Na próxima terça feira, 7 de abril, às 14h, a Senzala do Barro Preto recebe o lançamento do livro Cantos de Ancestralidade – Antologia Musical do Ilê Aiyê, uma obra que reúne parte significativa da memória musical e política de um dos mais importantes movimentos culturais do país. Organizado por Valéria Lima, o livro articula diferentes vozes para registrar a trajetória do Ilê Aiyê, reconhecido como o primeiro bloco afro do Brasil. A publicação percorre décadas de produção artística, destacando a música como instrumento de afirmação identitária, formação política e resistência da população negra. Entre os autores convidados, estão Arany Santana, Lindinalva Barbosa, Maria de Lourdes Siqueira e Tiganá Santana, que apresentam leituras diversas sobre o papel do Ilê Aiyê enquanto experiência estética, política e educativa. A obra evidencia como o bloco se consolidou não apenas como referência cultural, mas também como espaço de produção de conhecimento e de construção de memória coletiva. Mais do que um registro histórico, o livro se insere no esforço contínuo de preservação e difusão de patrimônios culturais negros, conectando gerações e fortalecendo vínculos com a ancestralidade. A publicação é uma iniciativa do Instituto da Mulher Negra Mãe Hilda Jitolu, com apoio do Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI), em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. O evento é aberto ao público e integra a agenda cultural da cidade, reunindo pesquisadoras, artistas e o público interessado na história e na produção cultural negra no Brasil.
Documentos sobre escravidão e pós-abolição retratam as dificuldades dos negros para entrar no mercado de trabalho
Projeto de pesquisa coleta dados históricos em fazendas para saber como ocorreu a consolidação do trabalho durante o período da escravidão e pós-abolição no Brasil Por Marcos Santos A escravidão, o baixo crescimento demográfico e alta taxa de mortalidade infantil contribuíram negativamente para a entrada do negro no mercado de trabalho rural, no período pós-abolição. Esses dados são preliminares e constam no projeto de pesquisa Quando o interior conta, que analisa documentos encontrados em sete propriedades rurais e núcleos coloniais, no Estado de São Paulo e na parte fluminense do Vale do Paraíba, no Rio de Janeiro, do final do século 19 até meados do século 20. A iniciativa é coordenada pelos professores Bruno Gabriel Witzel de Souza, do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), e Thales Augusto Zamberlan Pereira, da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EESP). “Temos algumas evidências de que existiam fazendas que usavam o trabalhador imigrante e o trabalhador nacional, que potencialmente era um ex-escravizado. Não foi simplesmente um grupo que entrou e outro que saiu, como aprendemos anteriormente”, comenta Thales Augusto. O pesquisador da FGV-EESP destaca que os dados obtidos com as documentações encontradas são fragmentados. Segundo ele, para montar o quebra-cabeça da real situação de pessoas brancas e negras na sociedade brasileira, no final da escravidão e no pós-abolição, os dados sobre mortalidade infantil no período são uma boa métrica para mostrar as reais condições de vida da população no período. “As taxas de mortalidade, especialmente a infantil, das crianças negras eram absurdamente maiores que as das crianças brancas. Estamos vendo um reflexo do passado, e a pergunta que fazemos é se isso ocorreu pela falta de oportunidade, ou fatores estruturais, por exemplo”, diz o pesquisador. Para Bruno Gabriel, a função do estudo é verificar diferentes hipóteses que conhecemos sobre a escravidão e o pós-abolição, mas que ainda não foram confirmadas por meio de testes. “Isso vai mudar, naturalmente, as perspectivas que temos sobre a escravidão e o pós-escravidão. Queremos saber, por exemplo, o nível de produtividade de descendentes de italianos e de descendentes de escravizados. Sabemos que a dinâmica do mercado de trabalho era muito mais complexa do que pensávamos anteriormente”, salienta o pesquisador. Leia a matéria completa em: https://jornal.usp.br/diversidade/documentos-sobre-escravidao-e-pos-abolicao-retratam-as-dificuldades-dos-negros-para-entrar-no-mercado-de-trabalho/
Resolução define escravização de africanos como o mais grave crime contra a humanidade
