclui rodas de conversa, sarau, lançamento e venda de livros e apresentações artísticas. A entrada é gratuita, mediante inscrição via formulário disponível nas redes sociais do coletivo (@julhodaspretasqueescrevemdf). O público geral pode acompanhar as instruções do Festival Latinidades para retirada de ingressos. Criado em 2021, o coletivo Julho das Pretas que Escrevem no DF reúne hoje cerca de 70 autoras, entre poetas, cronistas, romancistas, escritoras de literatura infantojuvenil e outras profissionais da cadeia do livro, como editoras, revisoras, capistas e ilustradoras. A proposta do encontro é fortalecer redes, fomentar a troca entre autoras negras do Distrito Federal e valorizar sua produção, muitas vezes invisibilizada no cenário nacional. Entre os lançamentos previstos estão a coletânea “Oralidade agora se escreve“, organizada por Lia Vieira, com homenagem à matriarca Lydia Garcia; o livro “Ananse“, de Nanda Fer Pimenta, e a obra “Ipês não são domesticáveis“, de Waleska Barbosa. A poeta Kaju, que participa do encontro desde sua criação, resume o espírito da iniciativa: “Faz a gente se sentir menos sozinha como escritora negra. Pelo menos eu, saio de lá nesse clima maravilhoso sempre presente no nosso encontro que é de autoestima, coletividade, mulheres pretas juntas saindo da solidão, da escrita solitária. Eu amo, me sinto viva e próspera” Homenageadas 2025 Programação – 26 de julho SERVIÇO Julho das Pretas que Escrevem no DF📅 26 de julho de 2025 (sábado)🕒 14h às 18h📍 Museu Nacional da República – Festival Latinidades📲 Informações e inscrições: @julhodaspretasqueescrevemdf
Movimento sociais iniciam campanha por justiça tributária e defendem mudanças no PL 1087/2025
Organizações da sociedade civil, movimentos negros, sindicatos e entidades de direitos humanos lançaram nesta semana uma campanha nacional em defesa da justiça tributária. O grupo apoia o Projeto de Lei 1087/2025, em tramitação no Congresso Nacional, que propõe mudanças no Imposto de Renda, com ampliação da faixa de isenção e tributação sobre os super-ricos. Embora considerem o projeto um avanço, os movimentos reivindicam emendas ao texto original, com foco na inclusão de mecanismos de avaliação de impacto racial e de gênero na política tributária brasileira. A proposta, segundo os organizadores, é que a nova legislação permita medir e corrigir distorções históricas no sistema de arrecadação do país. “O sistema tributário brasileiro não é neutro. Ele cobra mais de quem tem menos — e quem tem menos, no Brasil, tem cor, território e gênero”, afirma o manifesto que acompanha a campanha. “Sem justiça tributária, não há reparação. E sem reparação, não há democracia verdadeira.” De acordo com os signatários, os 0,15% mais ricos do país — um grupo majoritariamente composto por homens brancos com renda superior a R$ 1,2 milhão por ano — concentram mais de 14% da renda nacional, superando os 50% mais pobres somados. Já a ampliação da isenção prevista no projeto deve beneficiar 90% dos contribuintes, com impacto direto sobre mulheres, pessoas negras e trabalhadores com rendimento entre R$ 3 mil e R$ 7 mil mensais. Entre as medidas defendidas pelos movimentos estão: a tributação de lucros e dividendos, o fim das renúncias fiscais regressivas, a preservação dos pisos constitucionais da saúde e da educação, e a autodeclaração racial na Declaração de Imposto de Renda, nos moldes utilizados pelo IBGE. A campanha é assinada por dezenas de entidades, incluindo CEERT, Geledés, Instituto Peregum, Coalizão Negra por Direitos, Educafro, IPEAFRO, Instituto Marielle Franco, Oxfam Brasil, Nossas, entre outros. O manifesto pode ser lido e assinado no site: www.justicaeconomica.org
Inesc critica uso do Orçamento como moeda de troca política
O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) divulgou nota pública nesta semana em que critica a instrumentalização do orçamento público como moeda de troca no jogo político. A entidade alerta que essa prática compromete direitos fundamentais e agrava as desigualdades sociais no país. No documento, o Inesc afirma que o orçamento deve refletir o compromisso do Estado com a justiça social, a igualdade e a garantia de direitos, sobretudo para populações historicamente vulnerabilizadas. Segundo a organização, ao ser utilizado para atender interesses políticos de curto prazo, o orçamento perde sua função pública e democrática. A nota também aponta a crescente falta de transparência na alocação de recursos e defende a retomada do controle social sobre o processo orçamentário. Para o Inesc, é necessário ampliar a participação popular e fortalecer os mecanismos de fiscalização e acompanhamento da execução orçamentária. “A construção do orçamento deve estar a serviço da sociedade e de seus direitos, e não subordinada a barganhas políticas que aprofundam desigualdades”, destaca o texto. O posicionamento reforça a importância do orçamento como instrumento central de implementação de políticas públicas e afirma que sua gestão deve priorizar a redução das desigualdades e o fortalecimento da democracia. A íntegra do posicionamento pode ser acessada no site do Inesc.