Declaração aponta importância de se abordar injustiças históricas afetando os africanos e pessoas de ascendência africana, prevê pedido de desculpas pelo tráfico de escravos e um fundo de reparações; Portugal foi o único lusófono que se absteve na votação. A Assembleia Geral da ONU adotou nesta quarta-feira uma resolução para o reconhecimento do tráfico transatlântico de escravos como “o crime mais grave contra a humanidade”. A votação final teve 123 Estados-membros a favor, três contra e 52 abstenções, incluindo Portugal. Ruptura profunda na história humana No resultado, os restantes países lusófonos registraram votos favoráveis, sendo que Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Moçambique copatrocinaram o texto defendido por Timor-Leste. Pela decisão, os Estados-membros da organização devem considerar a apresentação de desculpas pelo tráfico de escravos e contribuir para um fundo de reparações para o fenômeno histórico ocorrido desde o Século 15. O documento destaca ainda que o tráfico de africanos escravizados em larga escala marcou uma ruptura profunda na história humana, cujas consequências se estenderam por séculos e continentes. A declaração ressalta a importância de se abordar as injustiças históricas que afetam os africanos e as pessoas de ascendência africana de uma maneira que sejam promovidos a justiça, os direitos humanos, a dignidade e a reparação. Rumo à reparação das injustiças históricas O documento também enfatiza “que as reivindicações por reparações representam um passo concreto rumo à reparação das injustiças históricas contra os africanos e as pessoas de ascendência africana”. Nesse sentido, a resolução também solicita que de forma pronta e desimpedida seja feita a restituição de bens culturais, objetos de arte, monumentos, peças de museu, artefatos, manuscritos e documentos, e arquivos nacionais. O documento enfatiza o valor espiritual, histórico, cultural ou de outra natureza para os países de origem, sem ônus, e insta ao fortalecimento da cooperação internacional em relação às reparações por quaisquer danos causados. O texto defende que essa medida conduz à promoção da cultura nacional e ao pleno exercício dos direitos culturais pelas gerações presentes e futuras. Famílias despedaçadas A proposta foi apresentada pelo presidente do Gana, John Mahama, um dos países mais afetados pelo tipo de comércio e liderou a apresentação do texto. No evento discursaram a presidente da Assembleia Geral, Annalena Baerbock, que lembrou o trabalho escravo em campos de cana-de-açúcar nos Estados Unidos, plantações de café em colônias sob controle europeu nos atuais Brasil, Barbados e a Jamaica, e dezenas de lugares. Além de famílias despedaçadas, frisou que enfrentar essas injustiças é um imperativo moral, enraizado em uma responsabilidade coletiva de confrontar os erros do passado e moldar um futuro mais justo. Ela disse que é imperioso partilhar histórias, que demanda ação para desafiar discriminações há muito enraizadas, despertar a consciência e impulsionar a construção de sociedades mais justas e inclusivas. Vítimas do comércio transatlântico E um imperativo que clama por uma autorreflexão franca até dolorosa e por responsabilização. Ela saudou a adoção da resolução por demonstrar que a ONU não se esquiva de conversas ou temas difíceis, mas enfrenta dilemas morais. Já o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que o mundo que se anseia, enraizado na liberdade, na igualdade e na justiça, está ao alcance. Fonte: https://news.un.org/pt/story/2026/03/1852716
Inclusão de raça no IR pode marcar virada na agenda de pró-equidade
Com a possibilidade de que contribuintes informem sua raça/cor, o país não poderá mais se desculpar por ignorância, tampouco pela apatia na formulação de políticas de enfrentamento ao racismo Rachel Quintiliano para o Correio Braziliense — jornalista, autora do livro Negra percepção: sobre mim e nós na pandemia e membro-fundadora da Cojira-DF Uma hora, a reivindicação do povo se transforma em política pública. Desde esta segunda, 23 de março, é possível informar a raça e a cor de quem declara o Imposto de Renda (IR) no Brasil. Esse avanço é resultado de uma agenda histórica sustentada pelo movimento social negro brasileiro — que, desde o processo de redemocratização, intensificou a pressão para que o Estado produza dados capazes de revelar quem são os brasileiros, como vivem e, sobretudo, como o racismo estrutura desigualdades. A discussão é antiga, assim como a coleta dessa informação. O quesito raça/cor é aplicado no Brasil desde a década de 1870. Naquela época, antes da abolição da escravatura, a consulta era dividida entre população livre e escravizada e utilizava as categorias branco, preto, pardo e caboclo. Ao longo do tempo, o processo de coleta desse dado se modernizou até que, quase 100 anos depois, a partir de 