Leia análise de Luíza Bairros motivada pela leitura do Relatório da Comissão Especial de Inquérito da Câmara de Vereadores de Salvador, que investigou, em 1999, o racismo no carnaval da cidade.
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado Com base em uma matéria veiculada no Fantástico, programa da Rede Globo de Televisão, dando conta da existência de racismo no carnaval de Salvador, a Câmara de Vereadores da cidade resolveu, por unanimidade, constituir uma Comissão Especial de Inquérito para apurar as denúncias. Instalada em 15 de março de 1999, e presidida pelo vereador Juca Ferreira, do Partido Verde, a Comissão desenvolveu um trabalho intenso de tomada de depoimentos das vítimas de discriminação, assim como realizou debates com a comunidade acadêmica e o movimento negro. Entretanto, o empenho de tantos quanto participaram deste processo no intuito não só de caracterizar a existência do racismo no carnaval, bem como de propor medidas para a reconfiguração da festa, foi frustrado pelas armadilhas da própria democracia racial, que pretenderam defender como um sonho possível e necessário. O tão esperado resultado da Comissão Especial de Inquérito sobre o Racismo no Carnaval de Salvador, num certo sentido, decepcionou duplamente, já que existiram dois relatórios. O primeiro relatório, fruto de um acordo penosamente construído pelo presidente da Comissão com os vereadores governistas, foi lido em sessão da Comissão aberta ao público, e já surpreendia pelos malabarismos analíticos. A necessidade de conciliar a idéia de uma Salvador que desenvolveu “formas de convivência e mestiçagem que não encontram paralelo no mundo”, com a exclusão dos negros até mesmo das manifestações por nós (re)criadas, não poderia ser levada às últimas conseqüências. Até porque, na visão do relatório, o racismo nosso de cada dia se resumiría às “piadas populares, aos rabiscos em elevadores e banheiros públicos, passando, evidentemente, pelo carnaval.” Já os indicadores sócio-econômicos que dão conta da exclusão profunda de mulheres e homens negros na cidade são tratados como algo separado do racismo revelado mais abertamente na linguagem popular. Os depoimentos, na Comissão, das pessoas discriminadas apenas confirmam o que já se sabia desde que, em 1974, o Ilê Aiyê surgiu como resposta ao racismo que, também no carnaval, se manifesta pela criação de espaços exclusivos da classe média branca. A rede armada pelos blocos de trio, hoje um codinome para blocos de brancos, assim como barra os negros também captura em sua malha os que moram em bairros onde a população negra é maioria, fechando um cerco onde alguns brancos “feios” acabam por serem colhidos. O racismo é assim. Assume aparências que tanto podem ludibriar os incautos, como servir aos interesses dos mal intencionados. Seja qual for o caso dos membros da Comissão, é certo que analisaram tal situação como a manifestação de três diferentes formas de discriminação – racial, estética e geográfica – que, embora entrelaçadas, revelariam dimensões do híbrido conceito de “preconceito social”. Importante notar que, ao falar da discriminação racial, o relatório alerta para o fato de que esta pode ser encontrada em blocos que não admitem brancos! A estas alturas, nem mesmo as digressões sobre a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial, que legitima as medidas tomadas por grupos raciais discriminados para assegurar seus direitos e liberdades fundamentais, são suficientes para tranqüilizar o (e)leitor sobre as possibilidades do resultados da Comissão. Jogando a questão de poder no ralo, o relatório abre espaço para o golpe final que viria a se concretizar, pouco mais tarde, num segundo relatório:blocos afro e blocos de branco são igualmente racistas! Aproveitando a ausência de Juca Ferreira, que participava de uma reunião política em Brasília, os governistas, capitaneados pelo vice-presidente Alcindo da Anunciação e pelo relator João Bacelar, convocam uma sessão extra da Comissão. Assim, aprovam um outro relatório, onde introduzem mudanças drásticas ditadas pelos donos de blocos de brancos, em