1990, passou a adotar o quesito como conhecemos hoje, com cinco categorias: branco, preto, pardo, amarelo e indígena. Recentemente, o IBGE tem realizado pesquisas específicas para comunidades tradicionais e/ou originárias, como quilombolas e indígenas. Menos de 10 anos após a redemocratização, ocorreu mais um marco de mobilização do movimento social negro: a Marcha Zumbi contra o racismo, pela cidadania e a vida, realizada em Brasília, em 1995, que apresentou entre as reivindicações o aperfeiçoamento e a aplicação cada vez mais ampla da informação sobre raça/cor. Segundo o documento do Movimento Negro Unificado daquela época, o recado era direto: “(…) inclusão do quesito cor em todo e qualquer sistema de informação sobre a população, cadastros do funcionalismo, usuários de serviços, internos em instituições públicas, empregados, desempregados, inativos e pensionistas e, particularmente, nas declarações de nascimentos, prontuários e atestados de óbito para que se conheça o perfil da morbidade e da mortalidade da população negra no país”. O objetivo foi — e ainda é — saber como cada pessoa, segundo sua raça/cor, acessa ou não direitos e serviços, de modo a orientar a própria administração pública a promover políticas universais, equitativas e integrais. O movimento social negro, ao mesmo tempo em que exigia do Estado brasileiro a universalização da coleta e do tratamento desse dado, colocou em curso campanhas educativas e de sensibilização para que os cidadãos soubessem responder e para que o quesito raça/cor pudesse ser aplicado de forma autodeclaratória nos processos de consulta do Censo e, posteriormente, em qualquer instrumento capaz de subsidiar políticas públicas. Tudo a seu tempo — e de forma letárgica, convenhamos. Em 2012, o país finalmente adotou o quesito raça/cor nos registros administrativos do governo federal, como resposta às diretrizes do Estatuto da Igualdade Racial (2010). Agora, 31 anos depois do levante daquele novembro e também após a proposição do projeto de lei da deputada federal Benedita da Silva (ainda em tramitação), que altera o art. 7º da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, para incluir campo para autodeclaração racial na Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda, a inclusão do quesito raça/cor chega ao popular Leão, um dos principais instrumentos para compreender como ocorre a distribuição de renda no país — algo muito além de “apenas” registrar ganhos, pagamentos e recolhimento de impostos. As informações coletadas e processadas nesse procedimento permitirão que o Estado brasileiro compreenda como a renda é distribuída em um dos países mais desiguais do mundo, que tem o racismo como um marcador dessa diferença. Com a possibilidade de que contribuintes informem sua raça/cor, o país não poderá mais se desculpar por ignorância, tampouco pela apatia na formulação de políticas de enfrentamento ao racismo e promoção da equidade em todos os campos, inclusive no econômico. Outro dia, já alertava um amigo meu, mestre em economia e pós-doutor em políticas públicas, Elias Sampaio: “(…) o desafio está em fazer políticas públicas que vão ao encontro de um desenvolvimento econômico em que a equidade racial seja central”. Ele quer dizer, com isso, que é preciso construir políticas de equidade racial em todos os espaços, não apenas nos organismos com essa finalidade específica para que uma transformação real e efetiva entre em curso. A coleta de informação de raça/cor no IR certamente jogará luz para que gestores públicos desenhem e executem políticas que, de fato, considerem essa centralidade, necessária para o bem viver do povo brasileiro. Já é hora de fazer novas e contundentes cobranças. Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2026/03/7382166-inclusao-de-raca-no-ir-pode-marcar-virada-na-agenda-de-pro-equidade.html
Doença Falciforme, Racismo Institucional e o Papel do Centro Estadual de Referência Rilza Valentim: entrevista com Altair Lira e Maria Cláudia Gonçalves
Fotos: Vilma Neres Por Inaê Cardoso Em 2011, durante uma audiência pública no Senado Federal, o senhor afirmou que a doença falciforme foi descoberta há um século e que, um século depois, ainda não se sabia exatamente o que ela era — o que comprovaria o racismo institucional na saúde. Treze anos depois, como o senhor explica que uma doença que atinge entre 60 e 100 mil pessoas no Brasil tenha permanecido invisibilizada por tanto tempo? Altair Lira:Alguns autores e autoras são fundamentais para estruturar esse pensar. Nós vamos falar das análises de Sueli Carneiro sobre o impacto do teste do pezinho para o diagnóstico da doença falciforme, mas temos também o Achille Mbembe e a discussão da necropolítica, vai se juntando uma série de autores e autoras, Fernanda Lopes com o texto Experiências desiguais ao nascer, viver e morrer…, que vão começando a pensar por que um problema de saúde pública como a doença falciforme, com essa abrangência e com o tempo da sua descoberta, permanece de algum modo nessa invisibilidade.Desde quando começamos a pensar a dimensão dos direitos das pessoas com doença falciforme, o cruzamento com o racismo era inevitável. Você faz uma associação com com outras doenças, e vai perceber que nenhuma outra levou quase um século do seu diagnóstico, da sua primeira ampla divulgação, para a primeira política pública ,que foi em 2005, com a Portaria Nº 1.391, que instituiu o Programa Nacional de Atenção às Pessoas com Doença Falciforme. Foram 95 anos.O que me surpreendeu, me levou a fazer alguns escritos, e me levou a conduzir o próprio debate da assistência à saúde, foi que nesses 95 anos não houve um hiato. E essa é a questão. Alguém poderia pensar: foi o relato pelo J.B. Erikson, lá nos EUA, em 1910, e a primeira política pública em 2005. Não. Durante esses 95 anos se produziu conhecimento, mas não se produziu assistência.É nessa hora que eu falo como o racismo é uma máquina engenhosa. Como é que você consegue, durante quase um século, produzir estudos, artigos, informações, pesquisa científica? Sabe-se que é uma mutação do cromossomo 11, sabe-se o princípio da vasoclusão, sabe-se o impacto em cada sistema do corpo. É uma doença crônica, degenerativa e sistêmica – afeta o sistema nervoso, o sistema músculo-esquelético, o sistema renal, o sistema reprodutivo. Durante um século se produziu todo esse conhecimento.A engenhosidade do racismo era que esse conhecimento não chegava na unidade básica de saúde. Não chegava no hospital, não chegava na emergência. Você percebe que é toda uma construção, que envolve educação e saúde, para que a doença permaneça nessa invisibilidade. Nós estamos na Bahia, estado com a maior população negra e maior prevalência da doença – um caso a cada 650 nascimentos – onde nem genética nem hematologia são disciplinas obrigatórias no curso de medicina. São optativas.Por isso, quando nós começamos a fazer intervenção, nós pensamos uma ação ampla e articulada que envolvesse a dimensão da formação na universidade, a formação continuada dos profissionais, para que a gente pudesse não somente tirar a doença falciforme da invisibilidade, mas cuidar das pessoas com a doença. O senhor tem uma trajetória singular: de pai que descobriu o diagnóstico da filha, fundou a Abadfal em 1999 e a Fenafal em 2001, e hoje atua como assessor de relações institucionais do Centro de Referência. Como foi essa transformação e qual foi o papel do movimento social na criação do Centro de Referência? Altair Lira: A ABADFAL foi criada em 2000. Nosso filho nasce em 99, e no final de 2000 a gente cria a ABADFAL. Em 2001 é criada a FENAFAL. Desde o início, quando começamos a atuar, uma coisa ficou muito clara para a gente: a assistência às pessoas com doença falciforme tinha que estar no SUS. Em um primeiro momento, algumas pessoas disseram: vocês têm que criar um hospital, vocês têm que criar uma clínica para atender. A gente falou que não – esse é o papel do governo.Desde o primeiro momento nós fomos mapeando quais organismos não só tinham a responsabilidade, mas eram cruciais para o atendimento da pessoa com doença falciforme. Minha trajetória é uma trajetória condicionada a esse movimento. Não só sou o pai, fundo a associação, mas também vou para a academia dialogar com ela para produzir conhecimento. Começo a trabalhar no Estado – trabalhei na Diretoria de Gestão do Cuidado da SESAB, que é onde está a política de saúde da população negra e a política de doença falciforme, durante uns três anos. Em 2023 fui convidado a estar aqui no Centro apoiando as ações.Na verdade, é um contínuo de um diálogo que a gente vem fazendo com o Estado há duas décadas, mostrando a responsabilidade. Tanto que uma possibilidade que eutenho ao estar no Centro, dentro da Secretaria de Saúde do Estado, que é fazer proposições compreendendo como é que a máquina pública se movimenta. Foi estando aqui no centro que a gente fez uma proposta, por exemplo, de realização do Censo das pessoas com doença falciforme. A gente não conseguiria fazer isso lá fora com uma associação.Mas como Estado, a gente tem os instrumentos e a gente tem principalmente a possibilidade, com os dados do censo, de poder pensar a política pública. Então, aqui