conluio com setores da Prefeitura Municipal. O que já se afigurava como um pequeno monstro, talvez em função da necessidade de acomodar interesses e visões divergentes, agora se transforma numa peça acabada de conivência com o racismo. O segundo relatório, aprovado em plenário, em 18 de agosto de 1999, demonstra o quanto a Câmara de Salvador afasta-se dos interesses da população que diz representar para atrelar-se à vontade da minoria que, cada vez mais, define onde e de que modo podemos participar da vida da cidade. Na versão adulterada, trechos inteiros foram suprimidos no intuito de descaracterizar as denúncias e as recomendações para modificar os critérios de participação no carnaval. O que era “prova irrefutável” do racismo dos blocos de brancos, foi transformada em mero “indício”; os depoimentos que “indicavam” discriminação passaram a figurar como simples “sugestão” de práticas discriminatórias, por parte de pessoas negras “que se sentiram rejeitadas”. Neste caso, venceu a democracia racial que, sem dúvida, andava combalida pelos duros golpes desferidos pelo movimento negro nos últimos anos: o que conformava um corpo de evidências, respaldado até mesmo pelo Ministério Público, e no qual foram baseadas as recomendações feitas pela Comissão, passou a ser apenas “exemplos isolados de discriminação racial.” Recentemente, um militante negro com indiscutível conhecimento sobre a questão racial tanto na África como na diáspora, me dizia que, na América Latina, a classe dominante realmente acredita na ideologia da democracia racial. Eu tentava argumentar o contrário, procurando não cair na explicação simplista de uma conspiração contra nós negros, mas não conseguia um argumento que não deixasse dúvida no caso do Brasil. Relendo os relatórios, em especial a versão grosseiramente adulterada, acabei encontrando um bom exemplo do que tentei dizer naquela conversa. Se os brancos da Bahia, e os negros que para eles trabalham, acreditassem na democracia racial, o primeiro relatório teria sido levado a plenário na forma em que foi aprovado na Comissão. Embora vários blocos de brancos tenham sido citados nos depoimentos como racistas – A Barca, Cheiro de Amor, Eva, Nu Outro Eva, Pinei e Beijo – apenas A Barca foi notificada judicialmente, e a Comissão solicitou ao Ministério Público o envio do inquérito à Procuradoria Geral do Município. Ou seja, prevaleceu o princípio de que o racismo, se existe, é fato isolado. Além disto, as propostas para eliminar aspectos importantes que, no carnaval, facilitam as práticas racistas – ordem e horário dos
DIEESE critica política fiscal e defende revisão do arcabouço para ampliar investimento social
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) divulgou o Boletim de Conjuntura nº 46 com críticas ao atual modelo de política fiscal e alertas sobre os limites do novo arcabouço para enfrentar a desigualdade social no país. Segundo o boletim, a política de ajuste permanente imposta pelo regime fiscal em vigor compromete a capacidade do Estado de investir em áreas estratégicas como saúde, educação e infraestrutura, além de limitar políticas de geração de emprego e renda. O DIEESE defende a ampliação dos investimentos públicos como condição indispensável para o desenvolvimento, especialmente em um cenário de alta desigualdade. O documento afirma que o foco excessivo no equilíbrio das contas públicas, sem considerar as necessidades sociais, tende a aprofundar a exclusão. Para o órgão, o debate sobre a política fiscal deve incluir a revisão de renúncias tributárias, a tributação de altas rendas e a reformulação do próprio arcabouço fiscal aprovado em 2023. Embora destaque uma recuperação no mercado de trabalho formal — com crescimento de 3,9% nas vagas com carteira assinada no primeiro trimestre —, o boletim alerta para o baixo dinamismo dos salários e a queda na proporção de reajustes acima da inflação. O DIEESE também critica a manutenção de juros elevados e aponta riscos em propostas legislativas em tramitação, como a PEC da autonomia do Banco Central e a reforma administrativa. Leia o Boletim completo.