é um grande movimento de troca. Eu trago conhecimento para o centro, ao mesmo tempo que o centro tem toda a estrutura de assistência que possibilita a gente poder botar essas necessidades em funcionamento.Não quero muito falar de mim, porque eu sou parte de um processo, eu não sou o processo. O que eu fiz, num determinado momento, foi aglutinar pessoas – por exemplo, a Dra. Marilda Gonçalves, da Fiocruz, que faz trabalho biomédico e de pesquisa com doenças falciformes, que é a maior referência. O pessoal da APAE em Natal. A gente colocou esse pessoal na roda e todo mundo trabalhando em rede. O problema é grande, ele não é uma questão de ação de um único indivíduo. O Centro surge dentro da pauta da
Ex-senador Abdias Nascimento completaria 112 anos neste sábado (14); hoje Senado tem apenas 24 negros eleitos
Abdias Nascimento na Câmara dos Deputados, em Brasília. | Crédito: Acervo Ipeafro Referência na luta antirracista, o intelectual antecipou pautas de reparação histórica, que hoje são leis Por Beatriz Drague Ramos para o Brasil de Fato Neste sábado (14), o Brasil celebraria os 112 anos de nascimento de Abdias Nascimento, um dos maiores expoentes da luta antirracista no país. Intelectual, artista, político e senador pelo PDT do Rio de Janeiro, Abdias dedicou sua vida ao combate ao racismo. Abdias foi eleito senador em 1991, mais de 30 anos após o início de seu mandato, a representatividade negra no Senado Federal permanece baixa. Embora a população negra represente cerca de 55% do total de brasileiros (112,8 milhões), a presença de senadores negros ainda é desproporcional, com aproximadamente 22% das cadeiras ocupadas por parlamentares que se autodeclaram pretos ou pardos, segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Atualmente não há nenhuma senadora negra eleita. A construção de um legislativo que espelhe a diversidade racial brasileira segue sendo um desafio a ser superado, sendo este um dos principais objetos de luta de Abdias Nascimento ainda quando parlamentar. Dois anos depois de regressar ao Brasil após um exílio de 13 anos nos Estados Unidos por conta da perseguição da Ditadura Militar, o parlamentar que era suplente de Darcy Ribeiro (PDT-RJ), assumiu o mandato de forma provisória em 1991 e em 1997 de forma definitiva. Ele faleceu em 2011, aos 97 anos. Antes, entre 1983 e 1987 Abdias foi deputado federal. Logo no início de seu mandato, na tribuna no Congresso Nacional, o parlamentar fez questão de demarcar sua origem africana fazendo referência à sua fé. “Senhor presidente, senhores deputados. Invoco o nome de Olorum, criador de todas as coisas: dos seres humanos e do universo. Invoco as forças telúricas da nossa pátria ancestral, a mãe África.” Abdias foi um político que, ao ocupar o Congresso, deixou marcas muito importantes em discussões, embates, discursos e afirmações em torno da pauta racial, analisa Flávia Rios, professora de sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora de pesquisa no Afro-Cebrap, núcleo de pesquisa, formação e difusão sobre a temática racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). “Comprometido com o diálogo dos feminismos, especialmente os feminismos negros, a marca dele naquele contexto, trouxe de maneira significativa e historicamente marcada a figura da pessoa negra com a simbologia das lutas pelos direitos das pessoas negras”, explica a professora da USP. Por anos, jornalistas e historiadores colocaram Abdias como o primeiro senador negro da história brasileira, no entanto, o ex-senador documentou o processo de embranquecimento de diversos senadores na história, que, segundo ele, omitiu a origem étnica de diversas autoridades da política brasileira. Em novembro de 1991, o Arquivo do Senado, em Brasília, registrou o discurso inaugural de Abdias Nascimento no plenário. Naquela ocasião, o parlamentar revelou os resultados da extensa pesquisa histórica, na qual foram identificados 22 senadores negros que o antecederam. Ele enfatizou a complexidade dessa investigação. “Tive de usar de uma sagacidade de pesquisador à beira da astúcia, indo a dezenas de fontes, cruzando vários dados, cotejando muitas informações, para chegar a esse número. Isso porque aqueles 22 senadores não assumiram etnicamente a sua condição de afro-brasileiros, muito menos as causas da negritude.” Entre os senadores com herança africana, Abdias Nascimento destacou figuras como Rodrigues Alves e Nilo Peçanha, ambos também foram ex-presidentes da República, e Tancredo Neves, cuja posse presidencial foi impedida por seu falecimento. A pesquisa de Abdias também revelou a presença de senadores negros durante o período imperial, mesmo sob o regime escravocrata, como o Barão de Cotegipe e Zacarias de Gois e Vasconcelos, que exerceram o cargo de primeiros-ministros do Brasil. No mesmo discurso, Abdias sugeriu que um pesquisador no futuro poderia descobrir mais nomes de parlamentares negros pela história do país. “Um pesquisador mais competente do que eu poderá descobrir outros afro-brasileiros na vida do Senado. Outros senadores poderão se proclamar descendentes da África. Se sou ou não o primeiro afro-brasileiro nesta Casa, se sou ou não o 23º, pouco importa. Importa, sim, que eu possa cumprir este mandato lutando pelas causas do povo afro-brasileiro, que são as causas da nossa nação. Axé!”. Leia a matéria completa em: https://www.brasildefato.com.br/2026/03/14/ex-senador-adbias-nascimento-completaria-112-anos-neste-sabado-14-hoje-senado-tem-apenas-24-negros-eleitos/
Retrospectiva dedicada à cineasta Sarah Maldoror segue em exibição no CCBB
O Cinema Anticolonial de Sarah Maldoror é a maior retrospectiva já realizada no país sobre o legado da cineasta, que é pioneira na história dos cinemas africanos e dos cinemas de mulheres e uma das mais importantes divulgadoras do trabalho dos intelectuais da Negritude. Sarah Maldoror, cineasta francesa, filha de pai guadalupense, iniciou sua carreira dando visibilidade às lutas pela independência da África, especialmente próxima dos movimentos de libertação de Angola, da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Sua obra compreende mais de quarenta filmes, entre ficções e documentários, curtas e longas-metragens. E além disso Maldoror se destaca, ainda, por utilizar a poética cinematográfica para narrar histórias revolucionárias de um ponto de vista humano, salientando o papel central das mulheres nos processos de emancipação. Primeira retrospectiva dedicada à cineasta no Brasil, a mostra oferece ao público a oportunidade de mergulhar em uma filmografia que equilibra o rigor político com uma estética refinada, algo que a tornou referência para gerações de realizadores ao redor do mundo. Serão exibidos cerca de 20 filmes, acompanhados de atividades paralelas que aprofundam o legado da diretora. Além das sessões, o público poderá participar de debates e da leitura dramática de roteiros inéditos, traduzidos para o português, reforçando o caráter histórico da mostra. A programação contará com a presença das filhas da cineasta, Henda Ducados e Annouchka de Andrade. Apresentação: Banco do Brasil Patrocínio: CCBB RJ Onde tem patrocínio Banco do Brasil, tem Governo do Brasil. Curadoria: Lúcia Ramos Monteiro, Izabel de Fátima Cruz Melo e Leticia Santinon PROGRAMAÇÃO 09/03, segunda 16h30, Prefácio a Fuzis para Banta Sessão comentada pelo produtor Vii Maydana 11/03, quarta 16h, Uma Sobremesa para Constance 17h30, Ôrí 12/03, quinta 16h30, Monangambééé + Alma no Olho 18h, Sessão Retratos de Mulheres 13/03, sexta 16h30, Sarah Assistente: Elles + O Legado da Coruja 17h30, Sem Sol 14/03, sábado 17h, Cais (Sessão mediada com Tuanny Medeiros, diretora-assistente do filme) 15/03, domingo 15h, A Batalha de Argel (Sessão comentada) 18h, Curso: Arquivos do Cinema de Mulheres (Primeira parte) 16/03, segunda 17h30, Prefácio a Fuzis para Banta Sessão comentada por Lúcia Moreira, uma das curadoras da mostra 18h, Curso: Arquivos do Cinema de Mulheres – Acervos Públicos e Pessoais (Segunda parte e encerramento) Leia a matéria completa em: https://ccbb.com.br/rio-de-janeiro/programacao/o-cinema-anticolonial-de-sarah-maldoror/
Da votação histórica em Salvador ao retorno à política baiana: Vilma Reis fala sobre representação, feminicídio e democracia
Por Redação ÌROHÌN Há mais de três décadas, Vilma Reis constrói sua trajetória política a partir das lutas do movimento negro e do movimento de mulheres, aliada à defesa intransigente dos direitos humanos. Socióloga, ativista, mestra em Ciências Sociais e uma das vozes mais contundentes contra o racismo e o patriarcado na política brasileira, ela foi, em 2022, a candidata do PT mais votada em Salvador, alcançando 35.011 votos e presença eleitoral em 92% dos municípios da Bahia. Três anos depois, após contribuir com a reconstrução de políticas públicas no governo federal e atuar na formulação de políticas de diversidade nos Correios, Vilma Reis retorna ao debate público como pré-candidata a deputada estadual. Nesta entrevista exclusiva ao Portal ÌROHÌN, ela reflete sobre o significado político daquela votação, fala sobre representação real para mulheres negras, quilombolas e periferias, e aponta os desafios urgentes para a Bahia, do enfrentamento ao feminicídio à democratização dos recursos culturais e econômicos no estado. Você foi a candidata do PT mais votada em Salvador nas eleições de 2022. O que aquela votação revelou para você sobre a Bahia que talvez a política tradicional ainda não tenha entendido? As eleições de 2022 foram fruto de toda a construção que nós fizemos de luta nos últimos 30 anos na Bahia. Foi uma resposta de desobediência ao machismo e ao racismo. É inadmissível montar uma representação na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa sem a nossa presença, sem a nossa fotografia. Ter votação em 92% dos municípios da Bahia foi uma resposta muito bonita. Essa votação de 60.949, para mim do ponto de vista político, é uma votação de altíssima qualidade. Ser a candidata do PT mais votada em Salvador, com 35.011 votos, são votos de rebelião, votos conscientes e votos posicionados. É voto de gente que sabe em quem vota e cobra depois. Quando uma mulher quilombola sai da sua comunidade para votar na gente, quando pescadoras dizem “agora a gente tem em quem votar”, isso é representação real. A política tradicional não reconhece esses sujeitos de direito: as mulheres, juventudes, povo quilombola, povo do candomblé, periferias como Nordeste de Amaralina, Cajazeiras, Subúrbio Ferroviário. Nós reconhecemos! E nesses três anos nós não soltamos a mão do nosso povo. Muitas pessoas se perguntaram onde você estava após as eleições de 2022. Que resposta você dá hoje para quem faz essa pergunta? Obrigada pela pergunta, que eu acho importante. Eu estava no trabalho. Desde novembro de 2022 eu cheguei em Brasília para fazer a transição do governo do presidente Lula na reconstrução do Ministério das Mulheres. Em seguida fui para os Correios, como a primeira mulher negra assessora da presidência de uma estatal desse porte, coordenando a política de diversidade. Saí deixando aprovada a primeira política corporativa de diversidade da empresa, com comitês nas 28 superintendências do país. Criamos políticas para garantir 40% de mulheres e 30% de negros na gestão, programa de enfrentamento aos assédios e políticas que inspiraram mais de 30 estatais brasileiras. Criamos o programa Correios Comunidade, levando serviços para favelas, territórios quilombolas e indígenas. Participamos da atualização das políticas de cotas no serviço público. Foi uma tarefa intensa e cumprida com coragem. Essa experiência também dialoga com a minha atuação como coordenadora executiva da Coletiva Mahin, onde nós organizamos as mulheres negras para atuar politicamente a partir dos territórios. Eu estava em Brasília fazendo política e fazendo a política que transforma a vida das pessoas, que planta esperança e bem viver. Eu não estava esperando o próximo cargo, mas sim cumprindo a tarefa para a qual o movimento negro e o movimento de mulheres me preparou. Eu fui formada para ocupar esses lugares e essa é a diferença: quando nós chegamos, a gente provoca reviravolta. Onde a gente pisar, a gente vai fazer a diferença, pois foi desta forma que atuei ao longo destes três anos. A Bahia está pronta para eleger uma mulher negra? Eu acredito que sim. A Bahia com a qual nós dialogamos, dos territórios, dos quilombos, das feiras, das universidades do interior, da região metropolitana e da capital, está pronta. Nosso povo não quer mais política de oligarquia, nem familismo. Quer saber em quem votou e quer poder cobrar. Nosso povo não nos nega, nos afirma. Nós precisamos de representação com dignidade. O meu voto eu sei a quem dei e sei com quem vou dialogar. Isso mudou o perfil da política na Bahia. Na sua avaliação, quais são hoje as maiores urgências da Bahia? Enfrentamento ao feminicídio é prioridade. Não tem explicação termos o número de DEAMs – Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher estagnado. Precisamos de concurso público, fortalecer a rede de atendimento, expandir a Casa da Mulher Brasileira para cidades-polo. Sem centralidade dessa agenda na Assembleia Legislativa, a política não se desdobra. Também precisamos democratizar a política cultural. O mesmo dinheiro que vai para a Concha e para o TCA precisa chegar nas periferias e nas cidades do interior. A juventude negra precisa acessar recursos para cinema, teatro, audiovisual. O dinheiro na Bahia ainda está nas mesmas mãos há 200 anos. Ele precisa passar pelas mãos da juventude negra e das mulheres negras. Precisamos também ampliar os recursos da agricultura familiar e da titularização das terras devolutas estaduais. O que te move a voltar para a disputa eleitoral, agora como pré-candidata a Deputada Estadual? A necessidade de incidir diretamente na política estadual. Entendo também que as políticas federais, como o enfrentamento ao feminicídio, precisam de liderança forte nos estados para acontecerem na ponta. Precisamos provocar uma nova institucionalidade na Bahia. Essa é uma de nossas tarefas. E por que deputada estadual e não federal? Foi uma decisão madura. Tivemos quase 61 mil votos, mas entendemos que neste momento é estratégico consolidar força na Bahia, incidir na Assembleia Legislativa e construir nosso caminho. Não tenha dúvidas de que um mandato estadual nosso terá repercussão nacional. Se você pudesse falar diretamente com o povo baiano que acreditou em você e também com quem ainda não te conhece que mensagem deixaria
Mulheres, negros e nordestinos lideram desalentados
Por Valor Econômico Com melhora do mercado de trabalho, taxa vem em queda desde 2021, mas perfil segue o mesmo Mulheres, negros, nordestinos e pessoas com baixa escolaridade foram maioria entre os desalentados nos últimos quatro anos no país. No período, a taxa de desalento caiu de 5,5% no primeiro trimestre de 2021 para 2,4% no terceiro trimestre de 2025, acompanhando a recuperação do mercado de trabalho, mas não foi suficiente para mudar o perfil do indicador, segundo estudo do FGV Ibre. Leia a matéria completa em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/03/02/mulheres-negros-e-nordestinos-lideram-desalentados.ghtml
8 em 10 feminicídios no país foram cometidos pelo ex ou atual parceiro; 62% das vítimas são negras
Por Bárbara Sá para a Folha de S. Paulo Mulheres negras, mortas dentro de casa e, na maioria das vezes, pelo próprio parceiro ou ex-companheiro. Esse é o retrato predominante dos feminicídios registrados no Brasil, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira (4) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2025, o país contabilizou 1.568 vítimas, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. A análise de 5.729 registros de feminicídio ocorridos entre 2021 e 2024 mostra que 62,6% das vítimas eram negras (3.587 mulheres), enquanto 36,8% eram brancas (2.107). A sobrerrepresentação de mulheres negras entre as vítimas indica que a violência letal de gênero também está associada a desigualdades raciais e sociais. Segundo o relatório, mulheres negras estão, em média, mais expostas a condições de vulnerabilidade socioeconômica e têm menor acesso a serviços públicos de proteção. Os dados indicam que a violência atravessa diferentes fases da vida, mas se concentra principalmente na idade adulta. Entre os casos analisados, 1.685 vítimas tinham entre 18 e 29 anos (29,4%), enquanto 2.864 mulheres estavam na faixa de 30 a 49 anos (50%). Outras 887 vítimas tinham mais de 50 anos (15,5%). Na maioria das ocorrências, o agressor tinha relação direta com a vítima: 59,4% das mulheres foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-parceiro.Entre os casos com autoria identificada, 97,3% foram cometidos por homens. Apenas 4,9% dos casos foram cometidos por desconhecidos. Casos recentes registrados em São Paulo ilustram esse padrão. Tainara Souza Santos, 31, morreu após passar quase um mês internada no Hospital das Clínicas depois de ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro por um carro dirigido por Douglas Alves da Silva, com quem havia mantido um relacionamento no passado. Amiga dela, Priscila Versão, 22, também foi morta meses depois. O suspeito é Deivit Bezerra Pereira, com quem ela teve um relacionamento e dois filhos. Familiares relataram que Priscila chegou a participar de um protesto pedindo justiça pelo ataque contra Tainara. Em relação ao instrumento utilizado, 2.790 feminicídios ocorreram com arma branca (48,7%), como faca ou machado. Outros 1.443 casos envolveram arma de fogo (25,2%). Para a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, o dado mostra que o feminicídio muitas vezes ocorre com objetos comuns do cotidiano, disponíveis dentro da própria casa. “Não estamos falando, na maior parte dos casos, de armas sofisticadas. Muitas vezes é uma faca de cozinha, um machado ou um objeto que já está dentro da residência”, afirma. Segundo ela, esse padrão reforça o caráter doméstico da violência. “O feminicídio é um crime de proximidade. Ele acontece no contexto das relações íntimas e dentro do ambiente doméstico, onde esses instrumentos estão facilmente disponíveis.” Leia a matéria completa em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/8-em-10-feminicidios-no-pais-foram-cometidos-pelo-ex-ou-atual-parceiro-62-das-vitimas-sao-negras.shtml