Obras de Awa Thiam e Cheikh Anta Diop chegam à coleção Biblioteca Africana
Créditos da Imagem: Editora Zahar. Chegam às livrarias brasileiras as edições em português de dois marcos do pensamento africano: Com a palavra, as pretas, da feminista senegalesa Awa Thiam, e Civilização ou barbárie, do historiador Cheikh Anta Diop. Os títulos integram a coleção Biblioteca Africana, da Editora Zahar. No primeiro, Awa Thiam propõe uma crítica à universalização da condição feminina ao destacar como a violência contra mulheres africanas é sistematicamente invisibilizada. Já a obra de Diop reúne décadas de pesquisa para sustentar a tese de que a África é o berço não apenas da humanidade, mas da própria civilização, incluindo as bases do mundo ocidental. As publicações contribuem para ampliar o acesso à produção intelectual africana e para o debate sobre racismo, história e identidade.
Luiz Augusto Campos e Márcia Lima lançam livro sobre 20 anos das cotas no Brasil
No próximo dia 3 de julho, às 19h, Salvador será palco de um encontro sobre políticas de ação afirmativa no Brasil. O Espaço Literatus da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) receberá o lançamento da obra “O Impacto das Cotas: Duas décadas de ação afirmativa no ensino superior brasileiro”, organizada pelos pesquisadores Luiz Augusto Campos e Márcia Lima. O evento contará com um bate-papo com os organizadores, seguido de sessão de autógrafos na Faced/UFBA (Av. Reitor Miguel Calmon, s/n, Canela), com entrada gratuita. Serviço Lançamento do livro “O Impacto das Cotas”📅 03 de julho (quinta-feira)⏰ 19h📍 Espaço Literatus – Faculdade de Educação da UFBA Com Luiz Augusto Campos e Márcia Lima📌 Salvador/BA
1987 e o chamado por um PT verdadeiramente antirracista
Trinta e oito anos antes do presente, em um momento decisivo da redemocratização brasileira, a Comissão do Negro do PT-DF produziu um documento que antecipou embates fundamentais sobre raça, classe e representação política no país. Preparatório para o I Encontro Nacional “O PT e a Questão Racial”, realizado entre 20 e 22 de março de 1987, o texto propõe uma guinada antirracista dentro do Partido dos Trabalhadores e oferece uma leitura crítica do racismo nas instituições, inclusive dentro da própria esquerda. O documento, resgatado agora pelo Ìrohìn como parte do acervo de memória do movimento negro, denuncia a invisibilidade do trabalho negro nas pautas centrais do partido, critica a celebração oficial do Centenário da Abolição e propõe que o 13 de Maio de 1988 seja transformado em um marco político de denúncia e mobilização. “O racismo não é, entretanto, um assunto exclusivo de negros. Por isso nos empenhamos na construção partidária de uma resposta à questão racial”, defende o texto. O texto destaca que os negros são maioria entre os trabalhadores que recebem até três salários mínimos, mas enfrentam resistências internas no PT para discutir o tema. “O Partido dos Trabalhadores não será um instrumento de avanço democrático da sociedade brasileira se não incorporar a luta contra o racismo como parte central de seu projeto”, afirma o documento. A Comissão critica setores do partido que reduzem a luta racial a um “apêndice da luta de classes”, ignorando que a exploração capitalista se sustenta também na desigualdade racial. Entre as propostas, destacam-se a criação de comissões do negro em todos os diretórios do PT, a pressão sobre a Constituinte para incluir a criminalização do racismo, e o fortalecimento de vínculos com o movimento negro internacional. Ao mesmo tempo, o documento expõe contradições internas, como a exclusão da população negra do discurso oficial do partido e a resistência de setores da esquerda em tratar a questão racial como estruturante. Esse registro histórico, agora disponível no acervo do Ìrohìn, revela a longa trajetória de enfrentamento e construção política do movimento negro dentro e fora das instituições. Veja o documento: